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A Queda do Dia
As 688 Pílulas no Estojo do Violão
Um cantor de 33 anos abre o estojo do violão diante dos agentes da alfândega em El Paso e derrama sobre a mesa 688 comprimidos que ele mesmo tinha escondido ali do outro lado da fronteira.
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| I | As 688 Pílulas no Estojo do Violão |
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Um cantor de 33 anos abre o estojo do violão diante dos agentes da alfândega em El Paso e derrama sobre a mesa 688 comprimidos que ele mesmo tinha escondido ali do outro lado da fronteira.
El Paso, Texas, 4 de outubro de 1965. Johnny Cash desembarca de um voo curto vindo do México carregando um estojo de violão que não tinha violão nenhum dentro.
Os agentes já o seguiam havia dias. Ele tinha atravessado a ponte para Juárez, pago em dinheiro vivo por sacos de anfetamina e de calmante, e voltado com o estojo lotado.
Não havia instrumento, não havia partitura. Havia 688 comprimidos de dexedrina e mais 475 de tranquilizante, distribuídos pelo forro.
Naquele ano ele era o maior nome da música country americana. Vendia milhões de discos desde "I Walk the Line", enchia teatro em qualquer cidade e era tratado pela Columbia como patrimônio da casa.
A rotina por trás do cartaz era outra. Anfetamina para aguentar quase trezentos shows por ano, calmante para desligar depois, e mais anfetamina na manhã seguinte para conseguir sair da cama.
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Ele passou a noite na cadeia do condado de El Paso, saiu sob fiança no dia seguinte e foi fotografado algemado no corredor do fórum, com a imagem estampada em jornal do país inteiro. |
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A pena foi branda. Trinta dias com a execução suspensa e mil dólares de multa, porque o juiz aceitou que a carga era para consumo próprio e não para revenda.
O estrago não estava na sentença, estava na foto. O cantor que abria apresentação com hino e falava com voz de homem do interior virou, numa manhã, o sujeito de mãos presas na primeira página.
Três anos depois, ele estaria de pé num refeitório de penitenciária na Califórnia gravando o disco mais vendido da carreira.
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Quatro meses antes de El Paso, em junho de 1965, ele tinha entrado com uma caminhonete velha numa área de mata do Los Padres National Forest, na Califórnia, para pescar longe de todo mundo.
O escapamento estava furado e soltava faísca. O capim seco pegou fogo, o vento empurrou as chamas morro acima e o incêndio consumiu centenas de acres de floresta federal.
Do outro lado do morro ficava a reserva que abrigava quase toda a população restante de condores da Califórnia, espécie então reduzida a algumas dezenas de indivíduos.
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O governo americano cobrou 125.172 dólares pelo estrago e ele fechou acordo pagando 82.001, a maior conta já paga por um particular naquela época por fogo em floresta pública. |
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Perguntado no tribunal sobre as aves ameaçadas, respondeu que não tinha atenção nenhuma a dar para os urubus amarelos do governo. A frase circulou pelos jornais tanto quanto o valor da multa.
Não fui eu que botei fogo na floresta. Foi minha caminhonete, e ela já está enterrada, disse ele, sem parecer preocupado com o efeito da resposta.
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O governo cobrou pelo fogo. A alfândega cobrou pela foto. Em casa, a conta chegou inteira. ~ Califórnia, 1965 |
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Em casa a conta era outra. Vivian Liberto tinha casado com ele em 1954, criava quatro filhas sozinha e passava semanas inteiras sem saber em que estado do país o marido estava.
Ele chegava e sumia. Quebrava contrato, faltava a show marcado, batia carro, perdia voo. Em 1966 ela entrou com o pedido de divórcio e o casamento de doze anos foi desfeito na justiça.
O corpo cobrava junto. Ele tinha perdido perto de vinte quilos, dormia três ou quatro horas por noite e passou a esquecer a letra das próprias músicas no meio do palco.
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Em 1967 ele dirigiu até a caverna de Nickajack, no Tennessee, entrou rastejando pelos corredores de pedra sem lanterna reserva e ficou horas ali dentro, no escuro absoluto, sem plano nenhum de voltar. |
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As pilhas acabaram. Ele contaria depois que sentiu no fundo daquela caverna uma calma que não vinha dele, virou o corpo e engatinhou no breu até enxergar a réstia de luz da entrada.
Do lado de fora, June Carter e a mãe dela esperavam com comida no carro. Nas semanas seguintes a família inteira se mudou para a casa do cantor e um médico de Nashville ficou de plantão enquanto a abstinência passava.
Foi o primeiro mês inteiro sem comprimido em quase dez anos de estrada.
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A ideia do disco era antiga e vinha sendo recusada havia tempo. Cash tocava em presídio desde 1957, já tinha se apresentado em Huntsville, em San Quentin e no próprio Folsom, e repetia para a gravadora que ali estava o público certo para o repertório dele.
A Columbia dizia não. Cadeia não vendia disco, e a diretoria não queria a marca da casa associada a plateia de condenado. A resposta mudou quando o produtor Bob Johnston assumiu o trabalho e simplesmente perguntou em que dia ele queria gravar.
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13 de janeiro de 1968, nove e quarenta da manhã, refeitório da penitenciária estadual de Folsom. Cerca de dois mil presos sentados em bancos de metal, sem plateia de estúdio e sem aplauso gravado. |
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Ele chegou no microfone e disse quatro palavras que viraram assinatura: olá, eu sou Johnny Cash. O disco abre exatamente assim, com o barulho seco da sala respondendo antes da primeira nota.
Foram duas apresentações na mesma manhã, gravadas em fita, com "Folsom Prison Blues" cantada quinze anos depois de ele ter escrito a letra num alojamento militar na Alemanha, logo após assistir a um documentário sobre aquela mesma prisão.
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No meio do repertório ele cantou uma música escrita por um homem sentado na plateia. Glen Sherley havia gravado a canção numa fita dentro da capela do presídio, e o capelão fez a fita chegar às mãos do cantor na véspera.
Sherley ouviu a própria composição estreada em frente aos colegas de pátio, sem saber que ela entraria no show.
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O álbum "At Folsom Prison" saiu em maio de 1968, chegou ao primeiro lugar das paradas country, passou de três milhões de cópias vendidas e devolveu o cantor ao topo em menos de um ano. |
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Em 1969 ele vendia mais discos nos Estados Unidos do que os Beatles e ganhou um programa semanal próprio na rede ABC. Em março de 1968 tinha se casado com June Carter.
A história, porém, não termina na primeira virada. Em 1986, depois de quase trinta anos de casa, a Columbia dispensou o artista sem cerimônia.
Ele assinou com outra gravadora e sumiu dentro do catálogo. Um álbum do início dos anos 90 chegou a despachar perto de quinhentas cópias para as lojas.
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Trinta anos de casa e o maior nome do country virou catálogo parado numa prateleira. ~ Nashville, 1986 |
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Aos 62 anos, ele não tinha gravadora, não tinha rádio e não tinha ninguém no mercado pedindo mais um disco dele.
Em 1993 apareceu no camarim um produtor de rap e de heavy metal chamado Rick Rubin, com uma oferta sem adiantamento e sem promessa de execução em rádio: sentar na sala da casa dele, com um violão só, e cantar o que quisesse.
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"American Recordings" saiu em abril de 1994, gravado numa sala de estar com voz e violão, ganhou o Grammy e abriu a fase mais respeitada de uma carreira que começava de novo aos 62 anos. |
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Repare no que ele não fez para voltar. Não trocou de gênero musical, não correu atrás do som que tocava no rádio em 1968, não contratou produtor da moda para parecer dez anos mais novo.
Ele foi para o único lugar onde a plateia já estava do lado dele antes da primeira nota. Preso não liga para foto de algema, para manchete de tribunal, para multa de incêndio em floresta federal.
Aquele público ouvia "Folsom Prison Blues" como quem escuta o próprio endereço, e reconhecia na voz de quem cantava um homem que também tinha dormido em cela.
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Levaram o rádio, o contrato e a reputação. Sobrou a voz de quem já tinha caído. ~ As 688 pílulas no estojo do violão |
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A queda que arruinou a imagem pública dele foi exatamente o que credenciou a voz dele naquele refeitório.
Existe uma lógica dura na escolha. O que o mercado tratava como defeito, algema, vício e processo, era justamente a credencial na única sala do país onde ninguém julgava um homem pelo passado.
Vale reparar também no tamanho do palco escolhido. Não era teatro, não era rede de televisão, não era turnê internacional. Era um refeitório com bancos parafusados no chão e dois mil homens que não podiam ir embora.
O segundo retorno seguiu a mesma regra, quase trinta anos depois. Sem contrato e sem rádio, ele aceitou a proposta que oferecia menos estrutura de todas: um microfone, um violão e o sofá de uma sala de estar em Los Angeles.
Nas duas viradas sobrou a mesma coisa, a única que ele nunca chegou a perder nem no pior ano: a voz, e a autoridade de quem cantava sobre queda por experiência própria.
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A pergunta que fica não é quanto da sua reputação o tombo levou embora. É onde fica a sala em que aquilo que te derrubou é exatamente o que te dá autoridade para falar. |
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