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A Mão Esquerda de Károly Takács
Um sargento húngaro perde a mão de atirar em 1938, treina escondido com a outra e espera 10 anos por uma Olimpíada.
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Bisley, Inglaterra, Olimpíada de 1948
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21 de janeiro de 1910: nasce em Budapeste, na Hungria, Károly Takács. Ainda jovem, entra no exército húngaro, aprende a atirar e chega ao posto de sargento.
Anos 1930: vira um dos melhores atiradores do país na pistola de tiro rápido, a prova em que o atleta dispara contra cinco alvos em séries de 8, 6 e 4 segundos, a 25 metros de distância. Atira com a mão direita.
Nesse tipo de prova, a pontuação depende de três movimentos da mão: levantar a arma até a linha dos olhos, apertar o gatilho sem desviar o cano e girar o pulso para o alvo seguinte antes que o tempo acabe. Anos de repetição gravam os três na mesma mão, a direita dele.
1936: a equipe húngara de tiro viaja para a Olimpíada de Berlim sem ele. A federação só deixava oficiais competirem nos Jogos, e Takács era sargento. A regra cai logo depois.
1938: aos 28 anos, ele aparece entre os candidatos ao ouro da Olimpíada de Tóquio, marcada para 1940. Treina todos os dias e acumula vitórias nas competições húngaras.
O plano parece simples: manter a forma por 2 anos, entrar na equipe que antes o barrava e disputar a medalha. Para um sargento sem patrimônio, um ouro olímpico também significaria promoção e prestígio dentro do quartel.
Naquele ano, durante um exercício do exército, ele segura uma granada que deveria funcionar como as outras da caixa. A peça tem defeito e explode na mão direita, a mão da pistola.
Para os colegas de estande, a carreira do sargento termina ali. Ninguém no clube imagina que um atirador possa trocar de mão aos 28 anos, numa prova decidida por frações de segundo.
Ele próprio não diz nada a respeito. Por meses, quase ninguém sabe o que ele faz com o tempo livre de convalescente.
A resposta começa num leito de hospital militar, com uma atadura no lugar da mão que segurava a pistola, e numa decisão que ele toma antes de receber alta.
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I A Queda
Um ano sem plateia
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Károly Takács passa as primeiras semanas depois da explosão num hospital do exército, em Budapeste. A mão direita não tem salvação. Ele sai de lá com 28 anos, um posto de sargento e uma única especialidade: acertar o centro do alvo com a mão que perdeu.
Os colegas do estande esperam que ele largue o tiro. Alguns o visitam e falam da pistola como assunto encerrado, com o cuidado de quem consola um viúvo.
Ele faz outra conta. A mão esquerda nunca tinha segurado uma pistola em competição, mas está inteira. Assim que recebe alta, começa a treinar com ela, sozinho, longe do estande do clube, sem contar o plano a ninguém.
O começo é o mais básico. A esquerda não sabe segurar a arma no ângulo certo, não sabe soltar o gatilho sem puxar o cano para o lado, não sabe voltar ao alvo depois do coice (o tranco da arma no disparo). Tudo que a direita fazia sem pensar precisa ser reaprendido, gesto por gesto.
O treino que os relatos descrevem tem duas partes. Na primeira, sem munição: levantar o braço esquerdo esticado, apontar, segurar a mira parada e baixar, centenas de vezes por dia, até o ombro aguentar o peso da pistola sem tremer.
Na segunda, com munição, entra a velocidade. Na série mais curta da prova, o atirador tem 4 segundos para cinco disparos em cinco alvos diferentes. A mão precisa girar de um alvo ao seguinte sem que o cano saia da linha.
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Durante quase um ano, Károly Takács treina escondido com a mão que nunca tinha disparado numa competição. |
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Ele nunca explicou em detalhe por que escondeu o treino, e as fontes não trazem o motivo. O que se sabe é que nem os companheiros de seleção souberam do plano até a primavera seguinte.
A rotina de um atirador amputado também pede ajustes que ninguém ensina. Carregar a pistola, trocar o carregador e limpar a arma eram tarefas de duas mãos. Ele precisa inventar um jeito de fazer tudo com uma só, apoiando a arma no corpo ou numa mesa.
Na primavera de 1939, o campeonato nacional húngaro de pistola reúne os melhores atiradores do país. Takács aparece no estande. Os outros vão cumprimentá-lo, achando que veio assistir e dar apoio aos antigos colegas.
Ele responde que veio competir.
Ninguém ali tinha visto a esquerda dele atirar. A primeira série pública do sargento com a mão nova acontece diante dos mesmos homens que o tinham visitado no hospital. Termina a prova em primeiro lugar, com a mão esquerda.
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II O Triunfo
Dez anos até Londres
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A vitória de 1939 devolve Károly Takács à seleção húngara. No mesmo ano, ele integra a equipe da Hungria que vence o Campeonato Mundial de pistola de tiro rápido, em Lucerna, na Suíça.
A Olimpíada de 1940, transferida de Tóquio para Helsinque, é cancelada pela Segunda Guerra Mundial. A de 1944, prevista para Londres, também. Ele passa dos 30 aos 38 anos sem uma única chance olímpica.
Durante a guerra, segue no exército e segue treinando. A esquerda, que em 1939 ainda era uma aposta, vira a mão dele.
Em 1948, Londres recebe os primeiros Jogos do pós-guerra. A Hungria inscreve Takács na pistola de tiro rápido. Ele tem 38 anos e chega como desconhecido para boa parte dos adversários estrangeiros.
O favorito é o argentino Carlos Enrique Díaz Sáenz Valiente, recordista mundial da prova. Antes da disputa, ao ver o húngaro sem a mão direita, Valiente pergunta o que ele faz ali.
Takács responde: “Estou aqui para aprender.” A troca está registrada por David Wallechinsky e Jaime Loucky em The Complete Book of the Olympics (O livro completo das Olimpíadas), na edição de 2012.
A prova acontece no estande de Bisley, no sul da Inglaterra, com 60 tiros em séries cada vez mais rápidas. Takács soma 580 pontos e bate o recorde mundial. Valiente fica com a prata, 9 pontos atrás, e o sueco Sven Lundqvist leva o bronze.
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Em agosto de 1948, aos 38 anos, Károly Takács ganha o ouro olímpico com a mão esquerda e com o recorde mundial da prova. |
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No pódio, segundo o mesmo livro, Valiente se vira para ele e diz: “Você já aprendeu o bastante.”
Quatro anos depois, em Helsinque, ele volta ao estande olímpico. Tem 42 anos. Faz 579 pontos e ganha outra vez, à frente do compatriota Szilárd Kun. É o primeiro atirador a vencer duas edições seguidas da pistola de tiro rápido.
Entre uma Olimpíada e a outra, a Hungria vira república comunista e reorganiza o esporte sob controle do Estado. Takács atravessa a mudança como militar de carreira, com o mesmo ritual diário de estande que tinha montado em 1938.
Em Melbourne, em 1956, aos 46 anos, termina em oitavo. Depois para de competir e passa a treinar atiradores húngaros.
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