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50% escolheram Chiquinha Gonzaga em 1876. Aqui está.
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A Pianista Que o Pai Deu Como Perdida
Sem herança e sem marido, ela viveu de aulas de piano, vendeu polcas nas lojas e foi a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil.
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Rio de Janeiro, Teatro Príncipe Imperial, 1885
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17 de outubro de 1847: nasce no Rio de Janeiro Francisca Edwiges Neves Gonzaga, filha do militar José Basileu Neves Gonzaga e de Rosa Maria de Lima, mestiça de família pobre. O pai assume a menina, casa com a mãe contra a vontade dos parentes e escolhe para padrinho Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias.
Anos 1850: a menina estuda letras, cálculo e piano em casa, com professores pagos pelo pai, como manda a educação das moças de família da Corte. O piano serve para enfeitar o salão e atrair um bom marido.
Natal de 1858: aos 11 anos, compõe a primeira música, a Canção dos Pastores, e toca para a família reunida. O pai aplaude a filha prendada.
1863: aos 16 anos, casa com Jacinto Ribeiro do Amaral, oficial da Marinha mercante e homem de negócios escolhido pela família. Vêm três filhos: João Gualberto, Maria e Hilário.
1865: começa a Guerra do Paraguai. Jacinto compra um navio para transportar tropas e leva a mulher a bordo. Ela vê de perto soldados doentes e escravizados mandados ao front pelos filhos dos ricos. O marido tem ciúme do piano e cobra que ela pare de tocar.
1869: Chiquinha deixa o marido e volta ao Rio. Mulher separada é escândalo na Corte. Jacinto fica com Maria e Hilário; ela leva o mais velho, João Gualberto.
Fim de 1869: o pai declara a filha morta para a família. Os parentes guardam luto, proíbem que o nome dela seja dito em casa e fecham a herança.
Anos 1870: vive com o engenheiro João Batista de Carvalho, com quem tem a filha Alice. Sem casamento no papel, a união só aumenta o falatório dos salões.
Em 1876, a segunda casa também acaba, e Chiquinha Gonzaga descobre quanto vale, em dinheiro, uma mulher sozinha que só sabe tocar piano.
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I A Queda
A filha dada como perdida
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Em 1876, Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, deixa João Batista de Carvalho depois de descobrir as traições dele. Tem 29 anos, nenhum marido, nenhuma herança e um filho de 12 anos pela mão.
João Batista fica com Alice. Maria e Hilário seguem com a família de Jacinto. Dos quatro filhos, só João Gualberto continua com a mãe, e ela passa anos longe dos outros três.
A família Gonzaga mantém a porta fechada. Para o pai, militar de carreira com prestígio na Corte, a filha separada duas vezes é uma mancha no sobrenome. Não manda dinheiro, não responde cartas e não recebe o neto.
O Rio de 1876 oferece poucos ofícios a uma mulher de família: costureira, governanta, professora. Chiquinha escolhe o único que aprendeu inteiro na infância e passa a oferecer aulas de piano em domicílio.
Atravessa a cidade a pé, de casa em casa, ensinando escalas às filhas das mesmas famílias que comentam a vida dela nos salões. Algumas mães cancelam as aulas quando descobrem o nome da professora.
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Em 1876, Chiquinha Gonzaga passa a viver das aulas de piano que dá nas casas das famílias que fecharam a porta para ela. |
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As aulas não pagam o mês inteiro. Ela passa a trabalhar como pianeira (a pianista contratada pelas lojas de música para tocar as partituras novas, para o freguês ouvir antes de comprar) nas casas da Rua do Ouvidor. Toca também em bailes, por cachê de uma noite.
No piano das lojas, aprende o que o salão da família nunca ensinou: o que o público do Rio quer ouvir. Quase ninguém leva a sonata europeia que ela estudou na infância. O freguês leva polca (dança de salão de origem tcheca, em compasso de dois tempos).
Ela se junta aos chorões, os músicos de flauta, violão e cavaquinho que tocam a polca europeia em ritmo brasileiro nas festas dos subúrbios. O flautista Joaquim Antônio da Silva Callado, o nome mais respeitado da roda, a recebe entre os músicos e dedica a ela a polca Querida por Todos.
Uma mulher de família tocando com músicos pobres, quase todos negros e mestiços, em festas de madrugada: o falatório cresce. Ela continua tocando, porque cada noite de baile paga o aluguel do quarto onde dorme com o filho.
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II O Triunfo
Da polca ao pódio do maestro
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Em 1877, numa reunião na casa de amigos, Chiquinha senta ao piano e improvisa uma polca. A melodia agrada tanto que ela escreve a partitura e leva ao editor. Batiza a música de Atraente.
Atraente sai impressa em 1877 e vende nas lojas da Rua do Ouvidor. As edições se esgotam, os pianeiros tocam a polca nas vitrines e as bandas levam a música para os coretos. Pela primeira vez, o nome Chiquinha Gonzaga aparece na capa de uma partitura vendida na cidade inteira.
O dinheiro das partituras chega pequeno e irregular, mas chega no nome dela. Ela passa a compor sem parar: polcas, tangos, valsas e quadrilhas, tudo o que a loja consegue vender e a banda consegue tocar.
O teatro é o passo seguinte. Nos anos 1880, a opereta (peça de teatro leve, com diálogo falado e canções) lota as casas do Rio, e quem assina a música recebe por temporada.
Em 1885, Chiquinha escreve a música de A Corte na Roça, opereta de costumes que leva a etiqueta da Corte para uma fazenda do interior. Os empresários aceitam a partitura e ela pede mais: quer reger a estreia.
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Em 17 de janeiro de 1885, no Teatro Príncipe Imperial, Chiquinha Gonzaga sobe ao pódio e rege a orquestra na estreia de A Corte na Roça: é a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. |
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Os jornais não sabem como chamar a mulher de batuta na mão. A palavra maestro não tinha feminino em uso, e a imprensa passa a escrever maestrina, termo que entra no português por causa dela.
Os músicos da orquestra são todos homens. Parte da plateia vai ao teatro para ver o escândalo de perto e sai falando da música. A opereta segue em cartaz e abre a ela a porta de outros palcos.
Nos anos seguintes, usa o próprio nome contra a escravidão. Em 1888, vende de porta em porta as partituras das próprias músicas para juntar o dinheiro da alforria (a compra da liberdade de um escravizado) do músico José Flauta, e toca em festas da Confederação Abolicionista.
Em 1899, aos 51 anos, ouve da janela de casa, no Andaraí, o ensaio do cordão (grupo de foliões que desfila a pé no Carnaval) Rosa de Ouro. Os foliões precisam de uma música para abrir caminho na rua. Ela compõe uma marcha de passo firme, fácil de cantar andando:
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“Ó abre alas, que eu quero passar” Chiquinha Gonzaga, marcha Ó Abre Alas, 1899 |
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Ó Abre Alas é a primeira música escrita para um cordão de Carnaval no Brasil. Mais de um século depois, a marcha ainda é tocada para abrir desfiles e bailes, cantada por quem nunca ouviu o nome da autora.
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