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Marco Polo Ditou 24 Anos de Ásia Numa Cela de Gênova

Preso em 1298, o mercador veneziano contou a um romancista de Pisa a viagem à China. Chamado de mentiroso, chegou às mãos de Colombo.

Dois prisioneiros numa cela de pedra em Gênova, um ditando e outro escrevendo, em 1298.

Prisão de Gênova, 1298

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1254: nasce em Veneza Marco Polo, filho do mercador Niccolò Polo. O pai já estava a caminho do Oriente com o irmão Maffeo e só reencontra o menino quando ele tem 15 anos.

1269: Niccolò e Maffeo desembarcam em Veneza com uma carta de Kublai Khan, o imperador mongol da China, endereçada ao papa. O khan (título do soberano mongol) pedia cem sábios cristãos e óleo da lâmpada do Santo Sepulcro, em Jerusalém.

1271: Marco, aos 17 anos, parte com o pai e o tio. Levam o óleo de Jerusalém e dois frades dominicanos, que desistem logo no começo da estrada, assustados com a guerra na Armênia.

1275: depois de três anos e meio pela Pérsia, pelas montanhas do Pamir e pelo deserto de Gobi, os três chegam a Shangdu, o palácio de verão do khan, a Xanadu dos poetas ingleses. Kublai recebe o óleo, examina os viajantes e guarda o jovem Marco na corte.

Os 17 anos seguintes: Marco serve à corte como enviado. Viaja a Yunnan, no sudoeste, desce o Grande Canal e anota tudo para contar ao imperador, que gostava de relatos de terras distantes.

1292: Kublai deixa os Polo partirem como escolta da princesa Kököchin, prometida a um soberano mongol da Pérsia. A frota sai do porto de Quanzhou com 14 navios.

1295: os três batem à porta da casa da família em Veneza, com roupas mongóis gastas. Pela tradição veneziana, os parentes não os reconhecem. Eles rasgam então as costuras das roupas, e caem rubis, safiras e esmeraldas. A fortuna da viagem vinha costurada no forro.

1298: Veneza e Gênova disputam a guerra pelo comércio do Mediterrâneo. Marco comanda uma galera veneziana e acaba prisioneiro dos genoveses.

Entre a carta do khan ao papa e a galera capturada correm 29 anos. Na cela genovesa, o mercador vai encontrar o homem que põe a viagem inteira no papel.

 

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I  A Queda

A cela do romancista

 
 

Marco Polo chegou preso a Gênova em 1298, aos 44 anos. A tradição diz que caiu na batalha naval de Curzola, na costa da Dalmácia, em setembro daquele ano. Parte dos historiadores prefere uma escaramuça menor, perto do porto de Laiazzo, na Turquia de hoje. Nenhum documento genovês resolve a dúvida.

Certo mesmo é a cela. Os prisioneiros venezianos ficavam em Gênova à espera de troca ou de resgate, e os de família rica recebiam visitas e mandavam cartas para casa.

No mesmo cárcere estava Rustichello de Pisa, preso desde 1284, quando Gênova derrotou a frota pisana na batalha de Meloria. Rustichello escrevia romances de cavalaria em francês, com o rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda.

Um mercador e um escritor

Marco tinha a viagem e não tinha o estilo. Rustichello tinha o estilo e catorze anos de tédio. A parceria começou ali: o veneziano ditava, o pisano escrevia.

Segundo Giovanni Battista Ramusio, editor veneziano que publicou o relato em 1559, Marco mandou buscar em Veneza as notas que trouxera da Ásia. A informação é tardia e não tem confirmação em documento da época.

 

“Estando na prisão de Gênova, no ano de 1298 da Encarnação de Cristo, fez escrever tudo isto a messer Rustichello de Pisa.” Rustichello de Pisa, prólogo de A Descrição do Mundo, 1298.

 

O texto saiu em franco-italiano, um francês salpicado de palavras do norte da Itália, a língua dos romances que circulavam nas cortes. O título original, Le Divisament dou Monde (A Descrição do Mundo), prometia um retrato da Terra inteira.

 

Um mercador preso e um romancista esquecido escreveram, numa cela, o primeiro retrato detalhado da China para leitores europeus.

 

Rustichello deixou marcas. As cenas de batalha lembram os torneios dos romances dele, e algumas frases de abertura se repetem quase iguais às de um livro arturiano que assinou antes.

Em maio de 1299, Veneza e Gênova assinaram a paz. Marco voltou para casa no mesmo ano. Rustichello sai dos registros ali: ninguém sabe se voltou a Pisa nem quando terminou a vida, porque nenhum documento posterior cita o nome dele.

Marco saiu com o livro pronto e sem fama. Tinha 45 anos, uma fortuna em pedras e uma história que a cidade ainda ia ouvir com desconfiança.

 
 
 

II  O Triunfo

As cópias do Milhão

 
 

O livro circulou depressa para a época. Copistas o passaram ao francês da corte, ao dialeto veneziano, ao toscano e ao latim. Perto de 1310, o frade dominicano Francesco Pipino, de Bolonha, fez a versão latina que mais viajou pelas bibliotecas da Europa.

O que os leitores encontravam ali parecia invenção. Um império onde se pagava com papel carimbado pelo soberano. Pedras pretas, tiradas da montanha, que queimavam a noite toda e aqueciam as casas. Estações de correio a cada 40 quilômetros, com cavalos descansados para os mensageiros.

A cidade das pontes

A descrição mais longa é a de Quinsai, a atual Hangzhou, antiga capital dos Song. O livro fala em 12 mil pontes de pedra, canais por toda parte e mercados onde se vendia peixe fresco trazido do mar todas as manhãs.

 

“Senhores imperadores e reis, duques e marqueses, condes, cavaleiros e burgueses, e todas as gentes que desejais conhecer as diversas raças de homens, tomai este livro e fazei-o ler.” Rustichello de Pisa, prólogo de A Descrição do Mundo, 1298.

 

Veneza leu e riu. Marco ganhou o apelido de Il Milione (o Milhão), porque falava de riquezas em milhões. Outra explicação liga o nome a Emilione, apelido usado por um ramo da família para se distinguir de outros Polo da cidade.

 

O livro chamado de exagero virou a fonte de quase todo mapa europeu da Ásia nos dois séculos seguintes.

 

Em 1375, o Atlas Catalão, feito em Maiorca para o rei da França, desenhou a caravana dos Polo e cidades chinesas tiradas do relato. Cartógrafos venezianos seguiram o mesmo caminho.

Em Veneza, Marco virou um mercador de vida comum. Casou com Donata Badoer, de família patrícia, e teve três filhas: Fantina, Bellela e Moreta. Comprava e vendia almíscar, tecidos e especiarias, e processou um agente por um prejuízo pequeno com o almíscar.

Ele nunca escreveu outro livro. Também não voltou ao Oriente. O relato seguia sendo copiado à mão sem ele, e cada copista acrescentava, cortava ou corrigia passagens, de modo que nenhuma das cópias bate com outra palavra por palavra.

 
 
 
 

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III  A Lição

As notas de Colombo

 
 

Marco Polo deixou Veneza para sempre em 1324, aos 69 anos, de doença, na casa da família. No testamento, datado de 9 de janeiro daquele ano, libertou Pietro, o servo tártaro que trouxera da Ásia, e lhe deixou dinheiro.

O frade Jacopo d'Acqui, que escreveu cerca de uma década depois, registrou a cena final. Amigos pediram que ele retirasse os exageros do livro, para salvar a alma.

 

“Não escrevi a metade do que vi.” Jacopo d'Acqui, Imago Mundi, 1330.

 

O exemplar de Sevilha

Em 1485, o impressor Gerard Leeu publicou na Holanda a versão latina de Pipino. Um exemplar dessa edição chegou às mãos de Cristóvão Colombo, o navegador genovês, conterrâneo dos carcereiros de Marco.

Colombo leu o livro com pena na mão. Escreveu dezenas de postilas (notas de margem) em latim, sublinhando ouro, especiarias, pérolas e Cipango, o nome que Marco deu ao Japão.

Em 1492, quando zarpou de Palos, Colombo levava uma carta dos reis da Espanha endereçada ao Grande Khan. O khan não reinava mais, a dinastia mongol tinha caído em 1368, e o navegador desembarcou no Caribe.

 

Dois séculos depois da cela de Gênova, o livro do mentiroso guiou a viagem que juntou dois continentes.

 

A dúvida não acabou. Em 1995, a sinóloga britânica Frances Wood, da Biblioteca Britânica, publicou Did Marco Polo Go to China? (Marco Polo foi à China?) e apontou ausências: a Grande Muralha, o chá, os pés enfaixados das mulheres.

Em 2013, o historiador alemão Hans Ulrich Vogel respondeu com Marco Polo Was in China (Marco Polo esteve na China). Mostrou que as descrições de papel-moeda, sal e impostos batem com fontes chinesas da época, detalhes que nenhum livro europeu trazia. Para Vogel, só quem viveu na administração mongol saberia aqueles números de cobrança.

A trajetória deixa três passos para quem é desacreditado pelo que viu:

1. Registrar o relato enquanto a testemunha está viva. Sem a cela e Rustichello, a viagem teria acabado com Marco.

2. Dar o detalhe verificável. Foram o sal e o papel-moeda que convenceram os historiadores sete séculos depois.

3. Deixar o texto circular. As cópias imperfeitas levaram o livro a Maiorca, à Holanda e a Sevilha.

O túmulo de Marco, na igreja de San Lorenzo, em Veneza, se perdeu na reconstrução do templo, no fim do século XVI. O manuscrito ditado na cela também sumiu. O exemplar anotado por Colombo está na Biblioteca Colombina, na catedral de Sevilha.

Os fatos centrais desta edição vêm de Marco Polo: From Venice to Xanadu, biografia de Laurence Bergreen publicada em 2007, e de Marco Polo Was in China, de Hans Ulrich Vogel, de 2013.

A carta de Kublai Khan ao papa nunca recebeu os cem sábios. Dois séculos depois, a resposta da Europa partiu de Palos numa caravela, com outra carta ao khan e o livro de Marco anotado na bagagem de Colombo.

 

Se ninguém acreditasse no que você viu, você escreveria mesmo assim?

 
 
 
Quiz da edição

Em que ano Marco Polo foi capturado pelos genoveses e passou a ditar o relato da viagem à China pra Rustichello de Pisa?

A1271, quando partiu de Veneza com o pai e o tio
B1295, quando voltou pra casa com roupas mongóis gastas
C1298, numa guerra naval entre Veneza e Gênova
D1324, ano do testamento em Veneza

Resultado da última edição: 60% acertaram.

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