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Mil Seiscentos e Noventa e Quatro Exemplares
Jorge Amado teve os livros queimados em praça pública em Salvador em 1937 e passou os anos seguintes entre prisão e exílio.
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Salvador, novembro de 1937: a pilha na praça
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10 de novembro de 1937: Getúlio Vargas fecha o Congresso, rasga a Constituição e instala o Estado Novo. A censura à imprensa e ao livro vira rotina de polícia, e a Bahia recebe a ordem de limpar as estantes.
Novembro de 1937, Salvador: a polícia recolhe das livrarias da cidade os exemplares de um romancista de vinte e cinco anos, empilha o material em praça pública e ateia fogo. A Fundação Casa de Jorge Amado registra mil seiscentos e noventa e quatro exemplares queimados naquele dia. Entre eles, cópias de um livro sobre meninos de rua de Salvador que tinha acabado de sair das gráficas.
1936 e 1937: ele já havia passado por cadeia duas vezes antes da fogueira, e passaria de novo. 1941: sai do país e vai viver na Argentina e no Uruguai. 1942: volta, é preso em Salvador e fica confinado, proibido de deixar a Bahia.
1948: com o partido pelo qual havia sido eleito deputado federal posto na ilegalidade, perde o mandato e sai do Brasil outra vez, agora para Paris. 1950: expulso da França, muda para Praga, onde fica até 1952. Somam-se catorze anos de vida em que o endereço dele dependia de quem estava no poder e de qual decreto tinha sido assinado naquele mês.
1958: já de volta a Salvador, publica o romance que esgota edição atrás de edição e leva a Bahia dele para dentro de casas que nunca tinham comprado literatura brasileira. 1961: entra para a Academia Brasileira de Letras.
6 de agosto de 2001: ele morre em Salvador com a obra publicada em quarenta e nove idiomas e cinquenta e cinco países, conforme o levantamento da Fundação Casa de Jorge Amado, marca que nenhum outro escritor brasileiro alcançou.
O intervalo entre a pilha de livros ardendo numa praça e o autor mais traduzido do país cabe em sessenta e quatro anos, e nenhum deles foi tranquilo. A história começa numa fazenda de cacau no sul da Bahia, com um menino que aprendeu a ler ouvindo briga de terra.
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I A Queda
A pilha na praça
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10 de agosto de 1912: nasce na fazenda Auricídia, no município de Itajuípe, sul da Bahia, o filho de um plantador de cacau vindo de Sergipe. A família se muda para Ilhéus quando ele tem pouco mais de um ano, fugindo de uma enchente, e cresce ali, na zona onde coronéis do cacau disputavam terra à bala.
1927: com quinze anos, foge do colégio dos jesuítas em Salvador e passa dois meses andando pelo sertão até a casa do avô. 1928: entra para a Academia dos Rebeldes, roda de jovens escritores baianos que se reunia para discutir literatura de rua e não de salão. 1930: vai para o Rio de Janeiro estudar Direito.
1931: publica O País do Carnaval aos dezoito anos. 1933: Cacau, sobre trabalhadores das fazendas que ele tinha visto de perto na infância. 1934: Suor, sobre um cortiço de Salvador. 1935: Jubiabá. 1936: Mar Morto. Cinco romances em cinco anos, todos com trabalhador pobre no centro da cena, num país que acabava de sair do levante comunista de novembro de 1935 e caçava quem escrevesse daquele jeito.
1936: preso pela primeira vez, no Rio de Janeiro, durante a onda de detenções que se seguiu ao levante. Fica alguns meses recolhido e sai sem julgamento. A ficha policial passa a acompanhar o nome dele em cada delegacia por onde os livros circulam.
Novembro de 1937: sai Capitães da Areia, romance sobre um bando de meninos abandonados que vivia num trapiche de Salvador. Poucos dias depois, o golpe de 10 de novembro instala o Estado Novo, e o Departamento de Imprensa e Propaganda ganha poder para decidir o que pode ser impresso e vendido no país.
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A fogueira não foi metáfora de crítico literário: foi um ato administrativo, com policiais recolhendo exemplares de balcão de livraria. |
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A polícia baiana varre as livrarias de Salvador, junta o que encontra assinado por ele e queima o lote em praça pública. Mil seiscentos e noventa e quatro exemplares, no registro da Fundação Casa de Jorge Amado. O autor tinha vinte e cinco anos e seis livros publicados.
1938 a 1941: os títulos dele ficam fora de catálogo no Brasil. Ele sobrevive de jornalismo, escreve uma biografia de Castro Alves e assiste à própria obra virar item de contrabando entre leitores.
1941: deixa o país, mora em Buenos Aires e em Montevidéu. 1942: volta ao Brasil e é preso em Salvador, dessa vez com ordem de confinamento: não pode sair da Bahia. Ele tem trinta anos, cinco anos de perseguição nas costas e nenhum livro à venda com o próprio nome na capa.
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II O Triunfo
Da cadeira do plenário à cadeira 23
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1945: o Estado Novo cai em outubro e os presos políticos saem. Em dezembro, ele é eleito deputado federal por São Paulo pelo Partido Comunista Brasileiro, com a maior votação da legenda no país, oito anos depois de ver os próprios livros virarem cinza numa praça.
1946: na Assembleia Constituinte, apresenta o dispositivo de liberdade de culto religioso que entra na Constituição daquele ano, texto que protege o candomblé e os terreiros que a mesma polícia baiana costumava fechar. É o único mandato parlamentar da vida dele.
1947: o registro do partido é cassado. Janeiro de 1948: os mandatos dos deputados eleitos pela legenda são derrubados, e ele deixa o Brasil de novo. Vai para Paris, é expulso da França em 1950 e passa a viver em Praga até 1952.
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Nunca fui um literato profissional, um homem de letras. Sou um contador de histórias do meu povo. Jorge Amado, Navegação de Cabotagem, 1992 |
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1952: volta ao Brasil em definitivo e se instala em Salvador. Passa a escrever em casa, no Rio Vermelho, e vai afastando a literatura de tese que marcara os primeiros livros. O material continua o mesmo: trabalhador de porto, gente de terreiro, coronel de cacau, marisqueira, capoeirista.
1958: publica Gabriela, Cravo e Canela. O romance esgota edições, vira novela, cinema e teatro, e recoloca a Bahia dele nas prateleiras de casas que nunca tinham lido um livro de esquerda. 1961: é eleito para a Academia Brasileira de Letras, cadeira 23, aos quarenta e oito anos.
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O mesmo Estado que queimou os livros dele em 1937 passou a receber embaixador estrangeiro perguntando pelo endereço da casa dele em Salvador. |
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1966: Dona Flor e Seus Dois Maridos vende centenas de milhares de exemplares e é adaptado no cinema em 1976, na produção brasileira mais vista da década. 1969: Tenda dos Milagres, romance que ataca de frente a repressão à cultura negra na Bahia, sai enquanto o país vivia sob o Ato Institucional número 5.
1986 e 1987: a Fundação Casa de Jorge Amado é criada e abre ao público no Largo do Pelourinho, em Salvador, para guardar acervo, manuscritos e as edições estrangeiras. 1992: publica Navegação de Cabotagem, livro de memórias em que reconstrói as prisões e os exílios sem tom de queixa.
6 de agosto de 2001: morre em Salvador, quatro dias antes de completar oitenta e nove anos. Segundo o levantamento da Fundação Casa de Jorge Amado, a obra dele estava então traduzida em quarenta e nove idiomas e publicada em cinquenta e cinco países, número que nenhum outro autor brasileiro tinha atingido.
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