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As 7 Expedições de Tenzing
Recusado como carregador aos 19 anos, o pastor de iaques voltou à montanha seis vezes até pisar no cume do Everest em 1953.
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O cume do Everest, 29 de maio de 1953
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1914: nasce Namgyal Wangdi, o menino que o mundo conheceria como Tenzing Norgay, numa família de pastores de iaque (o boi peludo das montanhas do Himalaia). A data exata nunca foi registrada, e o lugar também ficou em disputa: ele mesmo contou versões diferentes, ora Kharta, no Tibete, ora o vale do Khumbu, no Nepal.
Anos 1920: cresce em Thame, aldeia sherpa (o povo de origem tibetana que vive nos vales altos do Nepal) à sombra do Everest. Leva os iaques ao pasto e ouve os mais velhos chamarem a montanha de Chomolungma, a deusa-mãe do mundo.
Adolescência: foge de casa duas vezes. Na primeira, chega a Katmandu, a capital do Nepal, e volta para a aldeia. Na segunda, não volta mais.
1932: aos 18 anos, atravessa a fronteira a pé até Darjeeling, cidade dos jardins de chá no norte da Índia britânica. É de lá que partem as expedições inglesas ao Everest, e é lá que elas contratam os carregadores que levam a carga nas costas.
1933: a expedição britânica de Hugh Ruttledge escolhe a sua equipe em Darjeeling. Tenzing se apresenta na fila. Os ingleses dão preferência a homens com cartas de recomendação e experiência em altitude, e ele não tem nenhuma das duas. Fica de fora.
O rapaz assiste à partida dos escolhidos, com as cargas amarradas na testa, rumo ao Tibete. Volta ao trabalho braçal da cidade e continua rondando os hotéis e os escritórios onde os montanhistas estrangeiros procuram gente.
A expedição de 1933 também não chega ao topo. Nenhuma chegava: desde 1921, os ingleses já tinham subido a montanha quatro vezes e voltado sem o cume, e numa delas, em 1924, George Mallory e Andrew Irvine sumiram perto do alto e nunca mais foram vistos com vida.
Em Darjeeling, o jovem sherpa guarda um sonho que ele depois contaria na autobiografia: pisar no alto da montanha que via da aldeia. Dois anos depois da recusa, um inglês magro e de poucas palavras olha para o rapaz sorridente na fila e resolve arriscar.
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I A Queda
Seis vezes na encosta
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Em 1935, Tenzing Norgay entra pela primeira vez numa expedição ao Everest. O explorador inglês Eric Shipton, que faz um reconhecimento da montanha pelo lado do Tibete, contrata o rapaz de 21 anos como carregador. Na autobiografia, Tenzing conta que foi escolhido em parte pelo sorriso.
O trabalho é levar barracas, comida e combustível geleira acima, de acampamento em acampamento. O carregador sobe, deixa a carga, desce e sobe de novo. Quem chega ao topo, quando alguém chega, são os ingleses.
1936: segunda tentativa, de novo com Ruttledge. A monção (a estação de chuvas que chega do oceano Índico) despeja neve cedo na encosta, e o grupo desce sem chegar perto do alto.
1938: terceira, com o inglês Bill Tilman. Tenzing leva carga até o sexto acampamento, na face norte, o ponto mais alto que os carregadores alcançam naquele ano. O Clube do Himalaia, a associação dos montanhistas britânicos na Índia, dá a ele a medalha do Tigre, reservada aos carregadores que se destacam em grande altitude.
Então vem a Segunda Guerra. O Tibete fecha as fronteiras e as expedições param. Tenzing passa os anos do conflito em Chitral, no noroeste da Índia britânica, hoje Paquistão, como ajudante de oficiais ingleses. Lá perde a primeira mulher, Dawa Phuti, e volta a Darjeeling viúvo, com duas filhas pequenas.
1947: quarta. O canadense Earl Denman, sem licença do governo tibetano, chama Tenzing e outro sherpa, Ang Dawa, para uma subida clandestina. Chegam ao pé do colo norte (a sela de gelo que liga o Everest ao pico vizinho) e voltam derrotados pelo vento e pelo frio.
Em 1950, a China ocupa o Tibete e fecha o caminho do norte. No ano seguinte, o Nepal abre o caminho do sul, pela geleira do Khumbu, o vale onde Tenzing passou a infância.
1952: quinta. Uma expedição suíça contrata Tenzing como sirdar (o chefe dos carregadores) e, pela primeira vez, como membro da equipe de escalada. O parceiro de corda é Raymond Lambert, guia de Genebra que tinha perdido os dedos dos pés num congelamento. Os dois não falam a mesma língua e se entendem por gestos.
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28 de maio de 1952: Tenzing e Lambert param a 8.595 metros na aresta sudeste, segundo o relatório da expedição suíça, uns 250 metros abaixo do cume. |
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A véspera tinha sido uma noite numa barraca minúscula, sem sacos de dormir e sem fogareiro, com a dupla batendo um no outro para não congelar. Os aparelhos de oxigênio suíços só liberavam o gás com o alpinista parado. Na subida, eles puxavam o ar ralo da altitude a cada passo.
Lambert olha para Tenzing, Tenzing olha para Lambert, e os dois descem. Na despedida, o suíço dá ao parceiro o próprio lenço vermelho.
No outono de 1952, os suíços voltam, e Tenzing com eles: sexta tentativa. O frio de novembro e o vento travam a equipe muito antes do ponto de maio. Um bloco de gelo que desaba na encosta tira a vida do sherpa Mingma Dorje. Tenzing volta a Darjeeling com 38 anos, seis expedições no corpo e nenhum cume.
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II O Triunfo
Onze e meia no cume
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Em 1953, a expedição britânica do coronel John Hunt chama Tenzing de novo como sirdar e como membro da equipe de ataque ao cume. É a sétima vez que ele parte de Darjeeling rumo ao Everest, agora com a rota do sul que conhece de perto desde o ano anterior.
Na cascata de gelo do Khumbu (o trecho de blocos soltos e fendas na saída da geleira), Tenzing faz dupla com o neozelandês Edmund Hillary, criador de abelhas de Auckland. Um dia, Hillary despenca numa fenda. Tenzing crava o piolet (a picareta de gelo do alpinista) na neve, passa a corda em volta do cabo e segura o peso do parceiro.
Hunt manda duas duplas ao cume. Em 26 de maio, a primeira, Tom Bourdillon e Charles Evans, chega ao cume sul e volta por falha no oxigênio, com o topo à vista. Chega a vez da segunda: Tenzing e Hillary.
Em 28 de maio, os dois armam a barraca mais alta da expedição na aresta sudeste. Passam a noite ali, meio sentados, com as botas de Hillary congeladas do lado de fora do saco de dormir. De manhã, ele as esquenta no fogareiro antes de sair.
Em 29 de maio de 1953, às 6h30, deixam a barraca. Passam pelo ponto onde Tenzing e Lambert tinham parado um ano antes. Mais acima, uma parede de rocha barra a aresta; Hillary se enfia numa fenda entre a pedra e a cornija (a aba de neve que o vento projeta sobre o abismo) e sobe se espremendo. Tenzing vai atrás.
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Às 11h30 de 29 de maio de 1953, Tenzing Norgay e Edmund Hillary pisam no cume do Everest, o ponto mais alto da Terra. |
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Ficam 15 minutos no topo. Hillary fotografa Tenzing com o piolet erguido, preso a quatro bandeiras: a das Nações Unidas, a do Reino Unido, a do Nepal e a da Índia. Não há foto de Hillary no cume, porque Tenzing nunca tinha usado uma câmera.
No pescoço de Tenzing está o lenço vermelho de Lambert. Na neve, ele enterra doces, biscoitos e um lápis que a filha Nima tinha dado a ele na partida, oferendas budistas aos deuses da montanha. Hillary deixa um crucifixo que Hunt tinha entregado a ele.
A notícia chega a Londres em 2 de junho, a data da coroação da rainha Elizabeth II. O governo britânico dá a Tenzing a Medalha George, a condecoração civil por coragem. Anos depois, na autobiografia, ele resume o caminho numa frase:
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“Tem sido uma longa estrada. De carregador da montanha, um levador de cargas, a um homem de casaco com fileiras de medalhas, que é levado de avião e se preocupa com imposto de renda.” Tenzing Norgay, Tiger of the Snows, 1955 |
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