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As Telas Trancadas de Hilma af Klint

Pintou abstrato em 1906, ouviu de um mestre para esperar cinquenta anos e trancou mais de mil obras no testamento.

Pintora sueca de 1907 diante de telas abstratas gigantes com espirais e pétalas, estendidas no chão do ateliê.

Ateliê da Hamngatan, Estocolmo, 1907

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26 de outubro de 1862: nasce Hilma af Klint, no palácio de Karlberg, em Solna, vizinha de Estocolmo. O pai, Victor af Klint, é oficial da Marinha sueca, de uma família que desenha cartas náuticas há três gerações.

1880: a irmã caçula, Hermina, morre aos dez anos. Hilma tem dezessete e começa a frequentar sessões espíritas, onde se tenta ouvir quem já partiu. A família é luterana e prática; a filha guarda as sessões para os cadernos e segue pintando de dia.

1882: entra na Real Academia de Belas-Artes de Estocolmo, uma das poucas escolas da Europa abertas a mulheres. Sai em 1887 com diploma, encomendas de retrato e paisagem, e um ateliê na rua Hamngatan, no centro da cidade.

1896: forma com outras quatro mulheres um grupo chamado As Cinco. Anna Cassel, Cornelia Cederberg, Sigrid Hedman e Mathilda Nilsson se reúnem às sextas-feiras para rezar, ler a Bíblia e registrar mensagens em desenho automático, a mão correndo no papel sem plano.

Durante dez anos, os cadernos do grupo se enchem de espirais, pétalas e letras soltas. Em público, Hilma segue pintora de retratos, flores e cavalos, com obra vendida e exposta em Estocolmo.

Novembro de 1906: começa a primeira série de uma encomenda que, nas anotações dela, veio de um guia espiritual chamado Amaliel. São telas sem paisagem, sem rosto e sem objeto reconhecível: espirais, conchas, letras, círculos azuis e amarelos. A série se chama Caos Primordial.

Em 1906, Kandinsky ainda pintava cavaleiros e cidades russas. Mondrian pintava árvores e moinhos. Malevich só exporia o Quadrado Negro em 1915.

Ao longo de nove anos, a encomenda somaria 193 telas, batizadas Pinturas para o Templo. Hilma tinha 44 anos quando assinou a primeira. Dois anos depois, um visitante estrangeiro entrou no ateliê, olhou as telas por muito tempo e disse uma frase que mudaria o destino de todas elas.

 

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I  A Queda

A visita de 1908

 
 

A resposta de ontem

Em que colina do Dnieper Shevchenko foi enterrado?

Na colina Tchernetcha, junto a Kaniv, sobre o Dnieper, hoje chamada Colina de Taras. Em maio de 1861, os amigos levaram o caixão de São Petersburgo até lá de trem, carroça e barco, cumprindo o Zapovit de 1845. O túmulo virou o Museu-Reserva Nacional de Shevchenko.

Antes da visita, veio o ano mais produtivo da vida de Hilma af Klint. Entre outubro e dezembro de 1907, ela pintou dez telas de mais de três metros de altura, em têmpera sobre papel, estendidas no chão do ateliê.

A série ganhou o nome de As Dez Maiores. Cada tela representa uma idade da vida humana: infância, juventude, idade adulta e velhice. Rosas, lilases, laranjas e azuis ocupam o papel inteiro, com espirais, pétalas e letras flutuando sem chão nem horizonte.

Hilma trabalhava de joelhos, com pincéis amarrados em cabos longos. Pintou as dez em pouco mais de dois meses, aos 45 anos.

Nenhum museu sueco encomendou as telas, e nenhum comprador as viu. Ficaram encostadas nas paredes do ateliê, à espera do templo a que se destinavam.

 

“Os quadros foram pintados diretamente através de mim, sem nenhum desenho prévio e com grande força.” Hilma af Klint, cadernos de notas, c. 1907.

 

O mestre no ateliê

Em 1908, o austríaco Rudolf Steiner, então líder da Sociedade Teosófica na Alemanha, deu palestras em Estocolmo. Hilma lia os textos dele havia anos e o convidou ao ateliê da Hamngatan.

Steiner olhou as Pinturas para o Templo. Segundo o relato que ficou nos cadernos dela, ele disse que ninguém do tempo deles compreenderia aquelas telas e que seria preciso esperar cinquenta anos.

Para a pintora, a frase pesou mais que qualquer crítica de jornal. Hilma parou a série. Durante quatro anos, de 1908 a 1912, quase não pintou para o templo e passou a cuidar da mãe, que perdia a visão.

Em 1912, retomou o trabalho. Em 1915, fechou a encomenda com a série O Retábulo, três telas com um triângulo dourado, um sol e uma escada de cores. Eram 193 obras no total, e nenhuma delas tinha sido mostrada ao público.

O silêncio escolhido

Hilma ainda pintou por quase trinta anos. Escreveu mais de 26 mil páginas de notas, em mais de cem cadernos, sobre cor, forma e o sentido de cada tela.

Mostrou pouquíssimo do trabalho abstrato. Expôs em encontros fechados de antroposofia, como uma conferência em Londres em 1928, e manteve o resto guardado no ateliê.

Nos anos 1930, já perto dos setenta anos, revisou os cadernos, numerou as séries e separou as telas abstratas do resto da produção. Organizava o arquivo para leitores que ainda não tinham nascido.

Em 21 de outubro de 1944, aos 81 anos, morreu em Djursholm, perto de Estocolmo, dias depois de ser atropelada por um bonde. No mesmo ano, morriam Kandinsky e Mondrian, já tratados nos livros como os inventores da pintura abstrata.

O testamento deixou mais de mil obras ao sobrinho Erik af Klint, oficial da Marinha como o avô. Trazia uma condição: a obra abstrata só podia ser mostrada vinte anos depois da morte da pintora.

 

A primeira pintora abstrata da Europa ouviu de um mestre para esperar, guardou mais de mil telas e saiu dos livros de arte do século XX.

 
 
 
 

II  O Triunfo

As caixas do sobrinho

 
 

O prazo do testamento venceu em 1964. As telas seguiam enroladas e empilhadas em caixas de madeira, junto com os cadernos, num sótão da família.

Erik af Klint abriu as caixas no fim dos anos 1960. Encontrou telas de três metros, cadernos com diagramas de cor e séries numeradas com a letra caprichada da tia.

Tentou entregar tudo de presente a um museu de Estocolmo. Ouviu um não. A origem espírita das obras assustava os curadores, e uma pintora de retratos de cavalos não cabia na história da arte moderna que os manuais contavam.

Em 1972, Erik criou a Fundação Hilma af Klint para guardar a coleção inteira, sem vender uma tela. A regra vale até hoje: as obras circulam por empréstimo e voltam para a fundação.

A primeira sala estrangeira

A estreia fora da Suécia demorou mais quatorze anos. Em 1986, o Museu de Arte do Condado de Los Angeles montou a exposição O Espiritual na Arte: Pintura Abstrata 1890-1985, e incluiu telas dela.

Os críticos leram as datas nas etiquetas e voltaram para conferir. As telas de 1906 e 1907 vinham antes das primeiras abstrações de Kandinsky, de 1910 e 1911.

Em 2013, uma retrospectiva em Estocolmo reuniu as séries do templo e viajou por Berlim, Málaga e Copenhague. Os livros começaram a ganhar notas de rodapé com o nome dela.

Filas se formaram nas portas dos museus. Os catálogos esgotaram, e editoras abriram os cadernos da pintora a pesquisadores de vários países.

A rampa do Guggenheim

Em 12 de outubro de 2018, o Museu Guggenheim de Nova York abriu Hilma af Klint: Pinturas para o Futuro. Eram mais de 160 obras, com As Dez Maiores penduradas lado a lado.

O museu tinha nascido em 1939 como Museu de Pintura Não Objetiva, dedicado a Kandinsky e aos abstratos. A rampa em espiral, desenhada por Frank Lloyd Wright, abrira em 1959.

Nos cadernos de Hilma, o templo imaginado para as telas tinha forma redonda e uma escada em espiral. As obras chegaram a um prédio com o formato que ela descrevera.

A mostra ficou aberta até 23 de abril de 2019. Recebeu mais de 600 mil visitantes, o maior público da história do Guggenheim, acima de qualquer exposição de Picasso ou Kandinsky no mesmo prédio.

 

Recusada pela própria cidade, a obra guardada no sótão bateu o recorde de público do museu fundado para a arte abstrata.

 
 
 
 
 

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III  A Lição

O prazo do testamento

 
 

Hilma af Klint escolheu esperar, e a espera teve preço. Ela não viu nenhuma tela do templo pendurada em museu. Não viu o nome dela nos manuais, nem os críticos de 1986 conferindo datas.

O testamento também protegeu a obra. Mais de mil telas sobreviveram juntas, sem ser vendidas uma a uma, sem ser cortadas, sem ser repintadas para caber no gosto da época. Quando a hora chegou, a série estava inteira.

Os cadernos fizeram o resto. Cada tela vinha com data, número de série e anotação de método, e nenhum curador precisou adivinhar a ordem em que foram pintadas.

Cinco anos depois da primeira tela de Hilma, em 1911, Kandinsky publicou o livro que o tornaria o teórico da pintura sem objeto.

 

“A cor é a tecla. O olho é o martelo. A alma é o piano de muitas cordas.” Wassily Kandinsky, Do Espiritual na Arte, 1911.

 

O que a espera ensina

A trajetória deixa três passos para quem faz um trabalho cedo demais para o próprio tempo:

1. Registrar tudo. As 26 mil páginas de notas permitiram aos curadores datar cada série e provar a precedência das telas.

2. Manter a obra inteira. A fundação nunca vendeu uma peça, e por isso as séries chegaram completas a Los Angeles, Estocolmo e Nova York.

3. Escolher quem guarda. O sobrinho recebeu caixas, cadernos e uma instrução clara, e cumpriu as três partes.

 

A obra que o tempo dela recusou chegou ao público porque a pintora cuidou do arquivo tanto quanto da tela.

 

As telas do Caos Primordial, pintadas em novembro de 1906 no ateliê da Hamngatan, voltaram de Nova York para a fundação em Estocolmo, a poucos quilômetros do palácio de Karlberg. Antes de chegar ao Guggenheim, o sobrinho tinha tentado deixá-las de presente num museu da cidade.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual museu de Estocolmo recusou a doação das telas de Hilma af Klint?

★ RARO

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Quem leu até aqui tem mais um achado desta edição atrás do lacre.

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Quiz da edição

Em 1908, na visita ao ateliê de Hilma af Klint, o que Rudolf Steiner disse sobre as Pinturas para o Templo?

AQue ela deveria destruir as telas imediatamente
BQue seria preciso esperar cinquenta anos para serem compreendidas
CQue as telas deveriam ir direto para um museu de Estocolmo
DQue ele mesmo terminaria a série no lugar dela

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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