| |
| |
| |
|
I A Queda
O réu que fez a própria defesa
|
| |
| |
|
Clarence Earl Gideon entrou na sala do juiz Robert McCrary Jr. em 4 de agosto de 1961 sem ninguém ao lado. Antes de o júri tomar assento, pediu um defensor nomeado pelo tribunal.
O juiz respondeu que não podia atender. Pela lei da Flórida, apoiada na decisão de 1942, o estado só nomeava advogado para réu acusado de crime capital (o punido com pena de morte). Gideon insistiu que a Suprema Corte dizia o contrário. Estava errado sobre o que a Corte tinha dito até então, e certo sobre o que ela diria depois.
O júri de seis
O julgamento durou um dia. Diante de seis jurados, Gideon fez a abertura, interrogou as testemunhas e apresentou a defesa, sem saber as regras do processo.
A testemunha principal, Henry Cook, contou que viu o réu dentro do salão às cinco e meia da manhã e que ele saiu com uma garrafa de vinho, deu um telefonema e entrou num táxi. Gideon perguntou pouco e mal. Não explorou o que o próprio Cook fazia na rua àquela hora, nem chamou o motorista do táxi para contar o que tinha visto.
No fim, falou ao júri por alguns minutos. Disse que era inocente e que ganhava as moedas no jogo de cartas. Os jurados voltaram com a condenação no mesmo dia, e o juiz aplicou a pena máxima: cinco anos de prisão.
A cela em Raiford
Gideon foi levado para a Penitenciária Estadual da Flórida, em Raiford. Na biblioteca da prisão, leu livros de direito e descobriu o recurso de certiorari (pedido para a Suprema Corte rever o caso de um tribunal inferior), que um preso pode mandar in forma pauperis, isto é, como pobre, sem pagar custas.
Primeiro tentou a Suprema Corte da Flórida, que negou o pedido de habeas corpus (ordem para soltar quem está preso sem base legal). Então escreveu a lápis, em papel pautado da prisão, uma petição de cinco páginas endereçada ao presidente da Suprema Corte dos Estados Unidos.
|
| |
“A questão é muito simples. Eu pedi ao tribunal que me nomeasse um advogado e o tribunal recusou.” Clarence Earl Gideon, petição à Suprema Corte dos Estados Unidos, 1962 (tradução livre). |
|
| |
| |
Um homem com quatro passagens pela prisão, sem diploma e sem dinheiro, fez a própria defesa e saiu condenado ao máximo da lei. |
|
| |
| |
| |
| |
| |
| |
|
II O Triunfo
Nove votos para um preso
|
| |
| |
|
A petição de Clarence Earl Gideon chegou ao prédio da Suprema Corte, em Washington, em 8 de janeiro de 1962. Recebeu o número 890 da pauta de pedidos de pobres, a fila onde quase todo papel de preso é negado sem leitura demorada.
O dele não foi. Os juízes vinham procurando um caso para reabrir a decisão de 1942, e a carta trazia o problema na forma mais limpa: um réu sem nenhuma situação especial, julgado sem defensor. Em junho, a Corte aceitou ouvir o caso e pediu às partes que discutissem se Betts contra Brady devia ser revogado.
Abe Fortas na tribuna
Para representar Gideon, a Corte nomeou Abe Fortas, sócio de um dos escritórios mais influentes de Washington, que trabalhou sem cobrar. Gideon escreveu cartas a ele com observações sobre o próprio processo.
Do lado da Flórida, falou o jovem procurador Bruce Jacob, de 26 anos. O procurador-geral de Minnesota, Walter Mondale, recolheu assinaturas de outros estados num memorial de amicus curiae (manifestação de quem não é parte, mas tem interesse no resultado), e 22 estados pediram à Corte que desse razão ao preso.
A audiência aconteceu em 15 de janeiro de 1963. Fortas sustentou que nenhum leigo, por mais inteligente, consegue se defender sozinho numa acusação criminal, e que a regra das situações especiais obrigava os juízes a adivinhar, caso a caso, quem precisava de ajuda.
O voto de Hugo Black
Em 18 de março de 1963, a Corte decidiu por unanimidade. Coube ao juiz Hugo Black, vencido em 1942, escrever a decisão que revogava a regra que ele tinha combatido 21 anos antes.
O texto aplica a Sexta Emenda da Constituição, a que garante ao acusado a assistência de advogado, aos tribunais estaduais por meio da Décima Quarta Emenda. Daquela data em diante, todo réu pobre acusado de crime grave em qualquer estado americano teria direito a um defensor pago pelo poder público.
|
| |
“Em nosso sistema de justiça adversarial, qualquer pessoa levada ao tribunal, pobre demais para contratar um advogado, não pode ter um julgamento justo sem que um lhe seja fornecido.” Hugo Black, voto em Gideon contra Wainwright, 1963 (tradução livre). |
|
| |
|
O nome do caso leva o de Louie Wainwright, diretor do sistema prisional da Flórida, porque o pedido de Gideon era contra quem o mantinha preso.
|
| |
Uma carta escrita a lápis numa cela da Flórida mudou a regra de defesa em todos os tribunais criminais dos Estados Unidos. |
|
| |
| |
| |
| |
| |
| |
| |
|
|
|