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Aos 73 Anos, Leonard Cohen Voltou à Estrada Sem Dinheiro

A empresária esvaziou o fundo de aposentadoria dele; 15 anos depois da última turnê, ele subiu ao palco para mais de 350 shows.

Homem idoso de terno escuro e chapéu de feltro cantando de joelhos num palco iluminado, em 2008.

Fredericton, Canadá, maio de 2008

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21 de setembro de 1934: nasce em Westmount, bairro rico de Montreal, Leonard Norman Cohen, filho de Nathan Cohen, dono de uma confecção de roupas masculinas. A família vive de cortar e costurar ternos, e o menino cresce vestido como um pequeno executivo.

1944: Nathan adoece e parte quando o filho tem 9 anos. Leonard corta uma gravata do pai, escreve um bilhete e enterra os dois no jardim da casa. É o primeiro texto saído da mão dele de que se tem notícia.

1956: publica o primeiro livro de poemas, Let Us Compare Mythologies (Comparemos mitologias), ainda aluno da Universidade McGill.

1966: lança o romance Beautiful Losers (Belos perdedores). A crítica presta atenção, as vendas ficam pequenas, e ele resolve tentar a música para pagar o aluguel.

Dezembro de 1967: sai o disco Songs of Leonard Cohen, com Suzanne e So Long, Marianne. Ele tem 33 anos e tinha cantado em público pela primeira vez naquele mesmo ano, travado de medo no palco.

1984: grava Various Positions, com uma canção chamada Hallelujah. A Columbia, gravadora dele, se recusa a lançar o disco nos Estados Unidos.

1993: termina a turnê do disco The Future e volta para casa exausto. Seria a última turnê por 15 anos.

1994: sobe o monte Baldy, na Califórnia, e entra no centro zen de Kyozan Joshu Sasaki, o rōshi (mestre de meditação) com quem estudava desde os anos 1970. Em 1996 é ordenado monge com o nome Jikan, “o silencioso”.

1999: desce do mosteiro, aos 65 anos, e volta para a casa de Los Angeles. Deixa os contratos e as finanças com Kelley Lynch, ex-secretária que virou empresária e cuidava dos negócios dele desde o fim dos anos 1980.

Entre a gravata enterrada no jardim e a volta do mosteiro cabem 55 anos de poemas, romances e discos. Aos 70, a poupança desse tempo todo tinha sumido. A Queda conta como ele descobriu e quanto faltava.

 

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I  A Queda

O extrato de 2004

 
 

Em 2004, Leonard Cohen fez 70 anos e abriu os extratos que passava anos sem ler. A filha, Lorca Cohen, tinha estranhado gastos da empresa dele e pediu que o pai olhasse de perto. Faltavam mais de US$ 5 milhões no fundo de aposentadoria e nas contas de investimento.

O dinheiro vinha de décadas de direitos autorais. Em 2001, Cohen tinha vendido os direitos de parte das canções e deixado o valor guardado para a velhice. Kelley Lynch tinha procuração para movimentar tudo, e ele assinava o que ela trazia.

Cohen demitiu a empresária em outubro de 2004. Os advogados dele contaram depois que, das economias de uma vida, restavam cerca de US$ 150 mil.

O processo em Los Angeles

Em 2005, ele entrou com uma ação contra Lynch. Em maio de 2006, um juiz do Tribunal Superior de Los Angeles decidiu a causa à revelia (sem defesa, porque a ré não compareceu) e mandou Lynch devolver US$ 9,5 milhões. Ela nunca pagou, e nos anos seguintes contestou a decisão em tribunais e na internet, sem conseguir derrubá-la.

 

“Todo mundo sabe que a luta foi arranjada: os pobres ficam pobres, os ricos ficam ricos.” Leonard Cohen e Sharon Robinson, Everybody Knows, do disco I'm Your Man, 1988.

 

A sentença não encerrou a briga. Lynch passou anos mandando e-mails e deixando recados de voz para Cohen, às vezes dezenas num só dia. Em abril de 2012, um júri de Los Angeles a condenou por assédio, e ela recebeu pena de 18 meses de prisão.

 

Aos 70 anos, depois de quatro décadas de discos, Leonard Cohen tinha uma sentença de US$ 9,5 milhões a receber e quase nada no banco.

 

A saída mais rápida era a estrada, e ele não gostava dela. Em 1993 tinha voltado da turnê esgotado, e foi desse cansaço que nasceu a subida para o mosteiro.

Havia também o corpo. Ele não fazia uma turnê desde os 59 anos, e a voz, que já era grave, tinha descido mais um tom com a idade.

Em 2006, lançou o livro de poemas Book of Longing (Livro do anseio) e o disco Blue Alert, feito com a cantora Anjani Thomas. Nenhum dos dois cobria o rombo.

No começo de 2008, reuniu uma banda nova em Los Angeles e ensaiou durante meses, todos os dias, antes de vender o primeiro ingresso.

 
 
 

II  O Triunfo

Fredericton, maio de 2008

 
 

Em 11 de maio de 2008, Leonard Cohen subiu ao palco do Playhouse, um teatro pequeno em Fredericton, cidade do leste do Canadá. Tinha 73 anos. Era a estreia de turnê depois de 15 anos longe da estrada.

A escolha do lugar era prudente: cidade pequena, plateia de teatro, longe dos grandes jornais de Nova York e de Londres. Se a voz falhasse, pouca gente veria.

A banda tinha nove músicos. Entre eles estavam Sharon Robinson, parceira de composição, as irmãs Charley e Hattie Webb nos vocais e o espanhol Javier Mas na bandurria (um alaúde de cordas duplas). Cohen tirava o chapéu de feltro para agradecer cada solo.

Os shows passavam de três horas, com intervalo. Ele cantava de joelhos em algumas canções e, no fim, saía do palco aos saltinhos, como um garoto.

O garoto com um sonho

Em várias cidades, ele abria a noite brincando com a própria idade e com o tempo longe dos palcos.

 

“Da última vez que estive aqui, eu tinha 60 anos, só um garoto com um sonho maluco.” Leonard Cohen, fala de palco na turnê mundial de 2008.

 

No dia 29 daquele junho, tocou no festival de Glastonbury, na Inglaterra, para dezenas de milhares de pessoas. Cantou Hallelujah ao entardecer, e a transmissão da BBC espalhou a cena.

No Natal daquele ano, a canção recusada pela Columbia em 1984 chegou ao topo da parada britânica na voz de Alexandra Burke, vencedora do programa The X Factor. A gravação de Jeff Buckley, de 1994, ficou em segundo lugar.

 

A canção recusada pela gravadora em 1984 dominou a parada britânica de 2008, enquanto o autor dela cantava três horas por noite.

 

A turnê de 2008 a 2010 passou pela Europa, pela América do Norte, pela Austrália e por Israel. Em setembro de 2009, em Ramat Gan, ele encerrou o show com a Birkat Kohanim (a bênção dos sacerdotes), dita em hebraico com os braços erguidos.

Dias antes, em 18 de setembro de 2009, tinha desmaiado no palco em Valência, na Espanha, por uma intoxicação alimentar. Voltou a cantar na semana seguinte.

Em 2012, lançou Old Ideas, que chegou ao terceiro lugar da parada americana, a melhor posição da carreira dele. Voltou à estrada no mesmo ano e só parou em dezembro de 2013, no dia 21, em Auckland, na Nova Zelândia.

 
 
 
 

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III  A Lição

O fundo refeito

 
 

Entre maio de 2008 e o fim de 2013, Leonard Cohen fez mais de 350 shows. A bilheteria refez a reserva da velhice que Kelley Lynch tinha esvaziado.

Ele mesmo contava em entrevistas que a turnê começou pelo dinheiro e continuou pelo gosto de tocar com aquela banda.

Depois da estrada, gravou mais dois discos. Popular Problems saiu em 2014, um dia depois de ele completar 80 anos.

No lançamento, perguntado sobre a idade, respondeu em tom de piada que pretendia voltar a fumar aos 88, a idade certa para retomar o cigarro largado anos antes.

O último disco

You Want It Darker saiu em 21 de outubro de 2016. Ele gravou em casa, sentado numa cadeira ortopédica por causa de fraturas na coluna, com o filho Adam Cohen na produção.

Em 7 de novembro de 2016, aos 82 anos, Leonard Cohen faleceu em Los Angeles, depois de uma queda em casa durante a noite.

 

Leonard Cohen saiu de casa aos 73 anos para recuperar o dinheiro e voltou aos 79 com o fundo refeito e mais dois discos pela frente.

 

A trajetória deixa três passos para quem perde as economias de uma vida:

1. Ler o extrato. Cohen passou anos sem conferir o que a empresária assinava em nome dele, e foi a filha quem viu o rombo.

2. Voltar ao ofício que já se domina. Ele não tentou negócio novo: pegou um repertório de 40 anos e ensaiou meses antes de cobrar ingresso.

3. Começar pequeno. A estreia em Fredericton serviu de teste longe dos grandes palcos, e Glastonbury veio sete semanas depois.

Hoje o catálogo dele segue à venda e nas plataformas de música. Em 2019 saiu o disco póstumo Thanks for the Dance, terminado por Adam com as gravações de voz que o pai deixou. Em Montreal, um mural de vários andares com o rosto dele cobre a fachada de um prédio na rua Crescent desde 2017.

Os fatos centrais desta edição vêm de I'm Your Man: The Life of Leonard Cohen, biografia escrita por Sylvie Simmons e publicada em 2012, e da sentença do Tribunal Superior de Los Angeles no processo contra Kelley Lynch.

Leonard Cohen está enterrado em Montreal, no cemitério da congregação Shaar Hashomayim, no terreno da família onde fica o pai, Nathan, o dono da confecção. Em todos os shows da última turnê, subiu ao palco de terno escuro.

 

Se a reserva de uma vida sumisse aos 70, a que ofício você voltaria amanhã?

 
★ RARO

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Em maio de 2006, quanto o juiz do Tribunal Superior de Los Angeles mandou Kelley Lynch devolver a Leonard Cohen?

AUS$ 5 milhões
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CUS$ 9,5 milhões
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