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I A Queda
A cela do romancista
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Marco Polo chegou preso a Gênova em 1298, aos 44 anos. A tradição diz que caiu na batalha naval de Curzola, na costa da Dalmácia, em setembro daquele ano. Parte dos historiadores prefere uma escaramuça menor, perto do porto de Laiazzo, na Turquia de hoje. Nenhum documento genovês resolve a dúvida.
Certo mesmo é a cela. Os prisioneiros venezianos ficavam em Gênova à espera de troca ou de resgate, e os de família rica recebiam visitas e mandavam cartas para casa.
No mesmo cárcere estava Rustichello de Pisa, preso desde 1284, quando Gênova derrotou a frota pisana na batalha de Meloria. Rustichello escrevia romances de cavalaria em francês, com o rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda.
Um mercador e um escritor
Marco tinha a viagem e não tinha o estilo. Rustichello tinha o estilo e catorze anos de tédio. A parceria começou ali: o veneziano ditava, o pisano escrevia.
Segundo Giovanni Battista Ramusio, editor veneziano que publicou o relato em 1559, Marco mandou buscar em Veneza as notas que trouxera da Ásia. A informação é tardia e não tem confirmação em documento da época.
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“Estando na prisão de Gênova, no ano de 1298 da Encarnação de Cristo, fez escrever tudo isto a messer Rustichello de Pisa.” Rustichello de Pisa, prólogo de A Descrição do Mundo, 1298. |
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O texto saiu em franco-italiano, um francês salpicado de palavras do norte da Itália, a língua dos romances que circulavam nas cortes. O título original, Le Divisament dou Monde (A Descrição do Mundo), prometia um retrato da Terra inteira.
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Um mercador preso e um romancista esquecido escreveram, numa cela, o primeiro retrato detalhado da China para leitores europeus. |
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Rustichello deixou marcas. As cenas de batalha lembram os torneios dos romances dele, e algumas frases de abertura se repetem quase iguais às de um livro arturiano que assinou antes.
Em maio de 1299, Veneza e Gênova assinaram a paz. Marco voltou para casa no mesmo ano. Rustichello sai dos registros ali: ninguém sabe se voltou a Pisa nem quando terminou a vida, porque nenhum documento posterior cita o nome dele.
Marco saiu com o livro pronto e sem fama. Tinha 45 anos, uma fortuna em pedras e uma história que a cidade ainda ia ouvir com desconfiança.
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II O Triunfo
As cópias do Milhão
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O livro circulou depressa para a época. Copistas o passaram ao francês da corte, ao dialeto veneziano, ao toscano e ao latim. Perto de 1310, o frade dominicano Francesco Pipino, de Bolonha, fez a versão latina que mais viajou pelas bibliotecas da Europa.
O que os leitores encontravam ali parecia invenção. Um império onde se pagava com papel carimbado pelo soberano. Pedras pretas, tiradas da montanha, que queimavam a noite toda e aqueciam as casas. Estações de correio a cada 40 quilômetros, com cavalos descansados para os mensageiros.
A cidade das pontes
A descrição mais longa é a de Quinsai, a atual Hangzhou, antiga capital dos Song. O livro fala em 12 mil pontes de pedra, canais por toda parte e mercados onde se vendia peixe fresco trazido do mar todas as manhãs.
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“Senhores imperadores e reis, duques e marqueses, condes, cavaleiros e burgueses, e todas as gentes que desejais conhecer as diversas raças de homens, tomai este livro e fazei-o ler.” Rustichello de Pisa, prólogo de A Descrição do Mundo, 1298. |
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Veneza leu e riu. Marco ganhou o apelido de Il Milione (o Milhão), porque falava de riquezas em milhões. Outra explicação liga o nome a Emilione, apelido usado por um ramo da família para se distinguir de outros Polo da cidade.
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O livro chamado de exagero virou a fonte de quase todo mapa europeu da Ásia nos dois séculos seguintes. |
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Em 1375, o Atlas Catalão, feito em Maiorca para o rei da França, desenhou a caravana dos Polo e cidades chinesas tiradas do relato. Cartógrafos venezianos seguiram o mesmo caminho.
Em Veneza, Marco virou um mercador de vida comum. Casou com Donata Badoer, de família patrícia, e teve três filhas: Fantina, Bellela e Moreta. Comprava e vendia almíscar, tecidos e especiarias, e processou um agente por um prejuízo pequeno com o almíscar.
Ele nunca escreveu outro livro. Também não voltou ao Oriente. O relato seguia sendo copiado à mão sem ele, e cada copista acrescentava, cortava ou corrigia passagens, de modo que nenhuma das cópias bate com outra palavra por palavra.
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