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1 leitor escolheu Momofuku Ando. Sai em 26/09.
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Dezenove Anos Olhando o Mar
Victor Hugo fugiu do golpe de 1851, recusou a anistia de Napoleão III e terminou Os Miseráveis numa ilha antes de voltar a Paris.
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No mirante de Guernsey, de frente para a França
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1802: Victor Marie Hugo nasce em Besançon, no leste da França, filho de um oficial do exército de Napoleão Bonaparte.
1831: publica Notre-Dame de Paris e vira o romancista mais lido do país.
1845: o rei Luís Filipe o nomeia par de França (membro vitalício da câmara alta) e ele começa um romance sobre um ex-condenado.
1848: com a queda da monarquia, é eleito deputado e engaveta o manuscrito pela metade.
dezembro de 1851: Luís Napoleão Bonaparte dá um golpe, Hugo tenta organizar a resistência nas ruas e cruza a fronteira belga com passaporte falso em nome de Jacques-Firmin Lanvin, operário tipógrafo.
1852: expulso da Bélgica, desembarca em Jersey, ilha britânica perto da costa da Normandia.
1855: expulso de Jersey, muda para Guernsey, a ilha vizinha.
1859: recusa a anistia oferecida pelo imperador.
1862: Os Miseráveis sai em Bruxelas e Paris.
setembro de 1870: volta a Paris de trem, um dia depois da queda do Segundo Império.
Em 1851, um escritor francês podia ser preso por um poema. Luís Napoleão, sobrinho do primeiro imperador, tinha sido eleito presidente em 1848 com mandato único de quatro anos. Sem direito à reeleição, preferiu fechar a Assembleia, prender deputados e mandar a tropa atirar em quem ergueu barricada nos bairros de Paris.
Um ano depois, um plebiscito o coroou Napoleão III. A censura voltou aos jornais, e a polícia passou a vigiar editores, livreiros e tipografias. Para a oposição sobravam três saídas: calar, ir para a prisão ou atravessar a fronteira.
Os escritores sentiam o aperto primeiro. Peças de teatro passavam pela comissão de censura antes da estreia, livros de oposição eram apreendidos na alfândega e um verso lido como ofensa ao chefe de Estado rendia processo. Bruxelas, Londres e as ilhas britânicas do Canal viraram abrigo de uma geração de republicanos franceses sem emprego e sem passaporte.
A primeira seção acompanha o homem mais famoso da literatura francesa descobrindo que a fama não protegia ninguém de uma ordem de expulsão.
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I A Queda
Um passaporte em nome de outro
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Victor Hugo tinha 49 anos em dezembro de 1851 e ocupava uma cadeira de deputado quando as tropas de Luís Napoleão tomaram Paris. Durante quatro dias ele circulou de esconderijo em esconderijo, redigindo proclamações contra o golpe e pedindo aos operários que resistissem. A repressão deixou centenas de civis abatidos nos bulevares, e a polícia ofereceu recompensa por sua captura.
Juliette Drouet, atriz e companheira dele havia quase vinte anos, arranjou o disfarce. Com um passaporte emprestado de um tipógrafo, boné de operário e casaco surrado, Hugo embarcou no trem para Bruxelas em 11 de dezembro. Um decreto de janeiro de 1852 o baniu formalmente do território francês, junto com dezenas de deputados republicanos.
Na Bélgica, ele escreveu depressa. Napoléon le Petit (Napoleão, o Pequeno), panfleto contra o novo imperador, ficou pronto em poucas semanas. O governo belga, pressionado por Paris, avisou que não queria o autor por perto depois da publicação. Em agosto de 1852, Hugo tomou um navio para Jersey, ilha que pertence à coroa britânica e fica a poucas horas da costa francesa.
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O exílio tirou dele a cadeira, a casa da Place Royale e o público de teatro. Deixou a caneta, e ele passou a usá-la contra o imperador. |
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A família inteira foi junto: a mulher, Adèle, os filhos Charles e François-Victor e a filha caçula, também chamada Adèle. Instalaram-se em Marine Terrace, casa fria diante do mar. Juliette morava a poucas ruas. Para pagar as contas, Hugo vendeu móveis e objetos de Paris num leilão que atraiu curiosos.
Em Jersey ele escreveu Les Châtiments (Os Castigos), coleção de poemas contra Napoleão III impressa em 1853 na Bélgica e contrabandeada para a França escondida em fardos e bustos ocos. Também passou noites em sessões de mesa girante (a prática espírita de perguntar aos mortos pelo movimento de uma mesa), anotando as supostas respostas em cadernos que a família guardou.
A paz durou três anos. Em outubro de 1855, um jornal de exilados franceses em Jersey publicou uma carta que insultava a rainha Vitória. As autoridades da ilha expulsaram os responsáveis, e Hugo assinou um protesto em defesa deles. A ordem de saída chegou também para ele, e a família fez as malas de novo, desta vez para Guernsey.
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II O Triunfo
A casa sobre o porto de Guernsey
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Guernsey é menor que Jersey, com uma capital de ruas íngremes chamada Saint Peter Port. Hugo chegou em 31 de outubro de 1855 sem saber quanto tempo ficaria e, em poucos meses, fez uma aposta que um exilado raramente faz: comprou uma casa.
O dinheiro veio da poesia. Les Contemplations (As Contemplações), publicado em 1856, vendeu tão bem que pagou Hauteville House, sobrado de três andares no alto da cidade. Como proprietário, ele ficava protegido de nova expulsão pelas leis da ilha. Passou anos decorando os cômodos com madeira entalhada, azulejos e tapeçarias compradas em antiquários locais.
No topo construiu o look-out (o mirante envidraçado, na palavra inglesa que ele próprio usava). Ali escrevia de pé, diante de uma prancheta, com vista para o porto e, nos dias claros, para a costa da França. Acordava cedo, trabalhava até o almoço e nadava no mar quase todo dia, inclusive no inverno.
No andar de baixo, a vida corria em outro ritmo. Os filhos traduziam, escreviam para jornais e reclamavam do isolamento. Charles chamava a ilha de rochedo. François-Victor usou aqueles anos para traduzir as peças completas de Shakespeare para o francês, trabalho publicado entre 1859 e 1866 e reeditado até hoje.
Em agosto de 1859, Napoleão III assinou uma anistia geral para os proscritos políticos. Muitos voltaram. Hugo respondeu com uma declaração publicada nos jornais, recusando o perdão enquanto a liberdade de imprensa e o voto livre continuassem suspensos na França.
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Quando a liberdade voltar, eu voltarei. Victor Hugo, declaração de 18 de agosto de 1859, reunida em Actes et paroles, volume Pendant l'exil (1875) |
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Recusar a anistia transformou o exílio de pena em escolha. Dali em diante, cada ano em Guernsey virou um recado ao imperador. |
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Em abril de 1860 ele abriu a mala onde guardava o manuscrito engavetado desde 1848. Releu tudo por meses, reescreveu capítulos inteiros e acrescentou partes novas, como a longa descrição da batalha de Waterloo. Para escrevê-la, viajou em 1861 até a Bélgica e se hospedou perto do campo de batalha. Terminou o livro lá, em 30 de junho de 1861.
O editor belga Albert Lacroix pagou 300 mil francos pelos direitos, valor inédito para um romance na época. Os Miseráveis saiu em abril de 1862, simultaneamente em Bruxelas e Paris, e as livrarias parisienses esgotaram a primeira tiragem em poucos dias. A censura do império não conseguiu barrar o livro: Hugo tinha evitado citar Napoleão III, e proibir a história de Jean Valjean, ex-forçado que rouba um pão e passa a vida fugindo da polícia, teria custado caro ao governo.
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