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A Queda do Dia
Doze Recusas
Mãe solo, deprimida, vivendo de auxílio. Doze editoras a rejeitaram antes do primeiro Harry Potter.
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Inverno de 1994. The Elephant House, Edimburgo, Escócia.
A mulher na mesa dos fundos pede um café e o faz durar horas. Não é avareza. É aritmética. Cada moeda no bolso tem destino marcado, e o aluguel do apartamento gelado onde mora não inclui aquecimento que ela possa pagar. O café tem calefação. O café tem mesa. O café aceita que ela fique enquanto a filha bebê dorme no carrinho ao lado.
Joanne Rowling tem 28 anos e quase nada além de um caderno. Voltou há pouco a Edimburgo, separada, sem emprego fixo, vivendo do benefício social britânico, cerca de setenta libras por semana para sustentar a si mesma e à filha. Ela descreveria mais tarde aquele período com uma honestidade que poucos têm coragem de usar: era, pelos critérios convencionais, o maior fracasso que conhecia.
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Não era só dinheiro. Era a mente. Rowling estava clinicamente deprimida, e a depressão, ela diria depois, não é tristeza. É ausência. É a sensação de oco, de não conseguir sentir nada. |
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Foi dessa ausência que ela tirou a imagem das criaturas que sugam a alegria do mundo, os Dementadores. O monstro mais assustador que inventou veio de dentro dela.
E ali, naquela mesa, com a xícara esfriando e o caderno aberto, ela escrevia sobre um menino órfão que descobre que pertence a um mundo onde sempre foi especial sem saber.
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Os anos que antecederam aquela mesa foram uma sequência de portas se fechando.
O casamento ruíra em poucos meses, em Portugal, e ela voltou à Escócia carregando a filha recém-nascida e três capítulos de um livro dentro de uma mala. A mãe dela havia morrido de esclerose múltipla aos 45 anos, sem nunca saber que a filha estava escrevendo algo.
Essa perda assombraria a história inteira: a saudade de uma mãe ausente é o coração emocional do menino que ela criava no papel.
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Sem emprego, dependendo do auxílio do governo, ela sentia o estigma. O julgamento de quem a olhava na fila do benefício com uma criança no colo. E, por dentro, o peso da depressão que a fazia duvidar de tudo, inclusive de continuar. |
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Houve momentos em que pensou que não havia saída. Ela falaria abertamente sobre isso anos depois, sobre ter chegado perto do fundo absoluto. O que a manteve em pé, repetia, foi uma certeza simples: a filha precisava dela viva, e o livro precisava ser terminado.
Então ela terminou. Datilografou o manuscrito inteiro numa máquina velha, fazendo cópias à mão porque não tinha dinheiro para fotocópias. E começou a enviá-lo para editoras.
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A primeira recusou. A segunda. A terceira. Doze editoras leram, ou nem leram, a história do menino bruxo e disseram não. Uma após a outra, doze portas. |
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Longo demais para crianças, disseram. Sem apelo comercial. Não é o que o mercado procura.
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Foi a décima terceira que abriu.
A pequena editora Bloomsbury, em Londres, recebeu o manuscrito. O presidente da casa entregou o primeiro capítulo à filha de oito anos. A menina leu, e exigiu o próximo. Esse foi o veredito que importou.
Bloomsbury aceitou publicar, e ofereceu um adiantamento de mil e quinhentas libras, uma quantia tão pequena que o próprio editor aconselhou a autora a arrumar um emprego de verdade, porque ninguém ganha dinheiro escrevendo livro infantil.
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A tiragem inicial foi de quinhentos exemplares. Quinhentos. Metade foi para bibliotecas. |
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O livro saiu em 1997. E então aconteceu a coisa mais rara do mundo editorial: o boca a boca. Crianças contavam para crianças. Pais não conseguiam fazer os filhos largarem o livro. As reimpressões começaram a se empilhar. Prêmios vieram.
Uma editora americana comprou os direitos por um valor que, para alguém que havia datilografado o manuscrito à mão por falta de dinheiro para cópias, parecia ficção.
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Os sete livros venderiam mais de quinhentos milhões de exemplares, em mais de oitenta idiomas. A mulher que vivia de setenta libras por semana tornou-se uma das autoras mais bem-sucedidas que já existiram. ~ Do benefício social ao topo do mundo |
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Mas o número que mais importa não é o de cópias vendidas. É o de leitores que, ao crescerem, dizem a mesma frase: este livro me salvou de uma infância difícil. A história escrita por uma mulher no fundo do poço virou abrigo para milhões de crianças no fundo do delas.
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Repare no que a queda fez. Não foi obstáculo à história. Foi a matéria-prima dela. A orfandade do menino veio da mãe que ela perdeu. Os Dementadores vieram da depressão que ela atravessou. O desejo de pertencer a um mundo melhor veio de uma mulher que, por dentro, não pertencia a lugar nenhum.
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A décima terceira porta não sabe nada sobre as doze anteriores. Ela só precisa que você bata. |
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Você provavelmente já guardou doze recusas. Talvez não de editoras, talvez do trabalho, da pessoa, do projeto, da vida que imaginou. O que você está atravessando agora, no escuro, sem ver saída, pode não ser o fim da sua história. Pode ser a única coisa que, um dia, a torna digna de ser contada.
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P.S.: Amanhã, no mesmo horário, outra história desenterrada. Outra queda. Outro triunfo. |
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☞ Quiz da edição
Verdadeiro ou Falso: antes de o primeiro Harry Potter ser aceito por uma pequena editora de Londres, o manuscrito foi recusado por doze editoras, numa época em que a autora vivia de auxílio do governo como mãe solo em Edimburgo.
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