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As Três Interrogações no Caderno
Ele contou dez pontos onde a geometria dizia ser impossível haver dez, e a área levou quase dez anos para parar de rir da anotação.
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Maryland, 1982: o padrão de dez pontos
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Laboratório do National Bureau of Standards, em Gaithersburg, Maryland, manhã de 8 de abril de 1982. Um pesquisador israelense de quarenta e um anos coloca no microscópio eletrônico uma fita de alumínio com manganês, resfriada tão rápido que o metal líquido virou sólido em milésimos de segundo.
A liga não tinha nada de exótico. Fazia parte de um programa financiado pela defesa americana para achar alumínio mais leve e mais resistente para aviões, e o resfriamento ultrarrápido já era rotina naquele prédio.
Na tela do difratograma apareceram dez pontos luminosos, igualmente espaçados num círculo perfeito. Ele contou uma vez. Girou a amostra, ajustou o feixe e contou de novo. Dez.
Havia um problema com aqueles dez pontos, e o problema estava em todo manual de cristalografia impresso desde o século XIX. Um cristal é feito de uma célula que se repete no espaço, e uma célula que se repete só admite eixos de simetria de ordem 1, 2, 3, 4 e 6.
Cinco e dez estavam fora. Não por falta de exemplo, por geometria pura: pentágono não ladrilha o plano, sempre sobra vão. A proibição era demonstrada, ensinada no primeiro ano de curso e nunca contestada em cem anos de difração.
Ele disse a si mesmo, em hebraico, que não existia criatura daquelas. Depois puxou o caderno do laboratório e anotou o que tinha acabado de ver, com três pontos de interrogação atrás: 10 vezes???
A anotação tem data, tem hora e não tem nenhuma testemunha. O aparelho estava calibrado, a amostra era comum, o procedimento era o de sempre. O que apareceu na tela contrariava a única coisa que a área inteira tratava como resolvida.
Nos meses seguintes ele repetiu a medida dezenas de vezes e procurou o defeito de preparação que explicaria o resultado. Não achou. O que veio depois não foi um debate técnico sobre difração de elétrons.
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I A Queda
O manual posto sobre a mesa dele
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A primeira reação dos colegas não foi curiosidade. Foi uma palavra técnica: maclagem. Dois ou mais cristais comuns, crescidos colados em ângulos específicos, produzem na difração um padrão que imita simetria proibida.
A explicação era razoável e tinha um teste. Se houvesse maclas, existiriam fronteiras entre os grãos, visíveis em campo escuro, e o padrão mudaria de forma previsível ao inclinar a amostra.
Ele inclinou a amostra em todas as direções e mediu os ângulos entre os eixos de simetria. Encontrou eixos de ordem 2, 3 e 5 dispostos exatamente como as faces de um icosaedro. Não encontrou fronteira de macla em grão nenhum.
O chefe do laboratório não pediu as imagens de campo escuro. Foi até a bancada, deixou sobre a mesa um livro-texto de cristalografia e sugeriu que ele lesse o capítulo sobre difração antes de continuar.
Poucos dias depois, o mesmo chefe pediu que ele deixasse o grupo de pesquisa, com o argumento de que o assunto estava constrangendo a equipe inteira.
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O manual não estava errado sobre os cristais que descrevia. Estava incompleto sobre os sólidos que ninguém tinha fabricado ainda. |
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O custo não foi apenas simbólico. Convite para congresso, espaço em revista e renovação de verba dependiam da mesma comunidade que tratava o resultado como vexame, e cada porta fechada tinha o mesmo motivo escrito nas entrelinhas.
Ele guardou os negativos e os cadernos por dois anos. Em 1984, já de volta ao Technion e com Ilan Blech, escreveu o artigo que descrevia uma fase metálica com ordem de longo alcance e nenhuma repetição no espaço.
O Journal of Applied Physics devolveu o texto pelo correio, sem mandar para revisores, com a informação de que o tema não interessava aos físicos.
Quando o resultado finalmente saiu impresso, em novembro de 1984, veio a reação mais cara de todas. Linus Pauling, duas vezes laureado com o Nobel e a maior autoridade viva em estrutura química, decidiu que ali havia erro de interpretação.
Pauling propôs um modelo de maclagem múltipla com células cúbicas de oitocentos e vinte átomos e publicou na Nature em 1985. Em congressos, subia ao púlpito e repetia a frase que grudaria no currículo alheio por quase dez anos.
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Não existe tal coisa como quasicristais. Existem apenas quase-cientistas. ~ Linus Pauling, citado no material oficial do Prêmio Nobel de Química, 2011 |
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A frase circulava em corredor, em sala de aula e em pedido de financiamento. Ninguém precisava refutar as medidas para descartar o trabalho, bastava repetir a piada de quem tinha dois Nobel na estante.
Ele seguiu apresentando os mesmos difratogramas nas mesmas reuniões, sem trocar de tema e sem devolver o ataque. Pauling sustentou a objeção até 1994, o último ano da própria vida, e nunca aceitou o resultado.
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II O Triunfo
Três páginas na Physical Review Letters
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O primeiro a olhar os dados sem rir foi John Cahn, no próprio National Bureau of Standards. Cahn tinha passado dois anos defendendo a hipótese da maclagem e acabou chamando o cristalógrafo francês Denis Gratias para conferir a geometria com ele.
O artigo de quatro autores foi aceito pela Physical Review Letters e publicado em 12 de novembro de 1984, em três páginas, com um título que era a própria contradição: fase metálica com ordem orientacional de longo alcance e nenhuma simetria de translação.
Cinco semanas depois, Dov Levine e Paul Steinhardt publicaram na mesma revista o modelo teórico que explicava o padrão e batizaram o material com o nome que ficou: quasicristal.
A matemática já existia havia dez anos e ninguém tinha ligado uma ponta na outra. Em 1974 Roger Penrose montou um ladrilhamento do plano com duas peças que cobre a superfície inteira sem nunca se repetir, com simetria de ordem cinco.
Em 1982 Alan Mackay fotografou a difração óptica de um arranjo de Penrose em três dimensões e obteve dez pontos luminosos num círculo. A imagem estava publicada antes de o padrão aparecer em Maryland, num periódico que os metalurgistas não liam.
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A comunidade não mudou de opinião sobre o resultado dele. Mudou a definição de cristal para o resultado caber dentro. |
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O que encerrou a discussão foi material melhor. Em 1986 um grupo francês cresceu grãos de alumínio, cobre e lítio grandes o bastante para segurar com a pinça, com as trinta faces de um triacontaedro visíveis a olho nu.
Em 1987, no Japão, An-Pang Tsai produziu quasicristais estáveis de alumínio, cobre e ferro. Estável significa que a fase não era acidente de resfriamento rápido: era o estado de equilíbrio daquela liga, reproduzível em qualquer forno.
Com cristal grande e estável na mão, a difração de raios X repetiu o mesmo padrão em laboratório atrás de laboratório, e a hipótese da maclagem perdeu o último apoio experimental que tinha.
Em 1992 a União Internacional de Cristalografia fez o que quase nenhuma área faz: apagou a definição do próprio objeto de estudo. A exigência de repetição no espaço saiu do texto e entrou um critério medido no difratograma.
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Um cristal é qualquer sólido que tenha um diagrama de difração essencialmente discreto. ~ União Internacional de Cristalografia, relatório do Comitê Executivo, Acta Crystallographica, 1992 |
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Em 2009 Luca Bindi e Paul Steinhardt encontraram um quasicristal natural numa amostra guardada no museu de Florença, vinda de um meteorito da Chukotka, no extremo leste da Rússia. A natureza já montava aquela estrutura antes de qualquer laboratório.
Em 5 de outubro de 2011 o Nobel de Química foi anunciado com um nome só na lista, sem divisão com ninguém, pela descoberta dos quasicristais.
Hoje são mais de cem ligas quasicristalinas conhecidas, e a estrutura entrou em aço de agulha cirúrgica, em lâmina de barbear e em revestimento antiaderente de frigideira.
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