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Fronteira da Hungria, outono de 1985. Uma mulher de trinta anos passa pela fiscalização com uma mala, um marido, uma filha de dois anos e um urso de pelúcia marrom no colo da menina. Dentro do bicho, costuradas na barriga, estão novecentas libras esterlinas.
O dinheiro era o carro da família, um Lada vendido no mercado paralelo semanas antes. O governo húngaro deixava cada pessoa sair do país com cem dólares, e não mais. O resto, se aparecesse na revista da bagagem, seria apreendido ali mesmo, no balcão.
A costura na barriga do urso foi feita à mão e refeita por cima, para não abrir no caminho. Se o fiscal resolvesse apalpar o brinquedo, a viagem terminava ali mesmo.
A menina atravessou a alfândega abraçada ao bicho sem saber que segurava a poupança inteira da família.
Katalin Karikó tinha doutorado em bioquímica e um emprego perdido. O laboratório de Szeged onde ela pesquisava ficou sem verba naquele ano, e não havia no país outro lugar para uma pesquisadora de RNA.
Ela escreveu cartas para universidades americanas até uma responder. Temple University, Filadélfia, um posto de pós-doutorado com salário modesto e contrato curto.
A passagem era só de ida. A família vendeu o que tinha comprador, avisou os parentes e saiu de casa sabendo que não voltaria tão cedo.
Na bagagem invisível ia uma aposta que soava excêntrica em 1985. O RNA mensageiro, a fita instável que leva a receita de uma proteína do núcleo até a linha de montagem da célula, poderia ser fabricado em laboratório e injetado para mandar o próprio corpo produzir o remédio de que precisa.
A ideia tinha um defeito prático de tamanho considerável. A molécula se desmanchava em minutos e, quando resistia, o organismo reagia a ela como reage a um vírus, com inflamação.
Dez anos depois daquela fronteira, num prédio de tijolos da Universidade da Pensilvânia, uma decisão administrativa de uma página resolveu o assunto de outro jeito. Sem discutir a ciência, sem provar que a aposta estava errada.
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I A Queda
A cientista rebaixada aos quarenta anos
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Filadélfia, 1989. Katalin Karikó entrou na Universidade da Pensilvânia com o cargo de research assistant professor, um título que soa bem em inglês e significa uma coisa simples: o salário sai do dinheiro que a própria pesquisadora conseguir levantar de fora.
Ela não tinha laboratório próprio, não tinha equipe e não tinha verba garantida para o semestre seguinte.
A aposta dela cabia numa frase. Se o RNA mensageiro é o bilhete que manda a célula fabricar uma proteína, escrever o bilhete na bancada e entregá-lo dentro do corpo transformaria a célula na fábrica do próprio tratamento.
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Em 1990 ela mandou o primeiro pedido de financiamento para desenvolver terapia com RNA mensageiro. Voltou negado.
Mandou outro. Negado. Mandou para o instituto nacional de saúde americano, para fundações privadas, para farmacêuticas.
A resposta trazia sempre alguma variação do mesmo argumento: a molécula é instável demais, inflama demais, e o DNA já faz o serviço com mais previsibilidade.
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Pensei em ir para outro lugar, ou em fazer outra coisa. Também pensei que talvez eu não fosse boa o bastante, não fosse inteligente o bastante. ~ Katalin Karikó, ao STAT News, 2020 |
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Ela trabalhava com o cardiologista Elliot Barnathan, e a dupla conseguiu fazer células humanas produzirem uma proteína a partir de RNA fabricado na bancada. O resultado saiu num artigo pequeno, que a área leu sem se mexer.
Em 1995 Barnathan deixou a universidade por uma empresa de biotecnologia. Karikó ficou sem a bancada onde trabalhava e sem o nome sênior que sustentava os pedidos de verba.
Na contabilidade da universidade o cálculo era defensável. Em cinco anos de tentativas, aquela linha de pesquisa não tinha trazido um centavo de fora.
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Em 1995, aos quarenta anos, a universidade tirou Karikó da trilha que levava à cátedra, cortou o salário dela e deixou a porta de saída bem à vista. |
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O rebaixamento não veio sozinho. No mesmo ano ela recebeu um diagnóstico suspeito de câncer e passou por duas cirurgias, enquanto o marido ficava preso na Hungria por seis meses, travado num problema de visto.
Ela tinha uma filha adolescente em casa, um salário menor e nenhuma garantia de continuar empregada no ano seguinte.
Ela ficou. Um neurocirurgião do campus, David Langer, que tinha sido aluno dela, arrumou um canto para a pesquisadora dentro do departamento de neurocirurgia.
Sem cargo na carreira, sem promoção no horizonte e com o salário que a universidade decidisse pagar. Em vinte e quatro anos na Pensilvânia, ela nunca passou de sessenta mil dólares por ano.
Todo ano ela reescrevia o mesmo pedido de verba com dados novos e mandava de novo. Todo ano a resposta voltava negada.
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II O Triunfo
A letra trocada dentro da molécula
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O encontro que destravou a história aconteceu numa fila de copiadora, em 1997.
Naquela época os artigos científicos chegavam impressos, e quem quisesse ler o que os outros publicavam tirava cópia na máquina do corredor. Karikó estava lá quase toda semana.
Drew Weissman, imunologista recém-chegado do instituto nacional de saúde, disputava a mesma máquina. Ele queria uma vacina contra o HIV.
Ela contou que sabia fabricar RNA e que o RNA podia mandar a célula produzir qualquer proteína, inclusive uma que ensinasse o sistema de defesa a reconhecer um invasor.
Viraram dupla. Ela fabricava o material na bancada, ele testava nas células e nos animais.
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O primeiro resultado foi ruim. O RNA sintético entrava, a célula respondia com inflamação forte e os camundongos adoeciam. O corpo lia a molécula de laboratório como ameaça.
A pergunta que os dois perseguiram por anos era fácil de enunciar: por que o organismo aceita o próprio RNA e ataca o RNA fabricado fora dele?
A resposta estava nas letras. O RNA que a célula produz sai da fábrica com modificações químicas em algumas de suas bases, e o RNA sintetizado em laboratório saía sem nenhuma delas.
Em 2005 os dois trocaram a uridina por pseudouridina, uma versão modificada da mesma letra, e injetaram de novo.
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A inflamação desapareceu, e a célula seguiu lendo o bilhete e fabricando a proteína pedida. |
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O artigo foi recusado pela Nature, que tratou o achado como contribuição incremental, e acabou publicado na revista Immunity.
Depois da publicação, o telefone não tocou. Nenhuma empresa procurou a dupla, nenhuma agência ligou, e o pedido de verba seguinte também voltou negado.
Em 2006 os dois abriram uma empresa própria, a RNARx, e levantaram cerca de novecentos mil dólares em contratos pequenos de fomento.
Em 2010 a universidade licenciou a patente da descoberta para uma fabricante de reagentes por trezentos mil dólares, e a empresa dos dois perdeu o acesso à tecnologia que tinha criado.
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Fora dali, o artigo de 2005 começou a circular. Derrick Rossi, biólogo em Harvard, usou a ideia para reprogramar células e ajudou a fundar a Moderna em 2010. Na Alemanha, um casal de médicos tocava uma empresa chamada BioNTech com a mesma aposta.
Em 2013 a Pensilvânia comunicou a Karikó que ela não tinha perfil de corpo docente. Ela pediu demissão, fez as malas outra vez e foi para Mainz ser vice-presidente sênior de uma empresa que ainda não tinha nem site no ar. Colegas riram da mudança.
Em novembro de 2020, a vacina que a BioNTech desenvolveu com a Pfizer mostrou noventa e cinco por cento de eficácia nos testes clínicos. A molécula que ninguém quis financiar virou bilhões de doses aplicadas em todos os continentes.
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pelas descobertas sobre modificações de bases nucleosídicas que permitiram o desenvolvimento de vacinas de RNA mensageiro eficazes contra a covid-19 ~ Assembleia Nobel do Instituto Karolinska, 2023 |
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Em 2 de outubro de 2023, aos sessenta e oito anos, Karikó recebeu o Nobel de Medicina ao lado de Weissman.
A mãe dela ligava o rádio todo mês de outubro para ouvir o anúncio do prêmio, repetindo que a filha ganharia. Karikó respondia que não tinha verba nem cargo de professora. A mãe se foi em 2018.
A menina que atravessou a fronteira abraçada ao urso, Susan Francia, cresceu nos Estados Unidos e ganhou dois ouros olímpicos no remo, em Pequim e em Londres.
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III A Lição
Ficar na bancada depois de perder o cargo
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Repare no que trinta e cinco anos de recusa disseram e no que não disseram.
Nenhum parecer afirmou que a hipótese estava errada. Diziam que era arriscada, que a molécula era instável, que faltava prova de que aquilo daria em alguma coisa.
Ninguém precisou demonstrar que ela estava errada para deixar de pagar, e a diferença muda a leitura de qualquer negativa recebida. Recusa de financiamento é aposta de quem paga, nunca sentença sobre o trabalho.
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O rebaixamento de 1995 tirou cargo, salário e status. Não tirou o acesso à bancada, e foi exatamente a bancada que ela negociou quando aceitou o canto emprestado num departamento que nem era o dela. |
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Repare agora no que ela fez com a diferença.
Não mudou de tese, mudou de endereço. Szeged, Filadélfia, Bethesda, de volta à Filadélfia, um canto emprestado na neurocirurgia, Mainz. A pergunta continuou a mesma em todos os prédios.
Quem perde o cargo costuma gastar o ano seguinte tentando recuperar o cargo. Ela gastou o ano seguinte tentando entender por que o camundongo inflamava.
Repare, por fim, no tamanho da solução. Depois de quase uma década de tentativa e erro, o que destravou a técnica não foi discurso mais alto nem pedido de verba mais bem escrito. Foi a troca de uma letra química por uma prima próxima dela.
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Insistir não é repetir o mesmo experimento até alguém ceder. É voltar à bancada com a variável seguinte na mão. ~ A bancada emprestada da neurocirurgia, Filadélfia |
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O urso de pelúcia continua sendo o melhor resumo da história. A família apostou tudo o que tinha numa costura feita à mão, dentro de um bicho de criança, e atravessou o balcão da fronteira com o patrimônio inteiro em risco.
Trinta e cinco anos depois, a aposta pagou de um jeito que nenhum comitê tinha calculado. Os nomes de quem assinou as recusas não aparecem em lugar nenhum, e a molécula que eles não quiseram financiar está no braço de bilhões de pessoas.
Ela chegou ao prêmio maior da ciência perto dos setenta anos, sem nunca ter tido um laboratório com o próprio nome na porta.
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A pergunta que fica não é quantas vezes disseram não ao seu trabalho. É se você voltou para a bancada na manhã seguinte. |
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