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As 23 Libras Pelo Monstro que Mary Anning Tirou da Pedra

Órfã de pai aos 11 anos, ela achou os maiores fósseis de seu tempo e viu a ciência publicar tudo sem citá-la.

Falésias de argila e calcário à beira-mar em Lyme Regis, com fósseis expostos na rocha.

Falésias de Lyme Regis, costa de Dorset

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21 de maio de 1799: nasce em Lyme Regis, na costa sul da Inglaterra, Mary Anning, filha do marceneiro Richard Anning e de Molly Anning. A casa fica a poucos metros das falésias de argila e calcário que o mar desmancha a cada inverno.

19 de agosto de 1800: um raio cai sobre um grupo que assiste a um espetáculo de cavalos num campo da cidade. Três mulheres abrigadas sob um olmo não resistem. O bebê no colo de uma delas é levado para casa e reanimado num banho de água morna. É Mary.

Novembro de 1810: Richard Anning sucumbe à tuberculose, meses após uma queda num penhasco. Deixa a mulher, dois filhos vivos e uma dívida de 120 libras.

1811: Joseph, o irmão mais velho, acha na praia um crânio de cerca de 1,2 metro, com o focinho comprido cheio de dentes. Os vizinhos falam num crocodilo trazido pelo mar, e ninguém na cidade sabe dizer de onde veio o bicho.

1812: Mary, com 12 anos, localiza o resto do esqueleto na encosta, quase um ano depois. Operários pagos pela família tiram o bloco de pedra em pedaços.

1812, ainda: Henry Hoste Henley, senhor das terras da região, compra o conjunto por 23 libras. A família paga meses de aluguel e de pão, e o fóssil segue para a coleção particular dele, fora do alcance de quem o achou.

1819: o esqueleto vai a leilão em Londres e termina no Museu Britânico. Nenhuma etiqueta cita a menina que o separou da rocha.

1824: a Geological Society (Sociedade Geológica de Londres) ouve a apresentação de outro animal que ela desenterrou. Ela não pode entrar na sala: a casa só recebe homens.

Entre o raio e a sala fechada cabem 24 anos e um arquivo inteiro de fósseis vendidos para pagar o pão. A primeira seção conta como a família chegou à beira da ruína e quem a tirou de lá.

 

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I  A Queda

A dívida de 120 libras do marceneiro

 
 

Mary Anning tinha 11 anos quando o pai deixou a família sem renda. Richard Anning fazia móveis, mas o dinheiro que entrava em casa vinha também de outra fonte: as pedras curiosas que ele recolhia na praia e vendia aos turistas que desciam de carruagem para os banhos de mar.

Lyme Regis ficava sobre a formação que os geólogos chamam de Lias (camadas de rocha do início do Jurássico, com cerca de 200 milhões de anos). Cada tempestade arrancava pedaços da encosta e deixava na areia amonites, conchas em espiral que os moradores chamavam de "pedras de cobra".

Com o pai sepultado, a mãe pediu ajuda à paróquia, que dava aos pobres uma pequena quantia semanal. Mary e Joseph passaram a vender, numa mesa na frente de casa, o que achavam na maré baixa.

O trabalho tinha prazo apertado. A pedra só aparecia depois do desmoronamento, e o mar levava tudo em poucos dias. Quem chegasse tarde perdia a peça; quem chegasse cedo demais corria o risco de ficar soterrado.

Mary aprendeu a ler as camadas da encosta pela cor e pela textura da argila. Saía com um martelo, um cesto e o cão Tray, um terrier preto e branco que ficava de guarda ao lado do achado enquanto ela buscava ajuda.

O crânio que Joseph achou em 1811 era de um ictiossauro (lagarto-peixe, em grego), um réptil marinho com corpo de golfinho. O corpo inteiro ficou preso na argila até Mary encontrar a coluna e as costelas, numa camada de Church Cliffs (as falésias da igreja).

 

O primeiro esqueleto completo de ictiossauro conhecido no mundo saiu da pedra pelas mãos de uma menina de 12 anos.

 

Em 1814, o cirurgião Everard Home publicou o animal nas Philosophical Transactions (a revista da Royal Society, a academia de ciências britânica). O texto descreve os ossos com detalhe e não diz quem os achou.

Os anos seguintes foram os piores. Havia pouco turismo, a guerra contra Napoleão encarecia o pão, e meses passavam sem uma única venda grande. Em 1820, a família chegou a vender os móveis da casa para pagar o aluguel.

O socorro veio de um colecionador. O tenente-coronel Thomas Birch, que comprava fósseis dos Anning havia anos, leiloou a própria coleção em Londres, em maio de 1820, e entregou o dinheiro à família, cerca de 400 libras.

Numa carta ao médico e geólogo Gideon Mantell, Birch explicou o gesto: queria ajudar "a pobre família Anning", que tinha encontrado quase todas as peças boas da costa. Foi a primeira vez que alguém escreveu, em público, de quem eram os achados.

 
 
 

II  O Triunfo

O plesiossauro que Cuvier duvidou

 
 

Mary Anning tinha 24 anos quando, em dezembro de 1823, tirou da encosta o primeiro esqueleto completo de plesiossauro (quase lagarto, em grego), um réptil marinho de pescoço longo como o corpo de uma serpente.

O animal parecia montado com peças de bichos diferentes. Georges Cuvier, o maior anatomista da França, desconfiou de fraude e escreveu que o pescoço tinha vértebras demais. Diante do esqueleto descrito osso por osso, ele recuou e admitiu o erro.

Em 24 de fevereiro de 1824, o reverendo William Conybeare apresentou o plesiossauro à Geological Society, em Londres. A sala ouviu a descrição completa. O texto impresso não cita a mulher que o achou e o limpou.

No mesmo ano, Lady Harriet Silvester visitou a loja e anotou no diário de 1824: "esses homens de saber sugaram o cérebro dela e publicaram muitas obras com o conteúdo que ela forneceu, sem que ela recebesse vantagem alguma".

 

Ela sabia mais anatomia de réptil fóssil que muitos dos homens que assinavam os artigos, e todos eles iam até a mesa dela para aprender.

 

Em 1826, Mary juntou o bastante para comprar uma casa com vitrine e abriu o Anning's Fossil Depot (depósito de fósseis da Anning). Cientistas de Londres, Paris e Genebra passaram a encomendar peças por carta.

Em 1828, ela achou o primeiro pterossauro (asa-lagarto, em grego) encontrado fora da Alemanha, um réptil voador com asas de pele. O geólogo William Buckland o apresentou à Geological Society em 1829.

Buckland também a citou num estudo sobre restos de digestão. Mary percebeu que certas pedras escuras dentro dos esqueletos eram fezes fossilizadas, com escamas de peixe por dentro. Buckland chamou as pedras de coprólitos (pedras de esterco) e escreveu que a ideia viera dela.

Em 1830, o geólogo Henry De la Beche, amigo de infância, pintou Duria Antiquior (uma Dorset mais antiga), a primeira cena da vida pré-histórica baseada em fósseis. Mandou imprimir cópias e entregou a renda da venda a Mary.

Em outubro de 1833, um deslizamento na encosta soterrou Tray a poucos passos dela. Mary escapou por pouco e escreveu a uma amiga que a perda do cão a deixara abalada por semanas.

A independência durou pouco. Em 1835, ela perdeu cerca de 300 libras, a poupança inteira, num investimento que um conhecido indicou. Buckland foi atrás da British Association (Associação Britânica para o Avanço da Ciência), que em 1838 lhe garantiu 25 libras por ano.

 
 
 
 

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III  A Lição

A janela da igreja de São Miguel

 
 

A falta de crédito não apagou a obra de Mary Anning. Os achados dela sustentaram teorias inteiras sobre a extinção e os mares do Jurássico, e quase todo geólogo britânico da época passou pela loja de Lyme Regis.

Em 1846, o Museu do Condado de Dorset a nomeou membro honorário, o único título científico que ela recebeu. Já estava doente, com câncer de mama, e tomava láudano (remédio de ópio) para a dor. Alguns vizinhos espalharam que ela bebia, e a fofoca acompanhou os últimos meses dela na cidade.

Mary Anning partiu aos 47 anos, no dia 9 de março de 1847. Em 1848, De la Beche, então presidente da Geological Society, leu um elogio fúnebre a ela na reunião anual, homenagem que a casa nunca tinha feito a quem não era membro.

Em 1850, os sócios pagaram um vitral na igreja de São Miguel, em Lyme Regis, em memória da mulher que nunca pôde frequentar as reuniões. A Geological Society abriu as reuniões às mulheres em 1904 e só aceitou a primeira sócia em 1919, 72 anos após a partida dela.

O caso deixa três cuidados para quem trabalha numa área que ainda não reconhece o seu lugar:

1. Registrar o achado por escrito. Mary deixou cartas e anotações; foram elas que permitiram aos historiadores devolver a autoria dos fósseis.

2. Cultivar quem dá a palavra pública. Birch, Buckland e De la Beche levaram o nome dela a salas em que ela não podia entrar.

3. Separar a renda do reconhecimento. A loja pagou as contas por duas décadas, e o crédito veio depois, por outra porta.

Em 2010, a Royal Society pôs Mary Anning entre as dez mulheres britânicas que mais influenciaram a história da ciência. Em 2022, uma estátua de bronze dela, com o martelo e o cão Tray, foi inaugurada na praia de Lyme Regis, após campanha da estudante Evie Swire.

Os fatos centrais desta edição vêm de The Fossil Hunter, de Shelley Emling, publicado em 2009, e do artigo Mary Anning (1799-1847) of Lyme, do historiador Hugh Torrens, na revista British Journal for the History of Science, em 1995.

O crânio de 1,2 metro que Joseph tirou da areia em 1811 está hoje no Museu de História Natural de Londres, e a etiqueta, agora, traz o nome de Mary Anning.

 

Se o seu melhor trabalho saísse amanhã assinado por outra pessoa, que papel provaria que ele é seu?

 
 
Quiz da edição

Por quantas libras Henry Hoste Henley comprou o esqueleto que Mary Anning tirou da falésia em 1812?

A120 libras
B23 libras
C400 libras
D300 libras

Resultado da última edição: 86% acertaram.

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