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Novecentos Exemplares em 1988
A primeira editora de O Alquimista imprimiu novecentos exemplares, não vendeu a tiragem e devolveu os direitos ao autor.
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Rio, 1988: tiragem de novecentos exemplares
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1986: um publicitário carioca de trinta e nove anos, com passado de letrista de música popular e nenhum livro de ficção publicado, atravessa a pé os setecentos quilômetros do caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.
1987: publica o relato da caminhada, O Diário de um Mago, numa editora pequena do Rio de Janeiro, a Eco, que trabalhava com tiragem curta e distribuição de fundo de livraria.
1988: a mesma editora imprime o segundo livro dele, uma fábula de oitenta e poucas páginas sobre um pastor andaluz que atravessa o deserto atrás de um tesouro. A tiragem é de novecentos exemplares.
1989: as vendas não justificam reimpressão. O editor chama o autor, informa que vai encerrar a aposta e devolve os direitos do título. O livro sai de catálogo e volta para a gaveta de quem escreveu.
1990: com o manuscrito na mão e nenhum contrato, ele bate na porta de uma editora maior do Rio, a Rocco, levando um livro novo debaixo do braço e o recusado junto.
1993: a HarperCollins americana compra os direitos e imprime a primeira edição em inglês, seis anos depois de o autor ter estreado numa casa que imprimia por encomenda.
1994: a edição francesa entra nas listas de mais vendidos da França e abre o mercado europeu inteiro para um livro que, na origem, tinha encalhado numa tiragem de escola.
2009: o Guinness registra o autor como detentor do recorde de livro mais traduzido de um autor vivo, com o mesmo título que tinha sido devolvido vinte anos antes.
A distância entre 1989 e 2009 costuma ser contada como sorte tardia. Os documentos contam outra sequência: contrato rasgado, manuscrito devolvido, porta nova batida com o texto intacto na pasta.
O que separa a tiragem de novecentos exemplares do recorde não é sorte de mercado nem descoberta tardia de um gênio. É uma sequência de decisões práticas tomadas por um homem que acabara de receber de volta o próprio livro como mercadoria encalhada, e que tratou a devolução como informação sobre distribuição, não como sentença sobre o texto.
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I A Queda
A tiragem que voltou para a gaveta
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24 de agosto de 1947: nasce no Rio de Janeiro, filho de um engenheiro e de uma dona de casa católica, numa família que espera do menino um diploma de direito e um emprego estável.
1966 a 1967: internado três vezes em clínica psiquiátrica por decisão dos pais, que interpretam a recusa dele em seguir a carreira prevista como distúrbio a ser tratado. Recebe eletrochoque na primeira internação, aos dezessete anos, e foge da clínica na terceira.
1971 a 1976: vira letrista de música popular brasileira em parceria com Raul Seixas, e assina algumas das canções mais tocadas do rádio brasileiro da década. Em 1974, é preso pelo regime militar por causa de uma revista em quadrinhos de conteúdo político que tinha ajudado a publicar.
1979 a 1985: trabalha como executivo de gravadora, ganha bem, larga, volta, larga de novo. Chega aos trinta e oito anos com dinheiro no banco, casamento estável e nenhum livro escrito.
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A caminhada de 1986 não foi busca de material literário: foi cumprimento de uma tarefa dada por um grupo religioso do qual ele participava, e o livro nasceu do relatório da experiência. |
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1987: O Diário de um Mago sai pela Editora Eco, casa pequena que aceitava o risco de autores desconhecidos porque trabalhava com custo baixo. O autor põe dinheiro do próprio bolso na divulgação, distribui exemplares em feiras e conversa com livreiro por livreiro.
1988: entrega à mesma editora o manuscrito de O Alquimista, escrito em duas semanas segundo o relato dele. A editora imprime novecentos exemplares. O livro fica meses na prateleira, vende devagar, e não emplaca nem resenha de peso nem espaço em livraria de rua.
1989: o editor convoca uma reunião curta. Informa que a casa não vai reimprimir e devolve formalmente os direitos ao autor. A leitura de mercado era simples: nove entre dez títulos que não giram a primeira tiragem em um ano não giram nunca.
O homem de quarenta e dois anos sai daquela reunião com um livro que nenhuma casa queria e nenhuma editora interessada. A biografia dele até ali listava internação psiquiátrica na adolescência, prisão política aos vinte e sete e uma carreira de letrista que já tinha acabado. Nada naquele currículo servia de argumento de venda para uma casa grande.
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II O Triunfo
O contrato de 1990 e as oitenta línguas
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1990: em vez de guardar o manuscrito, ele o leva junto com um livro novo, Brida, para a Editora Rocco, casa média do Rio com distribuição nacional que a Eco não tinha. A Rocco aceita os dois. Brida entra na lista dos mais vendidos brasileiros ainda naquele ano, e a reimpressão de O Alquimista pega carona na distribuição que o novo título abriu.
1990 a 1993: o autor faz o que editora nenhuma fazia por ele. Aceita entrevista em rádio de cidade pequena, senta em mesa de feira em shopping, responde carta de leitor à mão, e insiste com a Rocco por presença em livraria de aeroporto e de rodoviária, ponto de venda que o mercado literário tratava como sub-território.
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Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo. Paulo Coelho, O Alquimista, 1988 |
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1993: a agente literária Monica Antunes leva o livro à HarperCollins nos Estados Unidos, que compra os direitos e imprime a primeira edição americana em 1993. Naquele mesmo ano, uma tradução francesa é aceita pela Éditions Anne Carrière, editora recém-fundada em Paris que apostou o caixa inicial no título.
1994: a edição francesa vira fenômeno e sobe às listas de mais vendidos da França, o que faz o mercado europeu inteiro olhar para trás e comprar direitos. A partir dali, cada tradução nova alimenta a seguinte.
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O livro que uma editora carioca tirou de catálogo por falta de giro em 1989 tinha, cinco anos depois, contrato fechado nos dois mercados que mais exportam gosto literário no mundo. |
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1996 a 2008: as traduções passam de dezenas para mais de sessenta idiomas, incluindo línguas de mercado minúsculo, e o autor entra na lista de escritores vivos mais vendidos do planeta. Ele mesmo mantém contato direto com leitores por site próprio desde 1996, quando escritor com página na internet ainda era exceção.
2009: o Guinness World Records registra O Alquimista como o livro mais traduzido de um autor vivo, com sessenta e sete traduções aferidas naquela medição. O número segue subindo depois disso e passa de oitenta línguas na década seguinte.
A tradução também mudou o peso do livro no Brasil. Título que a crítica literária brasileira tratava como fenômeno de banca passou a ser lido como exportação cultural, e a mesma imprensa que não deu resenha à tiragem de 1988 abriu capa para o autor quando a França comprou os direitos.
2007 em diante: o autor é nomeado Mensageiro da Paz das Nações Unidas, entra para a Academia Brasileira de Letras em 2002 e acumula tiragem global que ultrapassa a marca de sessenta e cinco milhões de exemplares só desse título.
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