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A Queda do Dia
As Ferramentas Amarradas aos Punhos
Antônio Francisco Lisboa perde os dedos e o movimento das mãos para uma doença degenerativa em plena maturidade, passa a ser carregado nas costas até os andaimes e a trabalhar de madrugada para esconder o rosto, com martelo e cinzel presos aos punhos por tiras de pano, e nesse estado talha os sessenta e seis passos da Paixão e os doze profetas do adro de Congonhas.
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| I | As Ferramentas Amarradas aos Punhos |
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Antônio Francisco Lisboa perde os dedos e o movimento das mãos para uma doença degenerativa em plena maturidade, passa a ser carregado nas costas até os andaimes e a trabalhar de madrugada para esconder o rosto, com martelo e cinzel presos aos punhos por tiras de pano, e nesse estado talha os sessenta e seis passos da Paixão e os doze profetas do adro de Congonhas.
Congonhas do Campo, capitania de Minas Gerais, virada do século XIX. Antes de o sol nascer, dois ajudantes sobem o morro carregando nas costas um homem sem dedos e o deixam no alto do adro, diante de blocos de pedra-sabão ainda brutos.
O homem é Antônio Francisco Lisboa, escultor e entalhador de Vila Rica, filho de um mestre de obras português com uma mulher africana escravizada.
Na capitania inteira, é o nome que se procura quando uma igreja precisa de portal, de altar, de púlpito ou de risco de fachada. Nenhum outro entalhador de Minas cobra o que ele cobra.
Também faz mais de vinte anos que ele não tem mãos que funcionem.
Uma doença degenerativa comeu os dedos, travou as articulações e deformou os pés. Ele não fecha a mão, não segura o cinzel e não fica em pé por muito tempo.
A saída é tosca e é a única que existe. Os ajudantes amarram o martelo e o cinzel aos punhos dele com tiras de pano, e ele bate assim mesmo.
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Cada golpe passa a sair do braço inteiro, e não da mão. A pedra-sabão é macia, perdoa pouco e nunca devolve o que se tira dela. |
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Apoiado em joelheiras de couro sobre o tabuado, sem enxergar o próprio dedo indicador, ele conduz nesse arranjo a maior obra escultórica que o Brasil colonial deixou de pé.
O início dessa história não tem nada de heroico. Começa com um homem no auge do ofício perdendo o corpo pedaço por pedaço.
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Antônio Francisco Lisboa foi batizado em Vila Rica em 1730, filho do arquiteto português Manuel Francisco Lisboa com Isabel, mulher africana escravizada da casa.
O pai reconheceu o menino, deu a ele a liberdade e o criou dentro do ofício. Ele cresceu entre risco de planta, régua, formão e pedra, aprendendo desenho com o pai e entalhe com os oficiais do canteiro.
Aos vinte e poucos anos já assinava trabalho próprio. Aos trinta, era chamado em Vila Rica, Mariana, Sabará e São João del-Rei, nas obras que o ouro pagava à vista.
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Entre 1766 e 1794 ele riscou e talhou o cartão de visitas do barroco mineiro: a igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, com o portal em pedra-sabão e o medalhão sobre a entrada. |
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Era homem livre, mestre reconhecido, com oficina montada, aprendiz sob a mão e encomenda até onde a vista alcançava.
Por volta de 1777, com pouco mais de quarenta anos, começaram os sintomas.
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Perdeu os dedos um a um, e com eles a única coisa que um entalhador não consegue terceirizar: o toque. ~ Vila Rica, por volta de 1777 |
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Primeiro veio a dor e a dormência nas mãos e nos pés. Depois a perda de força, os dedos torcendo para dentro, as feridas que não fechavam.
Nenhum médico da capitania soube dizer o que era. Os papéis da época falam apenas em um mal, e a medicina moderna ainda discute o diagnóstico entre hanseníase, sífilis, porfiria e uma doença progressiva dos vasos.
O nome nunca fez diferença no resultado prático. Ele foi perdendo os dedos das mãos, os dedos dos pés e a capacidade de andar sem que alguém o segurasse.
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O apelido saiu da rua e grudou para o resto da história: Aleijadinho. |
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O rosto também mudou. A doença deformou os traços, e ele passou a fugir de ser visto, coberto por capa e chapéu de aba larga, comendo em canto separado dos oficiais.
Foi então que adotou o horário que carregaria até o fim. Subia ao trabalho de madrugada, quando o adro estava vazio, e descia antes de o movimento começar.
Também não subia mais sozinho ao andaime. Dois ajudantes, Maurício e Agostinho, o levavam nas costas até o ponto de trabalho e o traziam de volta no fim do turno.
Para um entalhador, aquilo era o fim da carreira. A ferramenta de quem talha é o dedo, e ele tinha ficado sem nenhum.
Aos quarenta e poucos anos, no ponto mais alto da reputação, Antônio Francisco Lisboa estava sem mãos, sem rosto para mostrar em praça e sem pernas que o levassem ao serviço.
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Ele não largou o ofício. Mandou amarrar a ferramenta ao corpo.
O arranjo foi combinado com os próprios ajudantes e virou rotina diária: tiras de pano em volta do punho, martelo preso de um lado, cinzel do outro, joelheiras de couro para aguentar o tabuado.
Sem dedo, o controle fino do acabamento sumiu. Ele passou a resolver a figura com o corpo inteiro, decidindo o corte inteiro na cabeça antes de encostar na pedra.
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Vila Rica, fim do século XVIII. O mestre que não fecha a mão volta ao canteiro com as ferramentas atadas aos punhos e recomeça a bater, de joelhos, antes de o sol subir. |
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O que perdeu em delicadeza de miudeza, ganhou em volume, em torção de corpo e em dobra de pano.
Foi nesse estado, e não antes, que chegou a maior encomenda da vida dele.
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Em Congonhas do Campo, um santuário erguido por promessa de um minerador português precisava povoar o morro com as cenas da Paixão.
Entre 1796 e 1799, a oficina dele entregou sessenta e seis figuras talhadas em cedro, distribuídas por seis capelas que sobem a encosta: a Ceia, o Horto, a Prisão, a Flagelação, a Cruz às Costas e a Crucificação.
São cenas de corpo inteiro, em escala quase real, com apóstolos, soldados e algozes, e nenhum rosto repetido. A pintura ficou por conta de Manoel da Costa Ataíde.
Terminado o percurso das capelas, veio a encomenda que fecharia o conjunto: as figuras do adro, no alto do morro, à vista de quem chegasse pela estrada.
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Entre 1800 e 1805, com as mãos já destruídas, ele talhou em pedra-sabão os doze profetas que ocupam a escadaria e o terraço do santuário. |
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Doze figuras de pedra talhadas por um homem que precisava ser carregado até elas. ~ Congonhas do Campo, 1805 |
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Cada um carrega o próprio filactério em latim e nenhum repete a pose do vizinho. Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Naum e Habacuque foram dispostos para funcionar de dois pontos de vista, o de quem sobe a rampa e o de quem já está no adro.
Ele nunca saiu de Minas Gerais e nunca viu escultura europeia fora de gravura de livro. Ainda assim entregou um Jonas com a baleia e profetas de turbante, tirados da estampa e do que a memória fez com ela.
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O conjunto continua no mesmo morro, ao ar livre, do jeito que ele deixou, e virou Patrimônio Mundial da Unesco em 1985. |
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Repare em que momento a obra-prima aparece. Não é no auge do corpo, é depois dele.
A igreja de São Francisco de Ouro Preto é do mestre inteiro, de mão firme. Os profetas de Congonhas são do homem que precisava ser amarrado à própria ferramenta e carregado até o serviço.
A parte da carreira que qualquer um chamaria de fim virou exatamente a parte pela qual ele é lembrado dois séculos depois.
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Ninguém devolveu os dedos a ele. Devolveram o cinzel, atado no lugar onde os dedos estavam. ~ As ferramentas amarradas aos punhos |
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Repare também na solução. Ela não tem nada de inspirado nem de bonito. É uma tira de pano em volta do punho.
Desculpa para parar era o que não faltava: sem dedo, sem pé firme, sem rosto para mostrar em público, numa capitania onde o ouro estava acabando e a encomenda começava a rarear.
Ele preferiu procurar o arranjo mais grosseiro que ainda permitisse bater no cinzel, e trabalhou dentro dele por quase quarenta anos.
E repare no que a doença não alcançou. Levou o dedo, o pé e o rosto, e não chegou perto do olho que enxergava a figura dentro do bloco antes do primeiro golpe.
O que fazia dele um mestre nunca esteve na mão. A mão apenas executava, e mão dá para substituir por tira de pano, punho e braço.
Trabalhar de madrugada nasceu de vergonha e terminou como vantagem. Ninguém interrompia, ninguém olhava, e o morro inteiro era dele até o dia clarear.
Ser carregado nas costas nasceu de humilhação e terminou como logística. Ele engoliu o constrangimento diário porque a alternativa era não subir.
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A pergunta que fica não é o que a vida já tirou de você. É o que ainda dá para amarrar no lugar do que ela levou. |
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Guia Queda e Triunfo
O Primeiro Passo de Quem Perdeu Tudo
As 12 viradas mais improváveis da história e o passo inicial que todas têm em comum.
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