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Queda e Triunfo
Queda e Triunfo

A Queda do Dia

O Espelho no Teto

Um corrimão de bonde atravessou seu corpo aos 18. Do leito, ela começou a pintar o que a tornou imortal.

 
 

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Queda e Triunfo

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Jovem imobilizada num leito de gesso, encarando um espelho preso ao teto, na penumbra dourada de um quarto
I

A Tarde em que o Bonde Parou

 

Um corrimão de ferro atravessou o corpo de uma garota de dezoito anos, e ninguém apostava que ela sairia viva da maca. Do leito imóvel, Frida se pintou até virar imortal. A cama virou ateliê e a dor virou obra. A tarde do acidente começa assim.

17 de setembro de 1925. Avenida Cuauhtémoc, Cidade do México.

Eram cerca de quatro da tarde. Tinha começado a chover de manhã, e o ônibus de madeira recém-pintado seguia lotado pela avenida, levando estudantes de volta para casa. Numa das bancadas ia uma garota de 18 anos, de uniforme escolar, com o namorado ao lado. Ela estava distraída, procurando no chão um pacote que tinha comprado no centro.

O bonde elétrico veio pela linha cruzada, devagar, do jeito que ninguém imagina que possa matar. Não freou. Empurrou o ônibus de madeira contra um muro, lentamente, até a lataria ceder.

Quando a estrutura estourou, um corrimão de ferro entrou pelo quadril esquerdo da garota e saiu pelo outro lado do corpo. Um passageiro contou depois que o impacto arrancou suas roupas, e que o pó de ouro que outro passageiro carregava se espalhou no ar e caiu sobre a pele ensanguentada. Os curiosos gritavam: a bailarina, olhem a bailarina.

 

A garota se chamava Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón. A coluna foi fraturada em três pontos. A pélvis, esmagada. A clavícula e duas costelas, quebradas. A perna direita, partida em onze lugares. O pé direito, deslocado e triturado. O corrimão atravessou tudo.

Ninguém ali apostaria que ela sairia viva da maca. Os médicos do Hospital da Cruz Vermelha tampouco. Frida sobreviveu àquela tarde. O que ninguém previu foi o que ela faria com os meses imóveis que vieram depois.

 
 
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II

A Queda

 

Antes do bonde, Frida queria ser médica. Estudava na Escola Nacional Preparatória, uma das poucas mulheres entre dois mil alunos, e tinha um futuro científico desenhado à frente. O ferro que entrou pelo quadril desenhou outro.

Ela ficou um mês inteiro no hospital. Depois, em casa, foi imobilizada dentro de um molde de gesso que ia do pescoço à bacia, deitada de costas, proibida de se mover. Semanas viraram meses. A coluna não sarava direito.

O acidente cobraria sua conta em parcelas pela vida inteira: cerca de trinta operações cirúrgicas, corpetes de gesso, de couro e de aço usados por baixo da roupa, dores que nunca a abandonaram um único dia. A maternidade que ela desejava foi outra vítima do corrimão.

 

A dor física era constante. Mas havia uma segunda dor, mais silenciosa, que talvez fosse pior: o tédio absoluto de um corpo jovem trancado num molde, encarando o teto, sem nada para fazer com as mãos.

Foi a mãe quem montou a engenhoca que mudaria a história da arte sem saber. Mandou instalar um espelho no teto do dossel da cama, bem acima do rosto de Frida, para que a filha imobilizada pudesse pelo menos se ver. E fez adaptar um cavalete especial, daqueles que permitem pintar deitada, para que ela ocupasse as horas mortas.

 

Frida olhou para cima. No espelho, o único modelo disponível, dia após dia, era ela mesma.

 
 
 
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III

O Triunfo

 

Ela começou a se pintar. Não por vaidade, mas porque era o que estava ali, ao alcance dos olhos presos ao teto. O primeiro grande quadro nasceu daquela cama: um autorretrato que ela entregou ao namorado, o mesmo que ia ao seu lado no bonde.

Os autorretratos viraram a espinha dorsal de toda a sua obra. Em mais da metade das telas que pintou na vida, o assunto é o próprio rosto: sobrancelhas grossas, olhar de frente, sem desculpas.

 

"Pinto a mim mesma porque passo muito tempo sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor."

~ Frida Kahlo

 

Ela transformou o corpo destroçado em tema. Pintou a coluna partida como uma coluna grega rachada. Pintou o leito de hospital, o sangue, os abortos, os corpetes de aço, as cirurgias. O que outros esconderiam, ela pendurou na parede.

 

Em 1953, já muito doente, a primeira exposição individual dela no México foi inaugurada. Os médicos a proibiram de sair da cama. Ela foi assim mesmo: mandou levar a própria cama de dossel para a galeria e recebeu os convidados deitada, no meio do salão, rodeada pela obra que tinha começado décadas antes, presa a outra cama, olhando para um espelho.

Frida Kahlo morreu em julho de 1954, aos 47 anos.

Décadas depois, virou uma das pintoras mais reconhecidas e disputadas do planeta, ícone fora do mundo da arte, rosto estampado em museus de Londres a São Paulo. A garota que ia se tornar médica entrou para a história segurando um pincel deitada, vendo o mundo de cabeça para baixo num espelho de teto.

 
 
 
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IV

A Lição

 

O bonde não fez de Frida uma artista. Tirou dela tudo o que ela tinha planejado e a deixou imóvel diante de um espelho. O que ela fez com aquele espelho foi escolha sua. Podia ter passado os meses contando rachaduras no teto.

Em vez disso, pegou o único material disponível, o próprio rosto, a própria dor, o próprio corpo quebrado, e começou a transformá-lo em algo que duraria mais que ela.

 

Você não escolhe as quedas que vão te imobilizar. Quase ninguém escolhe. O que você escolhe é para onde olha quando não há mais para onde fugir, e o que faz com as mãos quando tudo o que planejou desaba.

 

Às vezes o que sobra de você, parado, encarando o teto, é exatamente a matéria-prima da obra que ninguém ainda viu.

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Verdadeiro ou Falso: foi um espelho instalado no teto da cama, acima do rosto da jovem Frida imobilizada, que tornou possível ela pintar os primeiros autorretratos tendo a si mesma como único modelo.

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