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A Proteína Que Não Podia Existir
Ele batizou o príon em 1982, foi tratado como fraude pela própria área por quinze anos e recebeu o Nobel sozinho.
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San Francisco, 1982: a bancada de Prusiner
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Hospital da Universidade da Califórnia, São Francisco, outono de 1972. Um residente de neurologia de trinta anos assume o caso de uma paciente que perdia a memória e o controle dos próprios movimentos em questão de semanas. O prontuário trazia um nome e nenhuma explicação: doença de Creutzfeldt-Jakob.
A resposta da medicina naquela época cabia em duas palavras: vírus lento. Ninguém tinha isolado o tal vírus, ninguém tinha visto ele em microscópio nenhum e ninguém sabia dizer por que a doença passava anos sem dar sinal antes de destruir um cérebro em poucos meses.
Havia uma pista incômoda desde 1967. A radiobiologista Tikvah Alper bombardeou o agente do scrapie, uma doença de ovelhas conhecida na Inglaterra desde o século 18, com doses de radiação ultravioleta capazes de destruir qualquer ácido nucleico. O agente saiu do teste infectando como antes.
No mesmo ano, o matemático John Griffith mostrou no papel que uma proteína poderia, em tese, se multiplicar sozinha. A pista ficou anos sobre a mesa e ninguém quis encostar nela, porque encostar significava discutir com a regra mais firme da biologia molecular.
O residente encostou. Em 1974 abriu o próprio laboratório na Universidade da Califórnia e passou oito anos moendo cérebro de hâmster para purificar o agente, um trabalho industrial de bancada que consumia lotes inteiros de animais a cada rodada de teste.
O hâmster foi a escolha que destravou o cronograma. A doença aparecia nele em cerca de sessenta dias, contra quase um ano no camundongo, e a troca transformou cada tentativa de purificação de uma aposta anual numa medida de dois meses.
Rodada após rodada o resultado se repetia. A capacidade de infectar se concentrava junto com uma proteína e resistia a enzimas que picam DNA e RNA em pedaços. Sobrava proteína, e não sobrava nada que parecesse um genoma.
Em 1982 ele tinha uma fração purificada, uma proteína teimosa e nenhum vírus. Faltava batizar a coisa. A palavra que ele escolheu naquele ano custou quinze anos da carreira dele.
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I A Queda
Cinco letras contra o dogma
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9 de abril de 1982, revista Science, volume 216. O artigo se chamava Novel proteinaceous infectious particles cause scrapie, e no meio dele aparecia uma palavra que não existia até aquela página: príon, do inglês proteinaceous infectious particle, com as letras trocadas de ordem para caber na boca.
O que a palavra afirmava era fácil de dizer e difícil de engolir. Existe uma partícula que infecta, se multiplica dentro do corpo e destrói neurônios sem carregar um único gene.
A biologia molecular inteira funcionava sobre uma regra enunciada por Francis Crick em 1958: a informação anda do DNA para o RNA e do RNA para a proteína, nunca de proteína para proteína. Um agente infeccioso sem material genético não tinha de onde tirar a cópia de si mesmo.
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Propõe-se o termo príon para designar uma pequena partícula proteica infecciosa, resistente à inativação pela maioria dos procedimentos que modificam ácidos nucleicos. ~ Stanley B. Prusiner, Novel Proteinaceous Infectious Particles Cause Scrapie, Science, 1982 |
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A reação veio rápida e organizada. A maior parte dos virologistas apostava no virino, um ácido nucleico minúsculo escondido dentro de uma capa de proteína do próprio hospedeiro, tese defendida por grupos fortes na Escócia e nos Estados Unidos.
Carleton Gajdusek, que tinha recebido o Nobel em 1976 justamente por mostrar que o kuru da Papua-Nova Guiné era transmissível, continuou chamando o agente de vírus. Laura Manuelidis, em Yale, sustentou a hipótese viral por décadas e sustenta até hoje.
O próprio Prusiner descreveu depois o efeito da publicação: o artigo abriu uma tempestade, os virologistas ficaram incrédulos e boa parte dos pesquisadores de scrapie ficou irritada com o termo novo.
Em 1986 a revista Discover publicou um perfil assinado por Gary Taubes com o título O nome do jogo é fama, mas é ciência?, que apresentava o pesquisador como vendedor de terminologia, mais interessado na palavra do que na prova. O texto circulou pela área durante anos.
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Nenhuma das críticas apontava erro de bancada. Diziam que a conclusão era impossível, e a palavra nova virou o alvo no lugar do experimento. |
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Painéis de revisão passaram a tratar a linha de pesquisa como aposta ruim, e parte do dinheiro que sustentava o laboratório deixou de ser renovada. Os convites para falar minguaram, e nos congressos em que ele ainda subia ao palco, as cadeiras iam esvaziando.
Ele não recolheu o termo. Deixou registrado por escrito o teste que o derrubaria: bastava alguém encontrar um ácido nucleico dentro daquela partícula e a palavra príon sumiria do vocabulário no dia seguinte.
Enquanto a área discutia vocabulário, faltava a peça que decidia a briga. Ninguém sabia de onde vinha aquela proteína.
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II O Triunfo
O camundongo que encerrou a discussão
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A virada não veio de réplica em congresso. Veio do buraco que a própria tese deixava aberto.
Se o príon não trazia gene, alguém precisava dizer de onde saía a proteína. Entre 1984 e 1985, trabalhando com Charles Weissmann em Zurique e com Bruno Oesch, o grupo clonou o gene que fabricava aquela molécula.
O gene era do próprio animal. Em humanos ele fica no cromossomo 20 e trabalha em cérebro saudável a vida inteira. A partícula infecciosa não carregava informação nenhuma: pegava uma proteína normal do hospedeiro e mudava a dobra dela.
A partir daí a multiplicação parou de parecer mágica. Uma proteína dobrada errado encosta na vizinha bem dobrada e a obriga a copiar a dobra torta, e o processo segue em cadeia até o tecido do cérebro ficar cheio de buracos.
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A informação da doença estava na forma da proteína, não numa sequência de letras. Era o único lugar onde ninguém tinha pensado em procurar. |
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Em 1989, Karen Hsiao encontrou uma mutação nesse gene numa família com a síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker. Em 1990, camundongos transgênicos que receberam a mutação adoeceram sozinhos, sem nunca ter encostado em material infectado. A mesma proteína explicava a versão hereditária e a versão transmissível.
O golpe definitivo saiu do laboratório de Weissmann em 1993, publicado na revista Cell. Camundongos criados sem o gene da proteína receberam injeção de scrapie e não adoeceram, e o agente não se multiplicou dentro deles. Sem a proteína do hospedeiro, não havia doença nem contágio.
Enquanto a bancada avançava, a Inglaterra vivia um problema de rebanho. Em novembro de 1986 os veterinários britânicos descreveram uma encefalopatia nova em bovinos, e no pico do surto, entre 1992 e 1993, o país contabilizava dezenas de milhares de casos por ano.
Foram mais de 180 mil bovinos confirmados e cerca de 4,4 milhões de animais abatidos por precaução. Em 20 de março de 1996 o governo britânico foi ao Parlamento admitir a ligação provável entre a doença do gado e uma variante nova da doença de Creutzfeldt-Jakob em pessoas.
Em um dia, uma disputa de vocabulário entre laboratórios virou emergência sanitária de um país inteiro, e a palavra príon apareceu na primeira página dos jornais do mundo todo.
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Pela descoberta dos príons, um novo princípio biológico de infecção. ~ Assembleia Nobel do Instituto Karolinska, anúncio do Prêmio de Medicina, 6 de outubro de 1997 |
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O anúncio de Estocolmo saiu com uma particularidade rara: o prêmio não foi dividido com ninguém. Quinze anos depois do artigo que a área tratou como fraude, ele subiu sozinho para receber a medalha, e parte dos colegas ainda reclamou que o comitê tinha se apressado.
A prova que faltava para os últimos céticos veio em 2004. O laboratório dele fabricou a proteína em bactéria, dobrou a molécula no tubo de ensaio e injetou em camundongos, que desenvolveram a doença. Proteína pura, sem nenhum material biológico onde um vírus pudesse estar escondido.
O mecanismo saiu do nicho das doenças raras e virou linha central de pesquisa em Alzheimer, Parkinson e esclerose lateral amiotrófica, todas investigadas hoje como problemas de proteína que se dobra errado e contamina a vizinhança.
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