|
|
A Lousa Que Venceu a RCA
Ele imaginou a televisão aos catorze anos arando batatas, e gastou a vida provando a uma corporação que a ideia era dele.
|
Rigby, Idaho: as fileiras que viraram tela
|
| ▼ |
| |
|
Rigby, Idaho, verão de 1921. Um garoto de catorze anos conduz o cavalo que puxa a grade por um campo de batatas. Vai e volta em linhas paralelas, uma encostada na outra, até o terreno inteiro ficar riscado de ponta a ponta.
No fim de uma fileira ele para e olha para trás. O que está no chão é uma superfície inteira coberta por uma linha só, repetida em tiras sucessivas, sem falha entre uma passada e a seguinte.
E a cabeça dele salta do campo para outra coisa. Uma imagem também pode ser varrida assim, faixa por faixa, tão rápido que o olho junta tudo de volta num quadro único.
O garoto se chama Philo Taylor Farnsworth. Mora numa fazenda que acabou de receber gerador elétrico, aprendeu sozinho a consertar o motor do galpão e leu, num sótão cheio de revistas de ciência deixadas pelo morador anterior, que meio mundo tentava transmitir imagem a distância.
As tentativas todas eram mecânicas: disco perfurado girando na frente de uma lâmpada, motor, engrenagem, peça batendo em peça. Quanto mais nitidez se queria, mais rápido o disco precisava girar, até a física dizer não.
A aposta do garoto do campo de batatas era o contrário. Nada que gire. Um feixe de elétrons varrendo a imagem dentro de um tubo a vácuo, linha por linha, no ritmo do arado, sem nenhuma peça em movimento.
No inverno seguinte, na sala de química do colegial de Rigby, ele desenha o esquema na lousa para o professor Justin Tolman e explica o funcionamento até o sinal tocar. Tolman não entende tudo de primeira, pede que o aluno refaça o desenho mais devagar e guarda o que viu.
Cinco anos depois, num laboratório alugado em San Francisco, o aparelho funcionou. A parte difícil da vida de Farnsworth começaria só depois disso, e não teria nada a ver com física.
Continue lendo ↓
|
| |
|
| |
|
I A Queda
Três dias com as portas abertas
|
| |
| |
|
202 Green Street, San Francisco, abril de 1930. Um engenheiro de terno impecável e sotaque russo sobe a escada do laboratório com uma carta de apresentação na mão. Chama-se Vladimir Zworykin e diz que veio conhecer o trabalho do rapaz.
Farnsworth tinha vinte e três anos e uma dianteira de dois anos e meio. Em 7 de setembro de 1927 ele transmitira a primeira imagem eletrônica da história, uma linha reta riscada numa placa de vidro, com o tubo que batizou de dissecador de imagem.
O sócio que bancava a conta telegrafou naquela noite uma linha só ao outro investidor.
|
| |
A maldita coisa funciona. ~ George Everson, telegrama a Leslie Gorrell, 7 de setembro de 1927 |
|
| |
|
Em agosto de 1930 saíram as duas patentes que cobriam o coração do sistema. O relógio de dezessete anos de exclusividade começou a correr naquele mês.
Zworykin ficou três dias no laboratório. Assistiu às demonstrações, examinou o dissecador de perto, segurou o tubo na mão e disse ao anfitrião que era um belo instrumento, que gostaria de ter inventado ele mesmo.
Farnsworth mostrou tudo. Mandou soprar um tubo novo na frente do visitante, explicou o processo do começo ao fim e serviu o jantar. Achava que recebia um colega de ofício.
O visitante trabalhava na Westinghouse e estava de mudança para a RCA. Chegou lá com o que tinha visto. A empresa reivindicava a prioridade por um pedido de patente de 1923, quando Farnsworth ainda estava no colegial.
Em 1931 David Sarnoff, o homem que mandava na RCA, subiu a mesma escada. Ofereceu cem mil dólares pelo laboratório, pelas patentes e pelo inventor, tudo junto, num pacote só.
Farnsworth recusou. Não queria vender a patente, queria licenciar e receber por aparelho fabricado. A resposta que ouviu foi a política da casa, e a política da casa não previa pagar ninguém.
|
A disputa que começou ali não era sobre quem tinha razão. Era sobre quem aguentava mais anos de processo com a patente correndo. |
|
| |
|
Abriu-se a interferência número 64.027 no Escritório de Patentes. De um lado, arquivo e advogado assalariado. Do outro, um inventor de vinte e quatro anos pagando advogado com dinheiro de investidor impaciente.
Enquanto o caso se arrastava, ele foi trabalhar na Philco, na Filadélfia, com o laboratório dentro da fábrica. Em 1932 o filho de dezoito meses não resistiu a uma infecção de garganta, e a empresa não liberou o pai para o enterro em Utah.
O corpo cobrou o resto. Úlcera, insônia, uísque para dormir e um esgotamento nervoso que os médicos trataram mandando ele parar de trabalhar. Ele voltava para a bancada assim que conseguia ficar de pé.
Em 1934 a interferência foi para decisão. A prioridade seria resolvida por documento e testemunha, e a RCA tinha um pedido protocolado onze anos antes. Farnsworth tinha uma ideia que teve aos catorze anos, num campo de batatas, sem ninguém por perto.
|
| |
|
| |
|
II O Triunfo
O que o professor de química lembrou
|
| |
| |
|
O advogado de patentes de Farnsworth, Donald Lippincott, foi atrás de uma testemunha que não estava em lista nenhuma: o professor de química que tinha dado aula ao inventor no colegial de Rigby, doze anos antes.
Justin Tolman já não lecionava. Lembrava do aluno que ficava depois da aula com pergunta fora do programa, e do dia em que o rapaz de quinze anos tomou a lousa para explicar um aparelho que não existia.
No depoimento, Tolman contou a cena com data e detalhe. Depois pediu papel e lápis e refez o desenho de memória, do jeito que tinha visto no quadro em 1922.
O esquema que saiu do lápis era um tubo a vácuo com placa fotossensível numa ponta, alvo na outra e um feixe varrendo a imagem em linhas. Era o dissecador da patente em disputa, desenhado oito anos antes dela.
|
A maior empresa de eletrônica do país perdeu a prioridade da invenção para um rascunho a giz de um aluno de quinze anos, guardado por doze anos na memória de um professor de escola pública. |
|
| |
|
Em 1934 o examinador decidiu a favor de Farnsworth. A RCA recorreu e perdeu de novo em 1936. A prioridade ficou com o nome do rapaz de Rigby.
Ganhar a decisão não abriu o cofre. A empresa continuou fabricando, continuou anunciando e continuou sem pagar. Em 30 de abril de 1939, na Feira Mundial de Nova York, Sarnoff inaugurou a televisão americana diante das câmeras. O nome de Farnsworth não foi dito.
Em setembro daquele ano, esgotado o litígio, a RCA assinou o acordo: um milhão de dólares mais royalties por aparelho. Foi a primeira vez que a empresa pagou royalty de patente a alguém, em vez de cobrar.
O dinheiro chegou no pior momento. Em 1941 a televisão comercial foi autorizada no país e, meses depois, a fabricação de aparelho civil parou: a guerra levou válvula, cobre e engenheiro.
Quando a produção voltou, o mercado explodiu: em 1947 as fábricas americanas despachavam televisor às centenas de milhares, e foi exatamente naquele ano que as patentes de 1930 venceram.
Os dezessete anos de exclusividade tinham sido gastos em tribunal e em guerra. Dali em diante qualquer fabricante usava a varredura eletrônica de graça, e usou.
O laboratório de Maine pegou fogo naquele mesmo ano. Farnsworth entrou em tratamento para depressão profunda, a empresa que levava o sobrenome dele foi vendida à ITT em 1949, e o inventor virou funcionário assalariado de quem tinha comprado.
Em 3 de julho de 1957 entrou num programa de auditório como Doutor X, e o painel não descobriu o segredo dele. Levou oitenta dólares e uma caixa de cigarros. Perguntado se a invenção podia doer, quando usada do jeito errado, respondeu que sim, e que às vezes doía muito.
Na noite de 20 de julho de 1969, numa casa em Salt Lake City, ele viu a imagem granulada do módulo lunar chegar da superfície da Lua por sinal de televisão. Tinha sessenta e dois anos e a patente vencida havia vinte e dois.
|
| |
Phil se virou para mim e disse: Pem, agora tudo valeu a pena. ~ Elma Pem Farnsworth, Distant Vision, 1989 |
|
| |
|
| |