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Catorze Volumes Num Colégio do Piemonte
Vivaldi foi enterrado em cova de indigente em Viena, e em 1926 um professor de Turim achou catorze volumes de concertos dele no Piemonte.
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Piemonte, 1926: os volumes reencontrados
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Viena, 28 de julho de 1741. Num quarto alugado perto da Kärntnertor, um italiano de sessenta e três anos morreu de uma inflamação interna que o registro da cidade descreveu em duas linhas secas.
O enterro saiu no cemitério do Hospital dos Cidadãos, na sepultura reservada a quem não deixava dinheiro para caixão próprio. A conta da paróquia listou o serviço mais barato do catálogo: cortejo simples, sinos pequenos, meninos do coro da catedral.
O valor total foi de dezenove florins e quarenta e cinco cruzados. Menos do que aquele mesmo homem cobrava, quinze anos antes, por um punhado de concertos vendidos a um viajante francês numa tarde em Veneza.
Ele tinha sido o músico mais publicado da Europa. Suas partituras impressas em Amsterdã circulavam de Nápoles a Londres, e um jovem organista alemão chamado Johann Sebastian Bach copiou dez daquelas peças à mão para aprender como se constrói um concerto.
Quando o caixão desceu, o nome já não valia nada no mercado que ele mesmo tinha criado. Veneza tinha trocado o estilo dele por outro mais leve, as encomendas secaram e a viagem a Viena atrás de um protetor terminou com o protetor enterrado antes dele.
Por quase dois séculos, o que sobrou foi um verbete de dicionário musical, meia dúzia de coleções impressas e a fama de compositor prolífico demais para ser levado a sério.
O que ninguém sabia é que a maior parte da obra nunca tinha sido impressa. Vivaldi escrevia para uso próprio, regia o que escrevia e guardava os manuscritos em casa, empilhados, encadernados por assunto.
Aquela pilha não se perdeu. Ela foi vendida, atravessou fronteiras, passou de herdeiro em herdeiro e parou dentro do armário de um internato católico no interior do Piemonte, onde ficou parada tempo suficiente para todo mundo esquecer o que era.
Em 1926, um colégio salesiano precisou de dinheiro para reformar o prédio e mandou avaliar os livros velhos que tinha em depósito.
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I A Queda
O padre ruivo que Veneza cansou de ouvir
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O padre ruivo que Veneza cansou de ouvir
Antonio Vivaldi nasceu em Veneza em 1678, filho de um barbeiro que virou violinista da basílica de São Marcos. Ordenou-se padre aos vinte e cinco anos e ganhou o apelido pela cor do cabelo herdada do pai.
Cerca de um ano depois da ordenação, parou de celebrar missa. A explicação oficial era um aperto no peito que o obrigava a deixar o altar no meio do rito, e a explicação maldosa que circulava em Veneza era que ele preferia o violino.
O emprego que definiu a vida dele foi o de mestre de violino do Ospedale della Pietà, o orfanato feminino de Veneza. Ali havia uma orquestra inteira formada por meninas abandonadas, e Vivaldi passou décadas escrevendo música sob medida para elas.
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| • Concertos escritos ao longo da carreira: mais de 500 | | • Óperas que ele afirmava ter montado: 94 | | • Peças de Vivaldi copiadas à mão por Bach: 10 | | • Anos como mestre da orquestra da Pietà: mais de 30 |
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Ele não era um compositor com uma orquestra. Era uma orquestra com um compositor dentro dela, produzindo repertório novo na velocidade em que a casa consumia. |
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O arranjo era raro: um compositor com conjunto próprio, ensaio garantido e público toda semana. A produção que saiu desse arranjo tem escala industrial.
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Vivaldi tornou-se meu amigo íntimo para me vender concertos bem caro. ~ Charles de Brosses, Lettres familières écrites d'Italie, 1739 |
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Na década de 1720 o nome estava no topo. As coleções impressas em Amsterdã se esgotavam, príncipes encomendavam séries inteiras e viajantes ricos passavam em Veneza só para comprar partitura na fonte.
A frase é de um magistrado francês que visitou a cidade em 1739 e registrou, na mesma carta, uma observação bem mais dura: que o gosto veneziano tinha virado, e que a música daquele senhor já não era a que se procurava.
O gosto tinha virado mesmo. O estilo napolitano, mais cantável e mais simples, tomou os teatros italianos, e o barroco denso de Vivaldi passou a soar antiquado para o público que pagava ingresso.
As temporadas de ópera dele começaram a dar prejuízo. Em Ferrara, uma montagem foi barrada pelo cardeal local com o argumento de que um padre que não celebrava missa não deveria dirigir teatro.
A Pietà reduziu os pagamentos. As encomendas rarearam, as dívidas apareceram e ele começou a vender manuscritos avulsos, a preço de necessidade, para quem aparecesse com dinheiro na mão.
Em 1740, aos sessenta e dois anos, liquidou o que tinha em Veneza e foi para Viena tentar a proteção do imperador Carlos VI, que admirava o trabalho dele e já o havia recebido com honras anos antes.
Carlos VI morreu em outubro daquele ano, poucos meses depois da chegada. A corte entrou em luto, os teatros fecharam, a guerra de sucessão começou e o velho compositor ficou numa cidade estrangeira sem cargo, sem contrato e sem quem o apresentasse.
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II O Triunfo
O armário do colégio salesiano
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O armário do colégio salesiano
O que aconteceu com os manuscritos é a parte que quase ninguém conta. Vivaldi vendeu boa parte do próprio acervo antes de sair de Veneza, e o comprador provável foi a família de um diplomata genovês com dinheiro e gosto por música.
Giacomo Durazzo, que anos depois seria embaixador dos Habsburgo em Veneza, reuniu a coleção e a levou para a Itália. Os volumes ficaram com os herdeiros dele por gerações, tratados como biblioteca de família, não como patrimônio a divulgar.
Em algum ponto do século seguinte, um ramo da família doou parte do acervo a uma instituição religiosa do Piemonte. Os livros entraram no depósito de um colégio salesiano em Borgo San Martino, no Monferrato, e ficaram lá.
Em 1926 o colégio precisava de dinheiro para obras e resolveu vender o que tinha de antigo. Procurou a Biblioteca Nacional de Turim pedindo avaliação de um lote de volumes musicais encadernados.
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Dentro estavam noventa e sete obras instrumentais de Vivaldi, além de óperas e música sacra que ninguém no mundo tinha visto desde o século XVIII, na letra do próprio compositor. |
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A tarefa caiu para Alberto Gentili, professor de história da música da Universidade de Turim. Ele abriu os catorze volumes esperando cópias devocionais de valor médio.
Gentili entendeu duas coisas na mesma hora. A primeira é que aquilo mudava a história da música europeia. A segunda é que a numeração dos volumes estava truncada, o que significava que a coleção tinha sido partida em duas e ele estava com metade nas mãos.
Faltava dinheiro para comprar. A universidade não tinha verba, o Estado italiano era lento e a coleção corria risco de ser vendida em pedaços no mercado de antiguidades.
Gentili convenceu um comerciante de Turim, Roberto Foà, a comprar o lote e doá-lo à Biblioteca Nacional em memória do filho Mauro, morto ainda menino. A doação entrou no acervo em 1927 com o nome do menino.
Restava caçar a outra metade. Gentili levou quatro anos rastreando ramos da família Durazzo até localizar, em Gênova, um marquês que tinha os volumes restantes e nenhuma vontade especial de se desfazer deles.
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O abade Vivaldi, que teve grande receita em seu tempo, por suas prodigalidades acabou pobre em Viena. ~ Pietro Gradenigo, Notatori, Veneza, 1741 |
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A segunda compra saiu em 1930, financiada por Filippo Giordano, outro industrial que perdera um filho e aceitou repetir o gesto de Foà. As duas coleções, reunidas, somam vinte e sete volumes e cerca de quatrocentas e cinquenta obras.
Essa era a última palavra sobre ele: uma nota de fofoca escrita por um patrício veneziano no ano do enterro. Ficou valendo como epitáfio por cento e oitenta e cinco anos.
A partir dos volumes de Turim, a reconstrução foi rápida. Em 1939 aconteceu em Siena a primeira semana dedicada só à obra recuperada, e no pós-guerra as gravações fizeram o resto.
Hoje as quatro peças de violino que ele chamou de As Quatro Estações estão entre as músicas mais gravadas do planeta, tocam em elevador, em sala de espera e em trilha de filme, e boa parte do catálogo que sustenta essa fama saiu daquele armário do Piemonte.
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