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As Bíblias Que o Sócio Levou
Em novembro de 1455 um tribunal de Mainz entregou a oficina, os tipos e as Bíblias quase prontas ao homem que tinha emprestado o dinheiro.
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Mainz, 1455: a oficina muda de dono
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Refeitório do convento dos frades menores de Mainz, 6 de novembro de 1455. Um notário chamado Ulrich Helmasperger senta com papel e tinta para registrar, palavra por palavra, o fim de uma sociedade.
De um lado da mesa está Johann Fust, comerciante rico da cidade, com dois contratos de empréstimo na mão. Do outro lado não está ninguém. Johannes Gutenberg não compareceu, mandou três homens no lugar dele, dois deles operários da própria oficina.
A ausência não é detalhe pequeno. Quem responde por você numa sala dessas responde com o que sabe do contrato, e o contrato tinha sido redigido pelo outro lado.
A soma cobrada é de 2.026 florins entre principal e juros. O dinheiro tinha destino declarado no papel: a obra dos livros, como o documento chama o projeto de imprimir a Bíblia inteira com tipos de metal fundido, um caractere de cada vez, aos milhares.
Gutenberg tinha então cerca de cinquenta e cinco anos e duas décadas de tentativas nas costas. Já havia enfrentado um processo parecido em Estrasburgo, movido pelos herdeiros de um sócio, sobre um negócio que os papéis da época chamavam apenas de aventura e arte.
A máquina já funcionava, e a Europa começava a saber. Oito meses antes, na feira de Frankfurt, um diplomata italiano viu cadernos da Bíblia de 42 linhas expostos e escreveu a um cardeal em Roma que a letra era tão limpa que dava para ler sem óculos.
Cerca de 180 exemplares estavam em produção, com 1.282 páginas cada um. Boa parte já tinha comprador antes de sair da prensa. Nenhum deles traria nome de impressor, data ou cidade em qualquer página.
O tribunal decidiu pelo credor. O que a sentença transferiu não foi apenas equipamento: foi o direito de assinar tudo que saísse daquela máquina dali em diante. Para entender como um financiador vira dono de uma invenção alheia, vale voltar cinco anos, ao dia em que o dinheiro entrou.
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I A Queda
O empréstimo que virou penhora
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Em 1450, Fust emprestou 800 florins a Gutenberg, a juros de seis por cento ao ano. O contrato trazia uma cláusula que parecia técnica na época: o equipamento da oficina ficava como garantia da dívida. Tipos, matrizes e prensas respondiam pelo dinheiro.
Em 1452 veio a segunda quantia, mais 800 florins. Aqui as duas versões se separam. Para Fust, era novo empréstimo. Para Gutenberg, era entrada de sócio na obra dos livros, capital de risco aplicado num negócio comum, não dívida a devolver.
Havia ainda a promessa de 300 florins por ano para tocar a operação: salário dos oficiais, aluguel da casa, pergaminho, papel, tinta. Gutenberg alegou que a quantia nunca chegou completa. Fust alegou que tinha tomado o dinheiro emprestado de terceiros e que os juros corriam contra ele.
A sentença foi cirúrgica. Fust deveria jurar, diante de testemunhas, quanto havia efetivamente tomado emprestado e pago de juros. Feito o juramento, Gutenberg teria de devolver tudo que não tivesse entrado na obra comum, com os juros somados desde o primeiro dia.
Fust jurou. A conta ficou de pé e não havia como cobri-la em dinheiro. A garantia escrita em 1450 foi executada do único jeito possível: com o metal, a madeira e o papel que estavam na oficina.
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O que mudou de mãos naquele refeitório não foi só equipamento. Foi o direito de assinar tudo que a máquina produzisse dali em diante. |
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Peter Schöffer, o homem que fecharia o arranjo, já estava dentro da casa. Calígrafo de formação, com passagem documentada como copista em Paris em 1449, tinha entrado na oficina como empregado e conhecia o ofício de ponta a ponta. No processo, testemunhou a favor de Fust.
Pouco depois casou com Christina, filha do credor. Sogro e genro passaram a tocar juntos a oficina, com os tipos que outro havia desenhado e as prensas que outro havia montado.
Em 14 de agosto de 1457 saiu o Saltério de Mainz, com iniciais em duas cores impressas em registro perfeito, trabalho técnico que ninguém tinha feito antes. No fim do volume, pela primeira vez na história do livro impresso, veio um cólofon com data, cidade e os nomes dos responsáveis.
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O presente livro dos salmos, ornado com belas capitulares e amplamente distinguido por rubricas, foi assim fabricado por uma engenhosa invenção de imprimir e conformar, sem nenhum traçado de pena, e concluído com diligência para o culto de Deus por Johann Fust, cidadão de Mainz, e Peter Schöffer de Gernsheim. ~ Cólofon do Saltério de Mainz, Johann Fust e Peter Schöffer, 1457 |
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A frase descreve a invenção com precisão de manual e não menciona o inventor. Não foi esquecimento. Foi a primeira vez que alguém assinou um livro impresso, e a assinatura pertencia a quem tinha ganhado a causa.
As Bíblias de 42 linhas continuaram sendo vendidas. Nenhuma delas traz nome, data ou lugar. Das cerca de 180 produzidas sobraram 49 exemplares no mundo, e todas entraram na história pelo nome de um homem que nunca imprimiu o próprio nome em uma página.
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II O Triunfo
O grão, o vinho e as roupas da corte
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Gutenberg não parou em 1455. O que se sabe do período vem dos tipos, não dos documentos: um conjunto de letras mais antigo, usado antes da Bíblia de 42 linhas em gramáticas escolares e calendários, reaparece na Bíblia de 36 linhas impressa em Bamberg por volta de 1459.
Em 1460 saiu de Mainz o Catholicon, um dicionário latino de mais de setecentas páginas, obra pesada que exigia oficina grande e caixa firme. O cólofon agradece à cidade e ao Altíssimo, informa o ano, descreve o método de punções e matrizes e não traz nome de impressor.
Boa parte dos especialistas atribui o volume a Gutenberg, trabalhando com dinheiro de um jurista de Mainz chamado Konrad Humery. Cinco anos depois da sentença, ele tinha prensa de novo, e continuava sem assinar nada.
Em 1462 a política atropelou a cidade. Dois arcebispos disputavam Mainz, e o exército de Adolfo de Nassau tomou o lugar à força, com incêndio e expulsão de moradores. As oficinas fecharam e os oficiais tipógrafos se espalharam pela Europa.
A dispersão fez pela invenção o que nenhum sócio faria. Homens treinados em Mainz montaram prensas em Estrasburgo, Colônia, Basileia, Roma, Veneza e Paris ao longo dos dez anos seguintes. Em 1500 havia prensa em mais de 250 cidades europeias e o catálogo de incunábulos passa de 28 mil edições.
Em 17 de janeiro de 1465 o mesmo Adolfo de Nassau, já confirmado como arcebispo, assinou um documento curto nomeando Gutenberg homem da corte. A pensão era vitalícia e vinha em espécie.
Todo ano ele receberia as roupas de cortesão, cerca de 2.180 litros de grão e 2.000 litros de vinho, isentos de imposto, com a condição de que fossem para o consumo da casa e não para revenda.
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Aos sessenta e cinco anos, o inventor da imprensa recebeu do poder da cidade exatamente o que precisava para comer e vestir, e nada que se parecesse com uma oficina. |
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Ele viveu mais três anos e foi enterrado na igreja dos franciscanos de Mainz, em 1468. O prédio caiu depois, e o lugar exato do túmulo se perdeu.
O reconhecimento veio devagar e pela mão de terceiros. Em 1499, uma crônica impressa em Colônia registrou o testemunho de Ulrich Zell, tipógrafo que havia aprendido o ofício em Mainz, sobre quem tinha começado tudo.
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O primeiro inventor da impressão foi um cidadão de Mainz, chamado junker Johann Gutenberg. ~ Cronica van der hilliger Stat van Coellen, Colônia, 1499 |
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A frase é curta e chegou três décadas depois do enterro, dentro de um livro produzido por uma máquina que só existia porque ele a havia construído. O nome voltou pelo produto, nunca pelo tribunal.
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