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I A Queda
A visita de 1908
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A resposta de ontem Em que colina do Dnieper Shevchenko foi enterrado? Na colina Tchernetcha, junto a Kaniv, sobre o Dnieper, hoje chamada Colina de Taras. Em maio de 1861, os amigos levaram o caixão de São Petersburgo até lá de trem, carroça e barco, cumprindo o Zapovit de 1845. O túmulo virou o Museu-Reserva Nacional de Shevchenko. |
Antes da visita, veio o ano mais produtivo da vida de Hilma af Klint. Entre outubro e dezembro de 1907, ela pintou dez telas de mais de três metros de altura, em têmpera sobre papel, estendidas no chão do ateliê.
A série ganhou o nome de As Dez Maiores. Cada tela representa uma idade da vida humana: infância, juventude, idade adulta e velhice. Rosas, lilases, laranjas e azuis ocupam o papel inteiro, com espirais, pétalas e letras flutuando sem chão nem horizonte.
Hilma trabalhava de joelhos, com pincéis amarrados em cabos longos. Pintou as dez em pouco mais de dois meses, aos 45 anos.
Nenhum museu sueco encomendou as telas, e nenhum comprador as viu. Ficaram encostadas nas paredes do ateliê, à espera do templo a que se destinavam.
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“Os quadros foram pintados diretamente através de mim, sem nenhum desenho prévio e com grande força.” Hilma af Klint, cadernos de notas, c. 1907. |
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O mestre no ateliê
Em 1908, o austríaco Rudolf Steiner, então líder da Sociedade Teosófica na Alemanha, deu palestras em Estocolmo. Hilma lia os textos dele havia anos e o convidou ao ateliê da Hamngatan.
Steiner olhou as Pinturas para o Templo. Segundo o relato que ficou nos cadernos dela, ele disse que ninguém do tempo deles compreenderia aquelas telas e que seria preciso esperar cinquenta anos.
Para a pintora, a frase pesou mais que qualquer crítica de jornal. Hilma parou a série. Durante quatro anos, de 1908 a 1912, quase não pintou para o templo e passou a cuidar da mãe, que perdia a visão.
Em 1912, retomou o trabalho. Em 1915, fechou a encomenda com a série O Retábulo, três telas com um triângulo dourado, um sol e uma escada de cores. Eram 193 obras no total, e nenhuma delas tinha sido mostrada ao público.
O silêncio escolhido
Hilma ainda pintou por quase trinta anos. Escreveu mais de 26 mil páginas de notas, em mais de cem cadernos, sobre cor, forma e o sentido de cada tela.
Mostrou pouquíssimo do trabalho abstrato. Expôs em encontros fechados de antroposofia, como uma conferência em Londres em 1928, e manteve o resto guardado no ateliê.
Nos anos 1930, já perto dos setenta anos, revisou os cadernos, numerou as séries e separou as telas abstratas do resto da produção. Organizava o arquivo para leitores que ainda não tinham nascido.
Em 21 de outubro de 1944, aos 81 anos, morreu em Djursholm, perto de Estocolmo, dias depois de ser atropelada por um bonde. No mesmo ano, morriam Kandinsky e Mondrian, já tratados nos livros como os inventores da pintura abstrata.
O testamento deixou mais de mil obras ao sobrinho Erik af Klint, oficial da Marinha como o avô. Trazia uma condição: a obra abstrata só podia ser mostrada vinte anos depois da morte da pintora.
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A primeira pintora abstrata da Europa ouviu de um mestre para esperar, guardou mais de mil telas e saiu dos livros de arte do século XX. |
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II O Triunfo
As caixas do sobrinho
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O prazo do testamento venceu em 1964. As telas seguiam enroladas e empilhadas em caixas de madeira, junto com os cadernos, num sótão da família.
Erik af Klint abriu as caixas no fim dos anos 1960. Encontrou telas de três metros, cadernos com diagramas de cor e séries numeradas com a letra caprichada da tia.
Tentou entregar tudo de presente a um museu de Estocolmo. Ouviu um não. A origem espírita das obras assustava os curadores, e uma pintora de retratos de cavalos não cabia na história da arte moderna que os manuais contavam.
Em 1972, Erik criou a Fundação Hilma af Klint para guardar a coleção inteira, sem vender uma tela. A regra vale até hoje: as obras circulam por empréstimo e voltam para a fundação.
A primeira sala estrangeira
A estreia fora da Suécia demorou mais quatorze anos. Em 1986, o Museu de Arte do Condado de Los Angeles montou a exposição O Espiritual na Arte: Pintura Abstrata 1890-1985, e incluiu telas dela.
Os críticos leram as datas nas etiquetas e voltaram para conferir. As telas de 1906 e 1907 vinham antes das primeiras abstrações de Kandinsky, de 1910 e 1911.
Em 2013, uma retrospectiva em Estocolmo reuniu as séries do templo e viajou por Berlim, Málaga e Copenhague. Os livros começaram a ganhar notas de rodapé com o nome dela.
Filas se formaram nas portas dos museus. Os catálogos esgotaram, e editoras abriram os cadernos da pintora a pesquisadores de vários países.
A rampa do Guggenheim
Em 12 de outubro de 2018, o Museu Guggenheim de Nova York abriu Hilma af Klint: Pinturas para o Futuro. Eram mais de 160 obras, com As Dez Maiores penduradas lado a lado.
O museu tinha nascido em 1939 como Museu de Pintura Não Objetiva, dedicado a Kandinsky e aos abstratos. A rampa em espiral, desenhada por Frank Lloyd Wright, abrira em 1959.
Nos cadernos de Hilma, o templo imaginado para as telas tinha forma redonda e uma escada em espiral. As obras chegaram a um prédio com o formato que ela descrevera.
A mostra ficou aberta até 23 de abril de 2019. Recebeu mais de 600 mil visitantes, o maior público da história do Guggenheim, acima de qualquer exposição de Picasso ou Kandinsky no mesmo prédio.
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Recusada pela própria cidade, a obra guardada no sótão bateu o recorde de público do museu fundado para a arte abstrata. |
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