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A Perna Que Desceu de Paraquedas
Ele perdeu as duas pernas aos 21 anos numa acrobacia rasante, e voltou para comandar um esquadrão de caça com próteses de metal.
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Woodley, 1931: o Bulldog rente ao gramado
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Céu sobre Le Touquet, norte da França, 9 de agosto de 1941. Um Spitfire acaba de perder a cauda inteira e desce girando. Dentro da cabine, um piloto de trinta e um anos tenta se erguer do assento e não sai do lugar.
A capota já foi arrancada. O vento entra com força de jato de areia e puxa o corpo dele para fora. Metade sai. A outra metade fica presa, e o piloto abaixa a cabeça para descobrir o motivo.
A perna direita dele é de metal e couro. Um pino da prótese enganchou em alguma coisa dentro do cockpit, e o caça em queda passou a rodopiar levando junto o homem pendurado pela própria perna artificial.
Ele alcança a fivela que prende o coto ao aparelho e puxa com as duas mãos. A correia arrebenta, a perna fica lá dentro, e o resto do piloto sai pelo ar aberto da França ocupada.
O paraquedas abre com um solavanco seco. Abaixo há campo verde, estrada de terra e uma coluna de fumaça preta onde o Spitfire terminou de cair. Ele desce girando devagar, de bota só num pé.
A peça que ficou no avião tinha sido feita sob medida numa oficina de Londres. Não existia em prateleira nenhuma da Europa ocupada, e sem ela o recém-chegado não conseguia sequer ficar de pé.
Dez dias depois, um bombardeiro britânico soltaria de paraquedas um caixote de madeira sobre o aeródromo alemão de Saint Omer, no meio de uma operação de bombardeio em curso. Dentro do caixote, uma perna nova.
O homem se chamava Douglas Bader. Comandava a asa de caça de Tangmere, tinha vinte e dois aviões alemães marcados na fuselagem e não pisava com osso próprio desde os vinte e um anos.
A explicação de como um piloto sem as duas pernas chegou a liderar esquadrão na Batalha da Inglaterra começa dez anos antes, num aeroclube perto de Reading, com uma provocação na hora do chá e uma manobra proibida rente ao gramado.
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I A Queda
Tonneau lento a doze metros do chão
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Aeródromo de Woodley, perto de Reading, 14 de dezembro de 1931. Douglas Bader tem vinte e um anos, saiu de Cranwell dois anos antes e voa no time acrobático da RAF que se apresenta em Hendon.
Naquela manhã ele e mais dois pilotos pousaram no aeroclube civil para tomar chá. Alguém da casa provocou o rapaz da Força Aérea sobre acrobacia rasante, e o rapaz da Força Aérea não deixou a provocação passar.
O comandante do esquadrão dele já tinha proibido manobra baixa fora de exibição autorizada. Bader sabia da ordem. Subiu no Bristol Bulldog, um caça pesado que perdia sustentação rápido em baixa velocidade, e desceu para o nível da grama.
A doze metros do chão ele iniciou um tonneau lento. A ponta da asa esquerda tocou o gramado, o caça capotou e se enrolou no próprio motor.
Tiraram Bader dos destroços com as duas pernas destruídas. No Royal Berkshire Hospital, o cirurgião Leonard Joyce amputou a direita acima do joelho. Dias depois levou a esquerda, abaixo do joelho.
No corredor, uma enfermeira mandou baixarem a voz porque havia um rapaz se apagando no quarto ao lado. Bader ouviu de dentro do quarto e decidiu ali que a frase não valia para ele.
Semanas depois, já sentado na cama, preencheu o livro de bordo com a única linha que a página pedia.
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Bati fazendo tonneau lento perto do chão. Que fiasco. ~ Douglas Bader, livro de bordo, 14 de dezembro de 1931, citado em Reach for the Sky, Paul Brickhill, 1954 |
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O que veio depois do hospital foi trabalho de oficina e teimosia. Os irmãos Dessoutter, de Londres, montaram duas pernas de duralumínio e couro sob medida. Marcel Dessoutter tinha perdido a própria perna num acidente de aviação e sabia onde a prótese machuca.
Bader recusou bengala e muleta desde o primeiro dia. Aprendeu a andar caindo no jardim de casa, mandou adaptar um carro para dirigir só com as mãos, voltou ao golfe e voltou a dançar.
Em junho de 1932 conseguiu um teste de voo na escola central da RAF, em Upavon. Subiu num Avro 504, cumpriu o programa inteiro e desceu com o parecer do instrutor dizendo que aquele homem podia voar.
O parecer não bastou. Em abril de 1933 o Ministério do Ar o reformou por invalidez e mandou o piloto para casa com uma pensão.
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O corpo dele já tinha provado que voava. Quem o tirou do cockpit foi o papel, e o papel nem sequer previa o caso. |
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Aos vinte e três anos, Bader virou funcionário de escritório da Asiatic Petroleum, em Londres. Casou com Thelma Edwards no ano seguinte e passou seis anos atrás de uma mesa, ouvindo avião passar por cima do telhado.
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II O Triunfo
O caixote de madeira sobre Saint Omer
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Setembro de 1939. A Inglaterra entrou em guerra e Bader largou a mesa da Asiatic Petroleum no mesmo mês. Escreveu ao Ministério do Ar oferecendo a única coisa que sabia fazer bem. A resposta foi não.
Ele insistiu e conseguiu uma carta de recomendação sem ressalva de quem tinha comandado Cranwell. Em outubro sentou diante de uma junta de seleção.
Seis anos antes, o Ministério do Ar tinha reformado Bader com uma frase que a Inglaterra acabaria conhecendo de cor.
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Não há nada nos Regulamentos do Rei que cubra o seu caso. ~ Ministério do Ar britânico, carta a Douglas Bader, 1933, citada em Reach for the Sky, Paul Brickhill, 1954 |
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Em 1939 a mesma frase passou a trabalhar do outro lado. Se nenhum regulamento cobria o caso dele, nenhum regulamento o proibia de voltar ao caça, e a RAF estava com falta de gente treinada.
Em novembro refez o teste em Upavon e saiu liberado para serviço aéreo completo. Tinha vinte e nove anos e sete anos longe de um cockpit de combate.
Em fevereiro de 1940 chegou ao esquadrão 19, em Duxford, e voou Spitfire pela primeira vez. Em 1 de junho, sobre Dunquerque, derrubou o primeiro alemão.
No fim daquele mês recebeu o comando do esquadrão 242, de canadenses que tinham saído da campanha da França quebrados e sem confiança em oficial nenhum.
Bader pousou, desceu do Hurricane sem ajuda, andou até os pilotos com as duas pernas de metal e não pediu paciência a ninguém. Em semanas o 242 estava operando de novo.
Havia uma vantagem escondida na perda: numa curva fechada o sangue do piloto desce para as pernas e a vista escurece, e Bader não tinha para onde mandá-lo.
Em 30 de agosto de 1940, no auge da Batalha da Inglaterra, o esquadrão dele reivindicou doze aviões alemães num único combate.
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O piloto que o regulamento tinha declarado inválido em 1933 estava, em 1940, comandando homens inteiros dentro da maior batalha aérea da história. |
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Em março de 1941 subiu a comandante da asa de Tangmere, três esquadrões de Spitfire. Pintou as próprias iniciais na fuselagem, e os pilotos batizaram a formação de companhia de ônibus do Bader.
Em 9 de agosto de 1941, sobre Le Touquet, o Spitfire dele perdeu a cauda e o comandante saltou deixando a perna direita presa aos pedais.
Os alemães o trataram como visita. Adolf Galland, comandante da ala de caça JG 26, levou o prisioneiro à base de Audembert e o deixou sentar na cabine de um Messerschmitt 109. Bader pediu uma volta sobre o campo, e o alemão riu.
A Luftwaffe ofereceu salvo-conduto para um avião britânico desarmado trazer a perna de reposição. A RAF aceitou a entrega e dispensou a trégua.
Em 19 de agosto de 1941 um Blenheim do esquadrão 82, escalado para bombardear Gosnay, soltou de paraquedas um caixote de madeira sobre Saint Omer e seguiu para o alvo com as bombas a bordo.
Com a perna nova, Bader desceu do hospital de Saint Omer por lençóis amarrados e sumiu na noite. Recapturado dias depois, tentou outra vez, e em agosto de 1942 foi despachado para Colditz, o castelo dos incorrigíveis.
Ficou lá até 15 de abril de 1945. Em setembro daquele ano liderou trezentos aviões no desfile aéreo da vitória sobre Londres.
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