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A Queda do Dia
A Tesoura e o Papel
O câncer tirou a tela de Matisse. A tesoura devolveu a obra que o tornou eterno.
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| I | O Pintor que Não Conseguia Mais Pintar |
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Os médicos deram dias de vida a Matisse, e o corpo que sobreviveu nunca mais sustentou um cavalete. Ele pegou uma tesoura e recortou no papel a obra que coroaria tudo o que pintou. A cama virou o último ateliê, e talvez o maior. A maca rola pelo corredor de Lyon.
Janeiro de 1941. Clínica do Parque, Lyon, França.
A maca rola pelo corredor frio. Em cima dela, um homem de 71 anos, barba branca, óculos redondos, o corpo encolhido sob o lençol. Henri Matisse acaba de sair de uma cirurgia de câncer abdominal. Os médicos abriram seu ventre, removeram um tumor no intestino, e disseram à família que ele não passaria daquela semana.
Ele passou. Mas o homem que sobreviveu não era mais o mesmo. A cirurgia havia danificado seus músculos abdominais de forma permanente. Matisse não conseguia mais ficar de pé diante de um cavalete. Não conseguia segurar o peso do próprio corpo pelas horas que uma tela exige.
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O gesto que sustentou sua vida inteira, o braço estendido, o pincel no ar, a dança lenta diante da pintura, estava encerrado. |
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Por mais de quarenta anos ele fora um dos maiores pintores vivos. Fundara o fauvismo. Pintara A Dança, A Alegria de Viver, telas que escandalizaram Paris e depois conquistaram o mundo inteiro. E agora, aos 71 anos, preso a uma cama e a uma cadeira de rodas, ele era um pintor sem o corpo para pintar.
A maioria das pessoas, naquele lugar, teria entendido que a obra havia acabado.
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O câncer foi só o golpe final de um ano que desabou de todos os lados.
A cirurgia o deixou dependente de cuidados constantes. Os intestinos nunca se recuperaram por completo; ele conviveria com dores e complicações pelo resto da vida. As noites eram piores que os dias: a insônia o mantinha acordado por horas, o corpo incapaz de encontrar uma posição que não doesse.
Ele chamava a sobrevivência à cirurgia de "uma segunda vida", mas era uma vida amputada de tudo o que ele sabia fazer.
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E não era só o corpo. Era a Europa inteira em chamas. A França estava ocupada pelos nazistas. |
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Sua esposa, Amélie, e sua filha, Marguerite, entraram para a Resistência francesa. Marguerite foi presa pela Gestapo, torturada, e escapou de um trem rumo a um campo de concentração saltando dele em movimento. Matisse, na cama, recebia essas notícias sem poder fazer nada além de esperar.
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O homem que pintara a alegria de viver estava cercado de morte. O corpo falhava. A guerra cercava a casa. E a tela vertical, o cavalete, o pincel longo, tinha sido arrancada das suas mãos pela faca de um cirurgião. ~ O fundo do poço, 1941 |
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Restavam a cama, a cadeira de rodas, e o tédio insuportável de um artista que não conseguia mais ser artista do único jeito que conhecia.
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Foi da cama que veio a invenção.
Sem poder ficar de pé, Matisse pediu folhas de papel e potes de tinta guache. Mandou assistentes pintarem as folhas em cores intensas, vermelhos, azuis ultramar, verdes, amarelos. E então, com uma tesoura grande na mão, deitado ou sentado na cadeira de rodas, começou a recortar.
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Ele chamava aquilo de "desenhar com tesoura". Em vez de traçar a linha e depois preencher com cor, ele cortava a cor diretamente, esculpindo formas no papel pintado como um escultor talha a pedra. Folhas, corpos, pássaros, algas, estrelas, figuras humanas reduzidas à pura silhueta.
Os assistentes prendiam os recortes nas paredes do quarto, e Matisse os reorganizava de longe, apontando com uma vara de bambu, até que a composição inteira respirasse.
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O que nasceu dessa cama não foi uma versão menor do pintor. Foi o auge dele. ~ Os recortes, ou gouaches découpés |
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Os recortes deram ao mundo A Tristeza do Rei, O Caracol, Nu Azul II, e o livro de recortes Jazz. Cores que nenhuma tela jamais alcançara, formas de uma clareza absoluta, alegria pura cortada com tesoura por um homem que não conseguia mais andar.
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A Capela do Rosário, em Vence, ele projetou inteira do leito e da cadeira de rodas: vitrais, azulejos, vestes, desenhados com carvão amarrado na ponta de uma vara de bambu. Chamou-a de obra-prima da sua vida inteira. |
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Henri Matisse morreu em 3 de novembro de 1954, aos 84 anos. Os últimos catorze anos da sua vida, os anos da cadeira de rodas, do câncer, da tesoura, produziram a arte pela qual ele é hoje mais amado e mais reconhecido no mundo inteiro.
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Matisse não recuperou o corpo que perdeu. Nunca mais pintou de pé. A faca do cirurgião encerrou para sempre o artista que ele tinha sido por quarenta anos. O que ele fez foi outra coisa: parou de chorar a ferramenta que perdera e perguntou qual ferramenta ainda lhe restava.
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Restava uma tesoura. Restava papel. Restava uma mão que ainda cortava e um olho que ainda enxergava a cor. Era pouco. E foi suficiente para criar a obra mais celebrada de uma vida inteira. ~ O que restou |
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Quando o caminho que você dominava é fechado, a tentação é parar diante da porta trancada e contar tudo o que você não pode mais fazer. Matisse fez o contrário. Olhou para o pouco que sobrou e descobriu que ali, no que restava, havia uma forma que ninguém tinha visto ainda, nem mesmo ele.
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O que te derruba pode te arrancar a ferramenta. Não a visão. E é a visão, não a ferramenta, que faz a obra. |
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☞ Quiz da edição
Verdadeiro ou Falso: depois da cirurgia de câncer que o impediu de pintar em pé, Matisse passou a criar suas obras recortando papel pintado à mão com uma tesoura, técnica que ele chamava de "desenhar com tesoura".
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