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As Cartas de Wangari Maathai

Barrou uma torre de 60 andares no Uhuru Park, caiu golpeada pela polícia no mesmo gramado e levou o Nobel da Paz em 2004.

Mulher queniana diante de uma máquina de escrever, com o gramado do Uhuru Park ao fundo, Nairóbi, 1989.

Nairóbi, Uhuru Park, 1989

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1 de abril de 1940: nasce Wangari Muta Maathai em Ihithe, aldeia do povo kikuyu nas encostas do Monte Quênia, registrada só como Wangari Muta. A mãe manda a menina buscar lenha longe da mugumo (figueira sagrada, na língua kikuyu) que cresce ao lado do riacho, porque aquela árvore não se corta.

1960: embarca para os Estados Unidos no Kennedy Airlift (ponte aérea Kennedy), programa de bolsas para jovens quenianos estudarem em universidades americanas. Forma-se em biologia no Mount St. Scholastica College, no Kansas, e faz o mestrado na Universidade de Pittsburgh.

1971: conclui o doutorado em anatomia veterinária na Universidade de Nairóbi e vira a primeira mulher da África Oriental e Central com o título de doutora.

5 de junho de 1977, Dia Mundial do Meio Ambiente: planta sete mudas no parque Kamukunji, em Nairóbi, e funda o Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde). O plano é pagar mulheres do campo por muda que vingue, para devolver lenha, sombra e água às aldeias.

1979: o marido, Mwangi Mathai, pede o divórcio. No tribunal, segundo ela conta nas memórias, ele a descreve como instruída demais, forte demais, bem-sucedida demais e teimosa demais para ser controlada. O juiz dá razão a ele; ela critica a sentença numa entrevista e passa dias presa por desacato.

O ex-marido exige que ela largue o sobrenome. Ela acrescenta um a e passa a assinar Maathai.

Outubro de 1989: o jornal Kenya Times, ligado ao partido do governo, anuncia um complexo com torre de 60 andares no meio do Uhuru Park (Parque da Liberdade, em suaíli), o maior gramado público do centro de Nairóbi.

A professora de 49 anos lê a notícia e se senta à máquina de escrever. Três anos depois, o mesmo gramado seria o chão onde ela cairia desacordada, e o primeiro golpe contra ela veio em forma de palavra: louca.

 

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I  A Queda

As cartas contra a torre

 
 

Wangari Muta Maathai escreveu ao Kenya Times, ao gabinete do presidente Daniel arap Moi, à prefeitura de Nairóbi, ao Ministério do Meio Ambiente e ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que tem sede na cidade. Pedia um estudo de impacto ambiental e lembrava que o parque era o único respiro verde de quem trabalhava no centro.

O projeto, contou ela em Unbowed (Inabalável, em tradução livre), as memórias publicadas em 2006, reunia a sede do partido KANU, escritórios, lojas, estacionamento e uma estátua do próprio Moi. O dinheiro viria de empréstimos estrangeiros, num país já endividado.

Nenhuma carta teve resposta do governo. Ela levou o caso à Justiça, e o tribunal recusou a ação: decidiu que uma cidadã comum não tinha legitimidade para processar em nome do público.

Ela insistiu por escrito. Em Unbowed, conta que mandou cópias a embaixadas e a jornais de Londres e Nova York, e que toda carta repetia o mesmo argumento: o parque pertencia a quem não tinha quintal em casa.

O Parlamento contra uma mulher

Em novembro de 1989, deputados gastaram sessões inteiras atacando a professora. Um deles a chamou de louca; outros disseram que o Movimento Cinturão Verde servia a interesses estrangeiros e que uma mulher divorciada não tinha moral para dar lição a ninguém.

Moi entrou na briga em discurso público. Disse que, pela tradição africana, a mulher devia respeitar os homens e ficar quieta, e cobrou que ela se pusesse no lugar dela.

Os jornais do partido repetiram os ataques por semanas, e parte dos colegas da universidade passou a evitar o nome dela em público.

Em poucos dias, o Movimento perdeu o escritório que ocupava num prédio do governo. As pastas, as mudas registradas e os funcionários foram parar na casa dela, empilhados na sala.

A esquina da liberdade

Janeiro de 1992: Wangari Maathai denuncia em público um suposto plano para entregar o poder aos militares e é presa com outros opositores. Sai sob fiança dias depois, com a saúde abalada.

28 de fevereiro de 1992: mães de presos políticos começam uma greve de fome num canto do Uhuru Park e o batizam de Freedom Corner (Canto da Liberdade). Ela se junta às mães no gramado que tinha salvado da torre.

As grevistas eram mulheres de idade, algumas com filhos presos havia anos sem julgamento. Montaram abrigos de pano e passaram a dormir no gramado.

3 de março de 1992: a polícia chega com cassetetes e gás lacrimogêneo para desmontar o protesto. Wangari Maathai leva golpes na cabeça, cai desacordada e é levada ao hospital. As mães se abrigam na catedral anglicana de Todos os Santos, ali perto, e seguem com a vigília.

 

Três anos depois de defender o gramado com cartas, Wangari Maathai caiu desacordada sobre ele, golpeada pela polícia.

 
 
 
 
 
 

II  O Triunfo

O gramado ficou de pé

 
 

A torre já tinha caído quando a polícia derrubou a professora. Janeiro de 1990: os financiadores estrangeiros do complexo recuaram, pressionados pela repercussão das cartas na imprensa internacional, e o governo engavetou o projeto. As cercas de obra saíram do Uhuru Park.

A vigília das mães durou quase um ano dentro da catedral. No começo de 1993, o governo soltou os presos políticos pelos quais elas jejuavam.

Desde 1991 ela tinha o Prêmio Goldman de Meio Ambiente, entregue nos Estados Unidos, e o prestígio de fora tornava cada prisão dela um problema diplomático para Moi.

1997: Wangari Maathai concorre à Presidência e a uma cadeira no Parlamento, e perde as duas disputas. Volta ao trabalho de campo, entre viveiros e reuniões com as mulheres que plantavam para o Movimento.

A floresta de Karura

1998: o governo começa a repartir a floresta de Karura, nos arredores de Nairóbi, entre empreiteiros aliados. Ela lidera um grupo para plantar mudas nos lotes já cercados.

8 de janeiro de 1999: seguranças contratados atacam o grupo com chicotes e porretes, e ela sai com um corte na cabeça. As fotos do rosto ferido correm o mundo, estudantes vão às ruas de Nairóbi, e a partilha da floresta é suspensa.

Karura segue de pé como floresta pública, aberta a quem caminha e pedala nos arredores da capital.

De Tetu a Oslo

Dezembro de 2002: Moi deixa o poder depois de 24 anos, e Wangari Maathai é eleita deputada pelo distrito de Tetu, perto da aldeia onde nasceu. Em 2003, vira vice-ministra do Meio Ambiente do governo seguinte.

No Parlamento, ocupou uma cadeira na mesma casa onde, 13 anos antes, deputados a tinham chamado de louca.

8 de outubro de 2004: o Comitê Norueguês do Nobel anuncia o Prêmio Nobel da Paz para ela, pela contribuição ao desenvolvimento sustentável, à democracia e à paz. É a primeira mulher africana a receber o prêmio. Ao saber da notícia, num hotel da região de Nyeri, ela comemora plantando uma árvore.

Em 10 de dezembro de 2004, em Oslo, sobe ao palco para o discurso oficial.

 

“No curso da história, chega um tempo em que a humanidade é chamada a passar para um novo nível de consciência, a atingir um patamar moral mais alto.” Wangari Maathai, discurso do Nobel da Paz, Oslo, 2004.

 
 

A professora chamada de louca no Parlamento em 1989 subiu ao palco de Oslo em 2004 como a primeira africana com o Nobel da Paz.

 
 
 
 
 
 
 

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III  A Lição

A figueira de Ihithe

 
 

Wangari Muta Maathai morreu em 25 de setembro de 2011, aos 71 anos, em Nairóbi, de câncer de ovário. Tinha pedido para não gastar madeira no enterro: foi cremada num caixão de jacinto-d'água, papiro e bambu.

Em 2006, ela ajudou a lançar a Campanha do Bilhão de Árvores do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, inspirada no método do Cinturão Verde: qualquer pessoa ou governo podia prometer mudas e registrar o plantio.

Três gestos das cartas de 1989

O caso do Uhuru Park cabe em três gestos, úteis a quem enfrenta um projeto grande demais:

1. Escrever antes de gritar. Cartas com destinatário, pedido e data deram à imprensa estrangeira um papel para citar e aos investidores um motivo para recuar.

2. Pedir algo verificável. Ela cobrava um estudo de impacto ambiental, documento que o governo não tinha e não conseguia mostrar.

3. Voltar ao mesmo chão. Depois da torre, ela voltou ao Uhuru Park em 1992 e foi plantar em Karura em 1999, com o mesmo método de muda na mão.

Nenhum dos três gestos exigia cargo nem dinheiro. Em 1989, ela era uma professora divorciada, sem mandato e sem partido, com uma máquina de escrever e uma lista de endereços.

 

Wangari Maathai derrubou uma torre de 60 andares com papel, selo e paciência, e plantou o resto da vida.

 

O Green Belt Movement segue ativo em Nairóbi e afirma, pela contagem da própria entidade, ter plantado mais de 51 milhões de árvores no Quênia. A Universidade de Nairóbi mantém o Wangari Maathai Institute for Peace and Environmental Studies (Instituto Wangari Maathai de Estudos da Paz e do Meio Ambiente).

Os fatos centrais desta edição vêm de Unbowed, as memórias que ela publicou em 2006, e do discurso do Nobel guardado nos arquivos da Fundação Nobel.

A mugumo de Ihithe foi derrubada anos depois da infância dela, e o riacho secou, como ela conta em Unbowed. O Uhuru Park, onde a torre de 60 andares nunca subiu, segue aberto no centro de Nairóbi, e o canto que as mães batizaram em 1992 ainda se chama Freedom Corner.

★ RARO

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