|
|
A Vitrine da Farmácia de Hoosick Falls
A artrite travou as mãos que bordavam aos 76 anos; aos 80, Anna Mary Robertson Moses abriu a primeira individual em Manhattan.
|
Eagle Bridge: a fazenda onde ela pintou
|
| ▼ |
| |
| |
|
7 de setembro de 1860: Anna Mary Robertson nasce numa fazenda em Greenwich, estado de Nova York, terceira de dez filhos de um tecelão de linho que cuidava também da lavoura.
1872: aos doze anos, sai de casa para servir como hired girl (moça contratada para o serviço doméstico de uma fazenda vizinha). Passa quinze anos nesse ofício, cozinhando, lavando e ordenhando por salário de casa e comida.
1887: aos vinte e sete, casa com Thomas Salmon Moses, peão contratado pela mesma família. Os dois descem para o vale do Shenandoah, na Virgínia, e arrendam fazenda por dezoito anos.
1905: aos quarenta e cinco, volta com marido e filhos para Eagle Bridge, no estado de Nova York, e compra a fazenda que batiza de Mount Nebo.
1927: aos sessenta e seis, fica viúva. Thomas tem um ataque cardíaco na propriedade, e o filho Forrest assume o trabalho pesado do lugar.
1932: aos setenta e dois, começa a bordar quadros com lã sobre tecido, cenas de fazenda que distribui entre parentes e vizinhos.
1936: aos setenta e seis, a artrite endurece as juntas dos dedos e a agulha fica insuportável. A irmã Celestia sugere a tinta.
Primavera de 1938: quatro telas dela ficam expostas na vitrine da Thomas's Drug Store, farmácia de Hoosick Falls, junto de compotas caseiras. O engenheiro Louis J. Caldor, de passagem pela cidade, compra as quatro e vai até a fazenda buscar mais dez.
Outubro de 1939: três quadros entram na mostra Contemporary Unknown American Painters, no Museu de Arte Moderna de Nova York.
9 de outubro de 1940: aos oitenta anos, abre a primeira exposição individual, na Galerie St. Etienne, em Manhattan, com o título What a Farm Wife Painted (o que uma esposa de fazendeiro pintou).
13 de dezembro de 1961: aos 101 anos, deixa de pintar pela primeira vez desde os setenta e seis.
Existe uma leitura confortável desta história, a de que a fama caiu no colo de uma senhora que pintava por passatempo. O caderno de registro que ela mantinha desmente a leitura: cada tela entrava numerada, com data e preço, e o volume de trabalho dos últimos vinte e três anos de vida dela supera o de muitos pintores profissionais na idade produtiva. A seção a seguir começa pelo que a artrite tirou dela antes de qualquer galeria saber o nome dela.
|
| |
|
Continue lendo ↓
|
| |
| |
| |
|
I A Queda
As juntas que a agulha deixou para trás
|
| |
| |
|
Anna Mary Robertson Moses aprendeu cedo que trabalho manual era o que pagava a comida. Aos doze anos entrou na casa dos vizinhos como serviçal, e por quinze anos a rotina foi a mesma: acordar antes do sol, acender o fogão, cuidar de roupa, leite e lavoura por um salário que cabia num bolso pequeno.
O casamento não mudou a natureza do dia. Em dezoito anos na Virgínia, ela fabricava manteiga e batatas fritas caseiras para vender, e o dinheiro dessa produção comprou a primeira vaca e, depois, ajudou na entrada da fazenda de Eagle Bridge.
Dez filhos nasceram desse casamento e cinco morreram ainda bebês. Ela contou os dois números na autobiografia sem rodeio nem lamento, do jeito que se conta uma colheita perdida, e seguiu adiante no texto para o parágrafo seguinte, sobre o preço do leite.
|
| |
Aos sessenta e seis anos ela ficou viúva, aos setenta e dois entregou a fazenda ao filho e se mudou para a casa de uma filha, e aos setenta e seis descobriu que as mãos não seguravam mais a agulha de bordar. Cada perda chegou depois da idade em que a vida costuma pedir descanso. |
|
| |
|
O bordado com lã tinha virado a ocupação dela quando o corpo já não dava conta do serviço da fazenda. Eram paisagens costuradas ponto a ponto, presenteadas a filhos, netos e vizinhas. A artrite terminou com o ofício de uma vez: as juntas inchadas não fechavam o punho com força suficiente para puxar a linha pelo tecido grosso.
Foi a irmã Celestia quem apontou o caminho seguinte. O pincel exige menos precisão de pinça do que a agulha, e ela poderia continuar fazendo as mesmas cenas com tinta sobre madeira ou sobre pedaços de compensado tirados de caixote.
A primeira pintura dela saiu de um pedaço de papel de parede usado como suporte. As tintas vieram do restolho de casa e de latas de esmalte de pintar celeiro. Ela recortava as telas na medida de uma moldura que já tinha, porque comprar moldura sob medida custava caro.
|
| |
Pintei para me manter ocupada, para passar o tempo, mas foi virando trabalho a sério. Anna Mary Robertson Moses, My Life's History (A história da minha vida), organizado por Otto Kallir, 1952 |
|
| |
|
Nenhuma escola de arte entrou nessa história. A instrução formal dela somou alguns anos de escola rural, e a única aula de desenho da vida dela foi a observação direta de como a neve pousa no telhado de um celeiro e de como um cavalo de tração dobra a perna na lama.
|
| |
| |
| |
|
II O Triunfo
O engenheiro que parou em Hoosick Falls
|
| |
| |
|
O comércio da cidade funcionava como galeria improvisada. As telas pequenas dela ficavam na vitrine da farmácia de Hoosick Falls, a poucos quilômetros de Eagle Bridge, com preço de três a cinco dólares, dependendo do tamanho, ao lado de geleias e bordados de outras mulheres da região.
Na primavera de 1938, Louis J. Caldor, engenheiro civil de Nova York que colecionava arte por conta própria, passou pela cidade a trabalho, parou diante da vitrine e comprou as quatro telas expostas. No dia seguinte bateu na porta da fazenda e levou mais dez.
Caldor gastou um ano e meio batendo em porta de museu e de galeria com aquelas telas debaixo do braço. A resposta padrão era a mesma: pintura de amador, autora idosa demais para justificar investimento de longo prazo em um nome novo.
Em outubro de 1939, o Museu de Arte Moderna aceitou três quadros para a mostra Contemporary Unknown American Painters, montada para sócios do museu. Foi a primeira parede pública que recebeu o trabalho dela.
No ano seguinte, o marchand austríaco Otto Kallir, recém-chegado a Nova York e dono da Galerie St. Etienne, montou a individual. A abertura ocorreu em 9 de outubro de 1940, com trinta e cinco telas e o título What a Farm Wife Painted (o que uma esposa de fazendeiro pintou). A pintora tinha oitenta anos.
|
| |
Um mês depois da abertura, a loja de departamentos Gimbels levou as telas e a autora para uma feira de ação de graças em Manhattan. Ela subiu ao palco com um bolo de pão caseiro e um pote de geleia, falou de conservas para uma plateia de jornalistas e saiu dali com o apelido que carregaria pelo resto da vida: Grandma Moses, a vovó Moses. |
|
| |
|
Daí em diante a produção acelerou. O catálogo organizado por Otto Kallir registra mais de mil e quinhentas obras concluídas entre 1938 e 1961, sendo cerca de um quarto delas pintadas depois que ela completou noventa anos. Ela trabalhava numa mesa de cozinha adaptada, com a tela apoiada num tampo velho, e mantinha vários quadros em andamento ao mesmo tempo.
O reconhecimento oficial veio em blocos. Em 1949, o presidente Harry Truman entregou a ela o prêmio anual do Women's National Press Club, em Washington. Em 1952 saiu a autobiografia. Em 1960, o governador Nelson Rockefeller declarou 7 de setembro o Grandma Moses Day no estado de Nova York, e a revista Life pôs o rosto dela na capa da edição de 19 de setembro daquele ano, pelo centenário.
A última tela terminada chama-se Rainbow (arco-íris) e saiu em 1961, no ano em que ela completou 101 anos. Ela pintou de setenta e seis a 101, um intervalo de vinte e cinco anos, mais tempo de carreira do que muitos pintores têm de vida adulta produtiva.
|
| |
| |
| |
|
| |