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A Queda do Dia
Os Quarenta e Dois Dias
Uma Ferrari em chamas no coração da Alemanha. Um rosto marcado para sempre. E o retorno mais improvável da história do automobilismo.
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Uma Ferrari em chamas no inferno verde de Nürburgring. Um rosto queimado, um hospital, a extrema-unção. E, 42 dias depois, o mesmo piloto de volta ao grid em Monza. A história começa sob chuva fina na Alemanha.
1º de agosto de 1976. Nürburgring, Alemanha. Vinte e dois quilômetros de asfalto serpenteiam a floresta de Eifel sob chuva fina.
Niki Lauda não é o piloto mais talentoso do grid, e sabe. É o mais preparado. Enquanto os rivais confiam no instinto, o austríaco mede, anota, calcula cada detalhe do carro e da pista.
Ganhou o apelido de Computador. Campeão mundial na temporada anterior, lidera o campeonato de novo. E fez a conta que ninguém queria fazer: aquele circuito é longo demais para ser socorrido a tempo.
Ele propõe aos colegas o boicote da prova. Os pilotos votam, o boicote perde. E o homem que apontou o perigo alinha a Ferrari no grid mesmo assim, porque correr é o ofício dele.
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Na segunda volta, a Ferrari cruza a pista sem controle, bate no talude e vira uma bola de fogo com o piloto preso dentro. |
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O capacete salta com o impacto. O fogo encontra o rosto.
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A queda de Lauda durou segundos e cobrou o preço de uma vida inteira. O carro parou em chamas no meio da pista, com o piloto lá dentro, consciente.
Quatro pilotos pararam os próprios carros e mergulharam no fogo para arrancá-lo do cockpit. Quando o tiraram, o rosto já não era o mesmo. Os pulmões tinham inalado os gases da fuselagem em combustão.
No hospital, o quadro piorava a cada hora. Queimaduras profundas na cabeça, sangue intoxicado, coma. Os médicos falavam baixo nos corredores, e o mundo começou a preparar a despedida.
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Numa madrugada daquela primeira semana, um padre entrou no quarto e administrou a extrema-unção. |
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Os jornais rascunharam as páginas de adeus. Na Ferrari, já se discutia quem herdaria o carro número um. Para todos os efeitos, a carreira de Niki Lauda tinha acabado num barranco da Alemanha.
Mas dentro daquele quarto, o computador seguia ligado. Lauda contou depois que ouvia as vozes ao redor pedindo que resistisse, e decidiu, com a frieza de sempre, ficar.
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O campeão do mundo recebeu a extrema-unção num leito de hospital. A pergunta nos jornais não era se ele voltaria, era quem ficaria com a vaga. ~ A sentença que deram |
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Mas nem o fogo nem a extrema-unção levaram o que importava.
Quarenta e dois dias depois do acidente, Lauda entrou no paddock de Monza com as feridas ainda abertas sob a balaclava. Os médicos desaconselharam. A Ferrari já tinha contratado outro piloto. Ele vestiu o macacão mesmo assim.
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Terminou a prova em quarto lugar. Ao tirar o capacete, o tecido saiu grudado, manchado de sangue das feridas que não fecharam. O paddock inteiro entendeu que estava diante de outra categoria de coragem.
Semanas depois, sob um dilúvio no Japão, o mesmo homem estacionou o carro e abriu mão do título por um ponto, porque a conta do risco não fechava. No ano seguinte foi campeão do mundo. Sete anos depois, campeão outra vez.
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O piloto que recebeu a extrema-unção voltou ao grid em 42 dias, cruzou a linha em quarto e ainda ergueu mais dois títulos mundiais. ~ Dentro da história, não apesar dela |
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A coragem calculada valeu mais que o medo. Inclusive o medo de encarar o próprio espelho. |
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Você pode estar, agora, evitando o seu próprio espelho. A cicatriz de um fracasso público, o projeto que pegou fogo na frente de todo mundo, a vergonha que parece maior do que qualquer retorno. A tentação é esperar a cura completa antes de voltar ao grid.
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Lauda não esperou parar de doer. Voltou com as feridas abertas porque calculou que a dor era administrável e a ausência, não. ~ O que a queda ensina |
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E o mesmo homem que voltou cedo demais soube parar na hora certa, quando a chuva do Japão tornou o risco imbecil. Encarou o espelho, aceitou o novo rosto e transformou a cicatriz em instrumento de trabalho.
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Coragem não é ausência de medo. É a conta fria de quanto vale cada risco que você aceita correr. |
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