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A Pensão de 200 Livres de Jeanne Baret

Vestida de criado, ela deu a volta ao mundo com um botânico, foi descoberta no Taiti e ganhou da Marinha francesa uma pensão anual.

Jovem vestida de criado carregando prensas de plantas no convés de um veleiro francês do século XVIII.

Rochefort, França, 1767

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27 de julho de 1740: Jeanne Baret nasce em La Comelle, aldeia da Borgonha, filha de Jean Barret e Jeanne Pochard, lavradores sem terra. O registro de batismo da paróquia guarda a primeira aparição do nome dela no papel.

1762: morre a mulher do médico e botânico Philibert Commerson, em Toulon-sur-Arroux, a poucas horas de caminhada de La Comelle. Jeanne entra na casa como governanta e cuida do bebê do viúvo.

1764: grávida e solteira, ela assina diante de um juiz a déclaration de grossesse (declaração de gravidez), papel exigido por lei das mães sem marido. Não escreve o nome do pai.

Dezembro de 1764: em Paris, para onde segue com Commerson, dá à luz um menino, Jean-Pierre, entregue ao hospital dos enjeitados. O bebê não passa do verão seguinte.

1766: Luís XV nomeia Commerson naturalista da primeira volta ao mundo francesa, sob o comando de Louis-Antoine de Bougainville. Uma ordenança real de 1689 proíbe mulheres a bordo dos navios da Marinha.

Dezembro de 1766: antes de partir, Commerson redige o testamento em Paris. Deixa à governanta uma soma em dinheiro e os móveis do apartamento, sob a condição de que ela continue a servi-lo até o fim da viagem.

Fevereiro de 1767: a Étoile (Estrela), navio de carga que escolta a fragata Boudeuse, deixa o porto de Rochefort. Na lista de bordo consta Jean Baré, criado do naturalista, 26 anos.

Março de 1767: o navio cruza o Atlântico Sul rumo ao Brasil. Commerson passa a travessia de cama, enjoado e com uma úlcera na perna. O criado lava, cozinha, organiza as caixas de sementes e dorme no chão da cabine.

Durante mais de um ano, nenhum oficial pede ao criado que tire a camisa. O relato abaixo começa nos morros da baía de Guanabara, onde Jean Baré trabalhava enquanto o patrão se recuperava.

 

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I  A Queda

O criado de faixas no peito

 
 

A resposta de ontem

O que Ibn Khaldun foi fazer na tenda de Tamerlão?

Foi negociar a saída dos sitiados e conhecer o conquistador. Passou cerca de 35 dias no acampamento de Tamerlão, escreveu para ele uma descrição do Magrebe e conseguiu salvo-conduto para voltar ao Cairo. O encontro está narrado na autobiografia dele, o Ta'rif.

Jeanne Baret desceu da Étoile na baía de Guanabara, em junho de 1767, com o peito apertado em faixas de linho e o nome de Jean Baré. Subia os morros carregando prensas, cadernos e a sacola de coleta, enquanto Philibert Commerson se recuperava a bordo.

Dali saiu a trepadeira de flores roxas que o botânico batizou de Bougainvillea, em honra ao comandante. Hoje ela cobre muros de quase todo o Brasil.

A cabine cedida ao naturalista era a maior do navio, por causa das caixas de plantas, e tinha latrina própria. O resto da tripulação usava as do convés, à vista de todos. Foi o detalhe que guardou o segredo.

A besta de carga do estreito

No estreito de Magalhães, em dezembro de 1767, a expedição passou semanas entre geleiras e pântanos. Jeanne cruzava o terreno a pé, com as caixas nas costas, e voltava ao navio com amostras de musgo e líquen.

Bougainville anotou que o criado era a “besta de carga” do botânico. Os marinheiros desconfiavam do rapaz sem barba e de voz fina, e as piadas viraram vigilância.

A praia do Taiti

Em abril de 1768, os navios chegaram ao Taiti. Segundo o diário de Bougainville, os taitianos cercaram o criado na praia e gritaram na hora que era mulher. Um oficial teve de escoltá-la de volta ao barco.

 

“Não é feia nem bonita, e não tem mais de 25 anos.” Louis-Antoine de Bougainville, Viagem ao Redor do Mundo, 1771.

 

A bordo, ela confessou. Disse ter se disfarçado por vontade de ver o mundo e jurou que Commerson não sabia de nada. O comandante não puniu nenhum dos dois, mas registrou a infração. Também não tinha como desembarcá-la: o Taiti ficava a meses de qualquer colônia francesa, e a Étoile precisava do naturalista e do ajudante.

Outro relato muda o lugar e o tom. O cirurgião François Vivès, que detestava Commerson, situa a descoberta em julho de 1768, na Nova Irlanda, quando marinheiros a cercaram e a despiram à força. A biógrafa Glynis Ridley lê nesse trecho uma agressão sexual que o diário oficial calou.

 

Aos 27 anos, Jeanne Baret tinha perdido o filho, o disfarce e o segredo, num navio cheio de homens que já sabiam.

 
 
 
 

II  O Triunfo

As plantas da Ilha de França

 
 

Em novembro de 1768, a expedição parou na Ilha de França, a atual Maurício, no oceano Índico. O intendente da ilha, Pierre Poivre, botânico por gosto, convidou Commerson a ficar para estudar a flora local. Poivre tinha planos próprios: queria aclimatar na ilha cravo e noz-moscada levados escondidos das Molucas, e precisava de um naturalista para o jardim de Pamplemousses.

Jeanne Baret desembarcou com ele. Bougainville seguiu viagem sem os dois, e a Boudeuse entrou em Saint-Malo em março de 1769, encerrando a volta ao mundo sem a única mulher que a fizera até ali.

Na ilha, a dupla viajou a Madagascar e à ilha Bourbon, hoje Reunião, sempre colhendo. As caixas despachadas a Paris somaram milhares de exemplares secos, sementes e desenhos.

O patrão que não voltou

Philibert Commerson morreu em Maurício em 14 de março de 1773, aos 45 anos, sem rever a França. Jeanne ficou sozinha, sem salário e sem patrão, a meio mundo da Borgonha.

Abriu uma taberna em Port Louis, a capital da ilha. Em dezembro de 1773, as autoridades a multaram em 50 livres por servir bebida durante a missa de domingo. Ela pagou e manteve o balcão aberto. A clientela era de marinheiros e soldados da guarnição, gente com quem ela tinha dividido convés e rancho por quase dois anos.

Em 17 de maio de 1774, casou na igreja de Port Louis com Jean Dubernat, suboficial do exército francês nascido no Périgord, a região do sudoeste da França. O casamento lhe deu um nome legal e uma passagem de volta.

 

Sozinha numa ilha do Índico, a ex-criada montou um negócio, pagou a multa e casou com o soldado que podia levá-la para casa.

 

Em 1775, o casal embarcou para a França. Ao desembarcar, Jeanne Baret completou a volta ao globo iniciada oito anos antes em Rochefort. É a primeira mulher que se sabe ter feito a circum-navegação.

 

“Ela será a primeira mulher a dar a volta ao globo.” Louis-Antoine de Bougainville, Viagem ao Redor do Mundo, 1771.

 

Em Paris, ela recebeu a herança que Commerson lhe deixara em testamento, escrito antes da partida. Com o dinheiro, o casal comprou casa e terra em Saint-Aulaye, vila do Périgord, perto da família de Dubernat. A vila fica no vale do rio Dronne, a centenas de quilômetros de qualquer porto. Foi ali, longe de navios, que Jeanne passou as três últimas décadas da vida.

 
 
 
 

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III  A Lição

O papel do Ministério da Marinha

 
 

Em 1785, o Ministério da Marinha concedeu a Jeanne Baret uma pensão anual de 200 livres, a moeda de conta da França antes da Revolução. O pedido teve o apoio de Bougainville. A quantia não enriquecia ninguém, mas era renda fixa e vitalícia, paga pelo Estado a uma camponesa da Borgonha.

O texto do ministério chama Jeanne de “mulher extraordinária” e conta o disfarce sem condenar ninguém. A mesma Marinha cuja ordenança a proibia a bordo passava a pagá-la pelo que fizera a bordo.

 

“Jeanne Barré, por meio de um disfarce, deu a volta ao globo num dos navios comandados pelo senhor de Bougainville.” Ministério da Marinha da França, concessão de pensão, 1785.

 

O documento diz ainda que ela se dedicou a ajudar Commerson e dividiu com ele os trabalhos e os perigos da viagem. Jeanne tinha 45 anos e vivia como dona de terra no Périgord. O papel não fala de pecado nem de escândalo: fala de serviço, no tom usado para marinheiro ferido em combate.

 

A Marinha francesa pagou pensão a uma infratora da própria lei, por causa do serviço prestado durante a infração.

 

O herbário de Paris

Jeanne Baret morreu em Saint-Aulaye em 5 de agosto de 1807, aos 67 anos. Deixou testamento e bens ao sobrinho do marido.

Os exemplares que ela carregou pelos morros e geleiras estão no herbário do Museu Nacional de História Natural, em Paris. Commerson chegou a batizar de Baretia um arbusto de Madagascar, mas a botânica depois absorveu o nome no gênero Turraea, e a homenagem sumiu. Botânicos do museu, entre eles Antoine-Laurent de Jussieu, usaram as coletas da dupla para descrever plantas novas nas décadas seguintes.

A trajetória deixa três passos para quem perde a proteção e o lugar:

1. Trabalhar onde ninguém olha. Os morros do Brasil e as geleiras do estreito provaram o valor de Jeanne enquanto ninguém sabia quem ela era.

2. Ficar quando o navio parte. A escala em Maurício parecia abandono e rendeu cinco anos de coleta e uma vida própria.

3. Cobrar o reconhecimento pelo papel. A pensão de 1785 só existiu porque houve petição, apoio escrito e registro oficial.

A biografia The Discovery of Jeanne Baret (A Descoberta de Jeanne Baret), de Glynis Ridley, de 2010, e o diário publicado de Bougainville sustentam o relato desta edição.

O registro de batismo de La Comelle, de 1740, e a ata de óbito de Saint-Aulaye, de 1807, guardam o mesmo nome, sem disfarce: Jeanne. Entre os dois papéis cabem um navio, uma ilha e a pensão de um ministério.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que planta descrita em 2012 recebeu o nome de Jeanne Baret?

 
 
 
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Em 1785, que valor anual a Marinha francesa concedeu a Jeanne Baret como pensão?

A50 livres
B500 livres
C200 livres
D1000 livres

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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