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A Mostra Que São Paulo Devolveu
Anita Malfatti expôs cinquenta e três trabalhos em dezembro de 1917 e viu um artigo de jornal derrubar a sala em oito dias.
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São Paulo, 1917: a sala da rua Líbero Badaró
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12 de dezembro de 1917. Num sobrado da rua Líbero Badaró, número 111, centro de São Paulo, uma pintora de vinte e oito anos pendura cinquenta e três trabalhos nas paredes de uma sala alugada. São óleos, desenhos e gravuras trazidos de Berlim e de Nova York: rostos esverdeados, cabelo azul, mesa que despenca do plano, cor aplicada em pincelada grossa e visível. A cidade tinha galeria de retrato encomendado e paisagem acadêmica. Pintura como aquela ninguém tinha aberto ao público ali.
Os primeiros dias correm bem. A imprensa registra a novidade, o público paulistano sobe a escada por curiosidade, e algumas obras saem vendidas e pagas no ato.
20 de dezembro de 1917: O Estado de S. Paulo publica um artigo assinado por Monteiro Lobato, escritor e advogado de trinta e cinco anos, com o título Paranoia ou Mistificação?. O texto oferece à pintora duas saídas, e nenhuma delas é elogio: ou ela enxerga o mundo deformado por defeito de visão, ou finge enxergar assim para chamar atenção. A cidade lê o jornal de maior circulação do estado dizendo, em bom português, que a mostra da rua Líbero Badaró é embuste.
Dias seguintes: compradores voltam ao sobrado pedindo o dinheiro de volta, com a tela debaixo do braço. A pintora devolve o valor de cada um e recebe os quadros de novo. Antes do fim de janeiro de 1918, a sala fecha.
13 de fevereiro de 1922: o Teatro Municipal de São Paulo abre a Semana de Arte Moderna com pintura pendurada no saguão, e o nome dela está entre os expositores, agora como referência de quem organizou o evento.
Entre a sala esvaziada e o palco do Municipal existem quatro anos, uma escolha que ela quase não fez e uma biografia que começa numa criança com o braço direito imobilizado. Vale começar por ali.
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I A Queda
Oito dias entre a abertura e o artigo
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2 de dezembro de 1889: Anita Catarina Malfatti nasce em São Paulo, filha de engenheiro italiano e de mãe de origem norte-americana que dava aula de desenho e pintura. Nasce com atrofia congênita no braço e na mão direitos. Passa a infância em tratamento, inclusive uma temporada nos Estados Unidos aos oito anos, e aprende a escrever, desenhar e pintar com a mão esquerda, que vai ser a mão de toda a obra dela.
1910: aos vinte anos, embarca para a Alemanha com bolsa paga por um tio. Estuda em Berlim, frequenta a Academia Real de Belas Artes e passa por ateliês de Fritz Burger, Lovis Corinth e Ernst Bischoff-Culm. Está na cidade quando o expressionismo alemão vira assunto de galeria, e sai de lá com cor forte, contorno marcado e recusa de perspectiva acadêmica já incorporados ao trabalho.
1915: com a Europa em guerra, vai para Nova York e entra na Independent School of Art, com Homer Boss. Ali pinta as telas que vão causar o problema em São Paulo, entre elas A Boba, O Homem Amarelo e A Estudante Russa.
1916: volta para o Brasil. Dá aula particular de desenho, junta dinheiro e aluga a sala da rua Líbero Badaró para mostrar o que trouxe.
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A mostra de 1917 durou pouco mais de um mês e foi a primeira exposição individual de pintura moderna aberta ao público em São Paulo. |
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O artigo de Lobato não foi rodapé perdido. Saiu no jornal de maior circulação do estado, escrito por um autor em ascensão, e definiu o tom com que a cidade passou a tratar a pintora.
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Estas considerações são provocadas pela exposição da sra. Anita Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia. Monteiro Lobato, A Propósito da Exposição Malfatti, O Estado de S. Paulo, 1917 |
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O efeito prático apareceu no caixa. Quem já tinha pago voltou para desfazer a compra, e ela reembolsou todo mundo sem discutir. Encomenda de retrato, que era como pintor vivia em São Paulo naquela década, parou de chegar. A aluna de aula particular foi rareando.
O efeito pessoal durou mais. Ela chegou a considerar abandonar a pintura, ficou meses sem produzir e recolheu o trabalho para casa. A família, que já achava a carreira arriscada, passou a tratar o episódio como prova de que o caminho estava errado. A pintora de vinte e oito anos que tinha estudado em duas capitais e voltado com obra pronta virou, na conversa da cidade, o nome de uma exposição fracassada.
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II O Triunfo
As vinte telas do Teatro Municipal
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Nem todo leitor do jornal concordou. Oswald de Andrade escreveu em defesa da mostra, e um grupo pequeno de escritores e artistas jovens passou a procurar a pintora justamente por causa do escândalo. Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Di Cavalcanti e Victor Brecheret entraram nesse círculo.
Mário de Andrade, então com vinte e quatro anos, foi à sala da rua Líbero Badaró antes do fechamento e comprou uma das telas com dinheiro próprio. Levou O Homem Amarelo para casa e ficou com ele até o fim da vida. O crítico que iria formular o programa do modernismo brasileiro começou a coleção pessoal dele naquela sala esvaziada.
1919: a pintora volta a produzir e a expor em mostras coletivas em São Paulo. Aceita o convite dos escritores que a defenderam e passa a frequentar as reuniões em que o grupo desenha um evento para apresentar arte nova à cidade.
Fevereiro de 1922: a Semana de Arte Moderna ocupa o Teatro Municipal de São Paulo entre os dias 13 e 17, com conferência, música, poesia lida em voz alta e uma exposição montada no saguão. Anita Malfatti está entre os artistas com maior número de trabalhos pendurados, cerca de vinte peças, ao lado de Di Cavalcanti, Brecheret, Zina Aita e John Graz. A plateia vaia, o público comenta por semanas, e o evento entra para a história da cultura brasileira como marco de fundação do modernismo.
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A mesma pintura recusada em 1917 estava, quatro anos depois, no palco oficial da cidade, escolhida pelo grupo que passou a definir o que era arte nova no Brasil. |
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1923: ela recebe o Prêmio Estado de S. Paulo, uma bolsa que financia estudo na Europa, e passa cinco anos em Paris, onde frequenta a Académie Ranson e trabalha com Maurice Denis. Volta em 1928, expõe individualmente de novo em São Paulo e começa a lecionar.
Monteiro Lobato e Anita Malfatti se reencontraram anos depois e mantiveram relação cordial. Ele nunca publicou retratação formal do artigo, mas passou a tratá-la com respeito pessoal, e ela nunca fez do episódio bandeira pública contra ele.
Nas décadas seguintes ela deu aula de desenho, participou de salão nacional, entrou em retrospectiva de museu e virou capítulo obrigatório em qualquer história da pintura brasileira do século vinte. Morreu em novembro de 1964, aos setenta e quatro anos, com a obra reconhecida e catalogada.
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