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I A Queda
O criado de faixas no peito
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A resposta de ontem O que Ibn Khaldun foi fazer na tenda de Tamerlão? Foi negociar a saída dos sitiados e conhecer o conquistador. Passou cerca de 35 dias no acampamento de Tamerlão, escreveu para ele uma descrição do Magrebe e conseguiu salvo-conduto para voltar ao Cairo. O encontro está narrado na autobiografia dele, o Ta'rif. |
Jeanne Baret desceu da Étoile na baía de Guanabara, em junho de 1767, com o peito apertado em faixas de linho e o nome de Jean Baré. Subia os morros carregando prensas, cadernos e a sacola de coleta, enquanto Philibert Commerson se recuperava a bordo.
Dali saiu a trepadeira de flores roxas que o botânico batizou de Bougainvillea, em honra ao comandante. Hoje ela cobre muros de quase todo o Brasil.
A cabine cedida ao naturalista era a maior do navio, por causa das caixas de plantas, e tinha latrina própria. O resto da tripulação usava as do convés, à vista de todos. Foi o detalhe que guardou o segredo.
A besta de carga do estreito
No estreito de Magalhães, em dezembro de 1767, a expedição passou semanas entre geleiras e pântanos. Jeanne cruzava o terreno a pé, com as caixas nas costas, e voltava ao navio com amostras de musgo e líquen.
Bougainville anotou que o criado era a “besta de carga” do botânico. Os marinheiros desconfiavam do rapaz sem barba e de voz fina, e as piadas viraram vigilância.
A praia do Taiti
Em abril de 1768, os navios chegaram ao Taiti. Segundo o diário de Bougainville, os taitianos cercaram o criado na praia e gritaram na hora que era mulher. Um oficial teve de escoltá-la de volta ao barco.
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“Não é feia nem bonita, e não tem mais de 25 anos.” Louis-Antoine de Bougainville, Viagem ao Redor do Mundo, 1771. |
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A bordo, ela confessou. Disse ter se disfarçado por vontade de ver o mundo e jurou que Commerson não sabia de nada. O comandante não puniu nenhum dos dois, mas registrou a infração. Também não tinha como desembarcá-la: o Taiti ficava a meses de qualquer colônia francesa, e a Étoile precisava do naturalista e do ajudante.
Outro relato muda o lugar e o tom. O cirurgião François Vivès, que detestava Commerson, situa a descoberta em julho de 1768, na Nova Irlanda, quando marinheiros a cercaram e a despiram à força. A biógrafa Glynis Ridley lê nesse trecho uma agressão sexual que o diário oficial calou.
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Aos 27 anos, Jeanne Baret tinha perdido o filho, o disfarce e o segredo, num navio cheio de homens que já sabiam. |
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II O Triunfo
As plantas da Ilha de França
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Em novembro de 1768, a expedição parou na Ilha de França, a atual Maurício, no oceano Índico. O intendente da ilha, Pierre Poivre, botânico por gosto, convidou Commerson a ficar para estudar a flora local. Poivre tinha planos próprios: queria aclimatar na ilha cravo e noz-moscada levados escondidos das Molucas, e precisava de um naturalista para o jardim de Pamplemousses.
Jeanne Baret desembarcou com ele. Bougainville seguiu viagem sem os dois, e a Boudeuse entrou em Saint-Malo em março de 1769, encerrando a volta ao mundo sem a única mulher que a fizera até ali.
Na ilha, a dupla viajou a Madagascar e à ilha Bourbon, hoje Reunião, sempre colhendo. As caixas despachadas a Paris somaram milhares de exemplares secos, sementes e desenhos.
O patrão que não voltou
Philibert Commerson morreu em Maurício em 14 de março de 1773, aos 45 anos, sem rever a França. Jeanne ficou sozinha, sem salário e sem patrão, a meio mundo da Borgonha.
Abriu uma taberna em Port Louis, a capital da ilha. Em dezembro de 1773, as autoridades a multaram em 50 livres por servir bebida durante a missa de domingo. Ela pagou e manteve o balcão aberto. A clientela era de marinheiros e soldados da guarnição, gente com quem ela tinha dividido convés e rancho por quase dois anos.
Em 17 de maio de 1774, casou na igreja de Port Louis com Jean Dubernat, suboficial do exército francês nascido no Périgord, a região do sudoeste da França. O casamento lhe deu um nome legal e uma passagem de volta.
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Sozinha numa ilha do Índico, a ex-criada montou um negócio, pagou a multa e casou com o soldado que podia levá-la para casa. |
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Em 1775, o casal embarcou para a França. Ao desembarcar, Jeanne Baret completou a volta ao globo iniciada oito anos antes em Rochefort. É a primeira mulher que se sabe ter feito a circum-navegação.
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“Ela será a primeira mulher a dar a volta ao globo.” Louis-Antoine de Bougainville, Viagem ao Redor do Mundo, 1771. |
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Em Paris, ela recebeu a herança que Commerson lhe deixara em testamento, escrito antes da partida. Com o dinheiro, o casal comprou casa e terra em Saint-Aulaye, vila do Périgord, perto da família de Dubernat. A vila fica no vale do rio Dronne, a centenas de quilômetros de qualquer porto. Foi ali, longe de navios, que Jeanne passou as três últimas décadas da vida.
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