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Cinco Dirigíveis Perdidos Antes do Sexto
Em 8 de agosto de 1901 ele ficou pendurado no cesto do número 5, na parede do Hotel Trocadéro, esperando os bombeiros chegarem.
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Paris, 1901: o número 6 contorna a Torre Eiffel
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20 de julho de 1873: Alberto Santos Dumont nasce em Palmira, no interior de Minas Gerais, filho de um engenheiro que virou grande cafeicultor em Ribeirão Preto, São Paulo.
1891: vai morar em Paris com a família e começa a estudar mecânica, química e eletricidade com professor particular, aos dezoito anos.
4 de julho de 1898: faz subir o balão esférico Brasil, feito de seda japonesa, o menor balão tripulado construído até então.
20 de setembro de 1898: o dirigível número 1 sobe do Jardim de Aclimatação de Paris, perde pressão no envelope e desce arrastado sobre um campo, com o piloto puxado por meninos que seguravam a corda.
11 de maio de 1899: o número 2 é apanhado por uma rajada de chuva, o envelope dobra no meio e o aparelho vai parar nas árvores do mesmo jardim.
13 de novembro de 1899: o número 3, mais gordo e inflado com gás de iluminação, dá a volta na Torre Eiffel e traz de volta a certeza de que a coisa toda tinha conserto.
1900: o número 4 é montado para disputar o prêmio criado pelo industrial do petróleo Henri Deutsch de la Meurthe, cem mil francos para quem saísse de Saint-Cloud, contornasse a Torre Eiffel e voltasse em meia hora.
13 de julho de 1901: o número 5 tenta o percurso, chega à torre, perde a hélice de velocidade e cai sobre as castanheiras do parque de Edmond de Rothschild, em Suresnes.
8 de agosto de 1901: o número 5, remontado em três semanas, tenta outra vez e termina espatifado contra a parede de um hotel na esquina do Trocadéro, com o piloto pendurado no vazio.
19 de outubro de 1901: o número 6 sai de Saint-Cloud, contorna a Torre Eiffel e volta, com a comissão do Aeroclube de França cronometrando em terra.
A leitura fácil dessa sequência diz que um brasileiro rico teve sorte na décima tentativa. A contagem diz outra coisa: o número 6 só existiu porque cinco aparelhos anteriores acabaram rasgados, encharcados, desmontados ou pendurados numa parede de Paris.
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I A Queda
O cesto pendurado na parede do hotel
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Na manhã de 8 de agosto de 1901, Alberto Santos Dumont subiu de Saint-Cloud às 6h30 com o dirigível número 5, um envelope de seda de trinta e três metros com um motor de doze cavalos preso a uma quilha de pinho. O percurso do prêmio Deutsch de la Meurthe pedia ida até a Torre Eiffel, contorno e volta ao ponto de partida em trinta minutos.
A ida foi limpa. Ele contornou a torre em pouco mais de nove minutos e virou de volta para Saint-Cloud com vento de proa, atravessando o Sena na altura do Trocadéro, o palácio de 1878 que ocupava a colina onde hoje fica o Palais de Chaillot.
Foi na volta que o envelope começou a perder hidrogênio. A bomba que mantinha o balonete interno cheio não deu conta do vazamento, a pressão caiu, a seda amoleceu e o longo envelope dobrou no meio, como um charuto mole. A quilha se curvou, o cabo tocou a hélice e o motor parou.
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Sem motor e sem forma, o aparelho virou um balão comum nas mãos do vento. Ele perdeu altura sobre os telhados da avenida do Trocadéro e foi jogado contra a parede de um hotel na esquina, onde a estrutura arrebentou e prendeu. |
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Eu estava suspenso, na cesta de vime, sobre o abismo da rua, a uns cinquenta metros do solo. Santos Dumont, Os Meus Balões (Dans l'Air), 1904 |
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O cesto ficou pendurado no pátio interno do prédio, preso pelo que sobrou da quilha, com o piloto dentro. Ele não tinha para onde pular e não conseguia subir pelos cabos, porque a estrutura de pinho e piano estava toda torta. O hidrogênio restante vazava por cima da cabeça dele.
Os bombeiros do quartel de Passy chegaram em minutos, subiram pelo telhado e jogaram uma corda até o cesto. Santos Dumont amarrou a corda na cintura, saiu do vime e foi içado até a cobertura do prédio, enquanto a multidão gritava na rua. Ele não quebrou nenhum osso.
O que sobrou do número 5 desceu em pedaços pelo pátio do hotel: seda rasgada, quilha partida, motor amassado e a hélice de dois metros lascada. Era o quinto aparelho que ele perdia em três anos, e o segundo perdido em menos de um mês, porque o mesmo dirigível já tinha caído nas castanheiras do parque de Rothschild em 13 de julho.
A conta acumulada até aquela manhã era conhecida por todo o público que acompanhava os jornais parisienses. Número 1 arrastado pelo chão em 1898. Número 2 dobrado pela chuva em 1899. Número 3 desmontado depois da temporada. Número 4 canibalizado para virar número 5. Número 5 destruído duas vezes no verão de 1901.
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II O Triunfo
Setenta e dois dias para refazer o aparelho
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Na tarde do acidente, ainda com a roupa suja de graxa, Santos Dumont mandou encomendar seda nova e telegrafou para o fabricante de motores. A decisão de construir o número 6 foi tomada antes de o cesto ser retirado do pátio do hotel.
O novo aparelho ficou pronto em poucas semanas. Tinha envelope de trinta e três metros, volume maior que o do antecessor, motor de quatro cilindros mais forte e uma quilha reforçada, para evitar a torção que tinha travado a hélice sobre o Trocadéro. A bomba de ar do balonete interno foi redimensionada, porque ela tinha sido a peça que falhou.
O primeiro voo do número 6 aconteceu em setembro de 1901. Houve mais um susto: numa das provas iniciais o aparelho bateu em árvores do Bois de Boulogne e precisou de conserto, sem ferir o piloto.
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Em 19 de outubro de 1901, às 14h42, o número 6 subiu de Saint-Cloud com a comissão do Aeroclube de França cronometrando em terra, e o vento soprando a favor na ida. |
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Ele contornou a Torre Eiffel em nove minutos e onze segundos, segundo o registro do próprio Aeroclube, e enfrentou o vento de volta. O motor falhou por alguns segundos na altura do Bois de Boulogne; ele largou o leme, subiu pela quilha de bambu até o motor e o religiou em pleno voo, depois voltou ao posto de pilotagem.
O dirigível cruzou o ponto de partida com a corda-guia arrastando, e o cronômetro oficial marcou vinte e nove minutos e trinta e um segundos até o sinal considerado válido pela comissão. Houve discussão em ata sobre o instante exato de parar o relógio, porque parte dos membros queria contar até o aparelho ser amarrado no solo, o que empurraria a marca para além de trinta minutos.
A polêmica durou semanas e foi resolvida em novembro, com a comissão confirmando a vitória e liberando os cem mil francos. Henri Deutsch de la Meurthe acrescentou uma quantia própria ao prêmio.
Santos Dumont não ficou com nada. Destinou setenta e cinco mil francos ao chefe de polícia de Paris, para tirar do prego as ferramentas de trabalhadores pobres da cidade, e dividiu os vinte e cinco mil restantes entre os operários da própria oficina, que tinham montado e remontado os cinco aparelhos anteriores.
A trajetória seguiu dali. Em 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle, em Paris, ele voou duzentos e vinte metros com o 14 Bis, aparelho mais pesado que o ar, diante da comissão do Aeroclube de França, no primeiro voo desse tipo homologado publicamente na Europa. Em 1909 apresentou o Demoiselle, monoplano pequeno de bambu cujos desenhos ele publicou sem pedir patente, para qualquer um construir.
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