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Cinco Segundos em Oitenta e Um Dias
Ele passou quarenta anos lapidando o relógio que resolveria a longitude, e o conselho reescrevia a regra a cada teste vencido.
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O relógio que cruzou o Atlântico em 1761
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Ilhas Scilly, noite de 22 de outubro de 1707. A esquadra do almirante Cloudesley Shovell volta do Mediterrâneo e acredita estar em mar aberto, a oeste da França. Está em cima das rochas da ponta da Cornualha.
Quatro navios se abrem nos recifes em poucas horas. Quase duas mil pessoas não voltam para casa. A frota não tinha sido derrotada por inimigo nenhum: ela simplesmente não sabia onde estava.
Latitude era problema resolvido havia séculos. O sol ao meio-dia, a estrela polar à noite, um quadrante na mão, e qualquer piloto dizia a que distância do equador o navio flutuava.
Longitude era outra história. Saber a que distância leste ou oeste você está exige comparar duas horas ao mesmo tempo: a hora do lugar onde o navio se encontra e a hora do porto de referência.
A Terra gira quinze graus a cada hora, e cada hora de diferença vale mil e seiscentos quilômetros no equador. A conta é trivial. O instrumento é que não existia.
Nenhum relógio sobrevivia a bordo: o sal comia o metal, o calor dilatava o aço, a umidade engrossava o óleo, e o pêndulo, que regia toda a precisão em terra firme, vira enfeite num convés que balança.
Em 1714 o Parlamento britânico transformou o problema em concurso. Vinte mil libras para quem determinasse a longitude no mar com erro de meio grau depois de uma travessia até as Índias Ocidentais, a maior recompensa técnica já oferecida na Europa.
Para julgar o prêmio criou-se o Conselho da Longitude. Astrônomos reais, almirantes, professores de matemática de Cambridge e de Oxford. Homens que já tinham a própria resposta pronta para a pergunta.
Numa vila do Lincolnshire, um carpinteiro que nunca pisou numa escola e nunca tinha subido a bordo de um navio leu sobre o concurso e concluiu que a resposta era um relógio.
Ele levaria quatro décadas para provar o ponto, e descobriria no caminho que a parte difícil nunca foi o relógio.
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I A Queda
A regra reescrita depois de cada teste
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Londres, 1730. Um homem de trinta e sete anos entra no Observatório Real com um caderno de desenhos debaixo do braço e pede para falar com o astrônomo do rei.
John Harrison era filho de carpinteiro e carpinteiro ele mesmo. Aprendeu mecânica consertando relógio de paróquia e montou o primeiro pêndulo aos vinte anos com engrenagens de madeira que solta resina e dispensa óleo.
Dezesseis anos antes, o maior nome da ciência inglesa já tinha dado o parecer.
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Um dos projetos é um relógio que marque a hora com exatidão. Mas, por causa do movimento do navio e da variação entre calor e frio, tal relógio ainda não foi feito. ~ Isaac Newton, parecer ao comitê da Câmara dos Comuns, 1714 |
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Edmond Halley ouviu o plano e, em vez de despachar o visitante, mandou-o a George Graham, o melhor relojoeiro de Londres. Graham o ouviu das dez da manhã às oito da noite e emprestou duzentas libras sem juros.
Cinco anos depois nascia o H1: trinta e quatro quilos de latão, dois balanceiros ligados por molas para que o jogo do navio anulasse a si mesmo, nenhum pêndulo.
Em 1736 o H1 foi até Lisboa e voltou. Na volta o piloto marcou a posição pelo método antigo, Harrison discordou, e pela máquina a frota estava cem quilômetros a oeste do ponto calculado. Terra à vista deu razão ao relógio.
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Em junho de 1737 o Conselho da Longitude se reuniu pela primeira vez. Não entregou o prêmio: entregou quinhentas libras para o carpinteiro construir um relógio melhor.
Ele construiu. O H2 ficou pronto em 1739 e nunca foi ao mar, porque o próprio autor achou um defeito antes de embarcá-lo. O H3 levou dezenove anos e setecentas e cinquenta e três peças, e o obrigou a inventar a lâmina bimetálica.
O H3 ainda não bastava. Aos sessenta e seis anos, Harrison fez o contrário de tudo o que vinha fazendo: em vez de maior, menor. O H4 saiu em 1759 com treze centímetros e um quilo e meio, rubis nos mancais e batida cinco vezes mais rápida.
Em novembro de 1761 o H4 embarcou para a Jamaica no Deptford, aos cuidados do filho William. Ao fim de oitenta e um dias de mar, estava cinco segundos atrasado. O Ato de 1714 tolerava dois minutos.
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O relógio superou a exigência do Parlamento vinte e quatro vezes, e o Conselho respondeu que cinco segundos podiam ter sido sorte. |
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Exigiram um segundo teste. Em 1764 o H4 foi a Barbados e errou trinta e nove segundos em quarenta e sete dias, dez vezes melhor que o exigido.
A bordo, medindo o céu pelo método rival das distâncias lunares, viajava Nevil Maskelyne. Em fevereiro de 1765 ele virou astrônomo real e, com o cargo, membro do Conselho que julgava Harrison. O concorrente virou juiz.
Naquele ano o Parlamento reescreveu a regra. Metade do dinheiro sairia se Harrison desmontasse o H4 diante de uma banca e explicasse peça por peça. A outra metade só quando outros fabricassem cópias.
Em agosto de 1765 funcionários bateram na porta de Red Lion Square e levaram H1, H2, H3 e H4. Aos setenta e dois anos, ele ficou sem as máquinas de quarenta anos de trabalho.
No ano seguinte Maskelyne testou o H4 em Greenwich e relatou que o aparelho não servia para achar longitude. Em 1766 publicou o Almanaque Náutico, que punha o método concorrente ao alcance de qualquer navio.
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II O Triunfo
O relógio testado na janela do rei
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Red Lion Square, 1770. Sem os quatro relógios e sem o prêmio, Harrison montou com o filho um quinto aparelho, o H5, um pouco menor que o H4.
Terminado o trabalho, ele parou de escrever para o Conselho. Aos setenta e nove anos, mandou o filho pedir audiência com quem estava acima dele.
Jorge III tinha observatório próprio em Kew e gosto declarado por instrumentos de precisão. Ouviu o relato de William Harrison, reconheceu o caso e ofereceu o teste dentro de casa.
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De maio a julho de 1772, dez semanas seguidas, o rei em pessoa conferiu o H5 contra o instrumento de passagem do observatório.
Nos primeiros dias o relógio adiantou de forma absurda, e a causa apareceu num armário ao lado: ímãs guardados ali perturbavam o balanceiro. Retirados os ímãs, o H5 fechou as dez semanas com erro de um terço de segundo por dia.
Jorge III mandou o velho relojoeiro peticionar ao Parlamento e avisou que, se fosse preciso, iria pessoalmente à Câmara defender o caso.
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Em junho de 1773, aos oitenta anos, Harrison recebeu do Parlamento oito mil setecentas e cinquenta libras. O prêmio de vinte mil do Ato de 1714 nunca foi entregue a ninguém, em toda a história do Conselho. |
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Enquanto a discussão se arrastava dentro da sala, o objeto escapava dela. Em 1769 o relojoeiro Larcum Kendall entregou o K1, uma cópia do H4 encomendada pelo próprio Conselho por quatrocentas e cinquenta libras.
Em 1772 o K1 embarcou com James Cook na segunda viagem ao Pacífico. Três anos de gelo antártico, calor equatorial e mar grosso, e em cada porto a posição batia com a que o relógio dizia.
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O relógio do senhor Kendall superou as expectativas do seu defensor mais entusiasmado e, corrigido de tempos em tempos por observações lunares, foi nosso guia fiel por todas as mudanças de clima. ~ James Cook, diário da segunda viagem, 1775 |
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As cartas que Cook trouxe do Pacífico foram as primeiras da região com longitude confiável. Depois delas o cronômetro virou item obrigatório de bordo: em 1831 o Beagle zarpou com vinte e dois deles.
Harrison não viu nada da consagração. Ele se apagou em 24 de março de 1776, no dia em que completava oitenta e três anos, na mesma casa de Red Lion Square.
Os quatro relógios ficaram esquecidos em Greenwich por mais de um século, parados, corroídos, alguns desmontados em caixas.
Nos anos 1920 e 1930, um oficial da Marinha chamado Rupert Gould pediu autorização e passou doze anos remontando e regulando peça por peça, no tempo livre e do próprio bolso.
H1, H2 e H3 voltaram a funcionar e batem hora até hoje na vitrine do Observatório Real de Greenwich. O H4 fica ao lado, parado e intacto.
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