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A Varsóvia que Bellotto Pintou
Os alemães arrasam a capital polonesa em 1944, e os arquitetos reerguem a Cidade Velha copiando quadros do século 18.
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Cidade Velha de Varsóvia, reerguida desde 1953
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1767: Bernardo Bellotto, pintor nascido em Veneza e sobrinho do célebre Canaletto, chega a Varsóvia. Tem 45 anos e procura trabalho depois de deixar a corte de Dresden.
1768: o rei Stanisław August Poniatowski, último monarca da Polônia independente, o contrata como pintor da corte. A encomenda é ambiciosa: retratar a capital rua por rua.
Anos 1770: Bellotto pinta as vedute (vistas urbanas, quadros que mostram a cidade como uma fotografia mostraria) da Praça do Mercado, da Rua Krakowskie Przedmieście, das igrejas, dos palácios e das margens do rio Vístula. Usa uma câmara escura (caixa com lente que projeta a paisagem numa superfície) para acertar as proporções.
Os quadros ganham sala própria no Castelo Real. O rei quer mostrar aos visitantes estrangeiros uma capital moderna, ordenada, digna de um país que tentava se reformar enquanto os vizinhos o cercavam.
1780: Bellotto encerra a vida em Varsóvia, aos 58 anos. Deixa no castelo 22 vistas da cidade, com fachadas, janelas, letreiros de loja, carroças, vendedores e cachorros de rua.
1795: a Polônia é dividida entre Rússia, Prússia e Áustria e some do mapa por 123 anos. Os quadros sobrevivem às trocas de dono.
1939: a Alemanha invade a Polônia em setembro. Pouco depois, as 22 telas saem do castelo, levadas pelos ocupantes.
1944: em agosto, a resistência polonesa se levanta contra a ocupação. Lutam por 63 dias. Em outubro, depois da rendição, Heinrich Himmler, chefe das SS (a tropa de elite do regime nazista), manda apagar a cidade.
Equipes alemãs especializadas passam os meses seguintes queimando e dinamitando prédio por prédio, com a cidade já vazia de moradores. Bibliotecas, arquivos, igrejas e o próprio Castelo Real vão abaixo.
Janeiro de 1945: o Exército Vermelho entra numa cidade de escombros. Na Cidade Velha, quase nada fica de pé.
Para reconstruir uma rua inteira, um arquiteto precisa saber como ela era: altura de cada casa, desenho de cada janela, cor de cada fachada. Os registros de Varsóvia tinham queimado com os arquivos.
Restava uma fonte que ninguém tinha pensado como planta de obra. Ela estava em 22 quadros pintados por um veneziano 170 anos antes.
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I A Queda
Uma capital de entulho
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A Cidade Velha de Varsóvia, o bairro medieval à beira do Vístula, fundado nos últimos anos do século 13, chega a 1945 reduzida a montes de tijolo. A praça onde Bellotto tinha pintado vendedores e carruagens vira um terreno de pedra solta, com fachadas isoladas sem nada atrás.
O governo provisório polonês discute se vale reconstruir ali. Há quem defenda transferir a capital para Łódź, cidade industrial que escapou quase intacta. Varsóvia não tinha água, luz, pontes nem casas para quem voltasse.
Os moradores voltam assim mesmo. Nos primeiros meses de 1945, milhares de pessoas atravessam o rio congelado e começam a morar entre ruínas, em porões e em cômodos que ainda tinham três paredes.
Em fevereiro de 1945, o governo cria o Biuro Odbudowy Stolicy (Escritório de Reconstrução da Capital). Quem chefia a parte do patrimônio histórico é o arquiteto Jan Zachwatowicz, professor da Politécnica de Varsóvia.
Zachwatowicz carrega um trunfo que poucos conheciam. Antes da guerra, os alunos dele tinham medido e desenhado centenas de prédios históricos da cidade, em plantas com escala e detalhe de fachada.
Durante a ocupação, ele e colegas esconderam parte desses desenhos. Alguns foram parar em mosteiros fora de Varsóvia, outros ficaram enterrados ou emparedados. Quando a guerra acabou, uma parcela voltou à luz.
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Os desenhos dos alunos davam a estrutura das casas; faltava saber como a cidade inteira parecia aos olhos de quem andava por ela. |
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As plantas medidas cobriam prédios avulsos. Não mostravam a sequência das fachadas numa rua, a cor de cada casa, os telhados vistos da praça. Para um bairro inteiro, a equipe precisava de imagem de conjunto.
Os quadros de Bellotto tinham sido saqueados pelos alemães e estavam fora do país. Ao fim da guerra, as autoridades polonesas os localizaram na Alemanha e os trouxeram de volta a Varsóvia.
Zachwatowicz defende uma ideia que contrariava a regra dos conservadores europeus da época. Para eles, ruína se preserva como está, e copiar um prédio perdido seria fabricar uma falsificação.
Ele responde em texto publicado em 1946, no qual afirma que o povo polonês não podia aceitar que os monumentos da sua cultura fossem arrancados dele. Reconstruir, para o arquiteto, fazia parte da sobrevivência do país.
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II O Triunfo
A obra que seguiu os quadros
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O trabalho na Cidade Velha de Varsóvia começa em 1949. Operários limpam os escombros à mão e separam tijolo inteiro de tijolo quebrado; o que serve volta para as paredes novas.
Os arquitetos montam a rua cruzando três fontes: as plantas dos alunos de Zachwatowicz, fotografias anteriores à guerra e as telas de Bellotto. Quando as fontes discordam, os quadros costumam ganhar a disputa nas fachadas.
O pintor tinha registrado detalhes que nenhuma foto preservava: a altura relativa dos telhados, o ritmo das janelas, as cores de reboco. Os pedreiros recebem reproduções das telas como guia de obra.
Bellotto, porém, nem sempre pintava o que via. Em algumas vistas, ele ajustou perspectivas, juntou prédios e acrescentou elementos que nunca tinham existido daquele jeito, para deixar a composição mais bonita aos olhos do rei.
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A reconstrução copiou também as licenças do pintor: certas fachadas de hoje repetem a versão idealizada das telas, e não a casa que existia em 1939. |
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Em algumas ruas, a equipe escolheu de propósito a aparência do século 18 e descartou acréscimos do século 19 que as fotos mostravam. A cidade nova saiu mais antiga, na aparência, do que a cidade que os alemães derrubaram.
As cores vieram das telas e de amostras de reboco achadas nos escombros. Pintores e restauradores refizeram nas fachadas da praça faixas decorativas, brasões e figuras que só existiam nos quadros e em fotos em preto e branco, sem garantia de tom exato.
Por dentro, as casas ganharam encanamento, eletricidade e plantas modernas. A fachada imita o passado; o miolo serve à vida de quem mora ali agora.
Em 1953, a Praça do Mercado da Cidade Velha é entregue reconstruída. As obras do bairro seguem até 1955, financiadas pelo governo e por doações de poloneses do país inteiro.
O Castelo Real, onde os quadros moravam, fica de fora por mais tempo. O governo comunista adia a obra até 1971. A reconstrução do castelo, paga em boa parte por doações privadas, termina em 1984.
As 22 vistas voltam à sala que o rei tinha reservado para elas, hoje chamada Sala Canaletto, porque os poloneses se acostumaram a chamar Bellotto pelo apelido herdado do tio.
Em 1980, a Unesco inscreve o centro histórico de Varsóvia na lista do Patrimônio Mundial. O texto da inscrição, publicado pela própria Unesco, justifica a escolha pela reconstrução quase total de um bairro destruído entre 1944 e 1945.
O caso abriu exceção na regra que os conservadores defendiam: um conjunto refeito do zero foi reconhecido como patrimônio pelo valor da própria reconstrução.
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