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A Licença de Três Meses em Nova Friburgo
Aos trinta e nove anos, sem conseguir ler o que escrevia, ele pediu três meses de licença que o Rio inteiro leu como despedida.
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Nova Friburgo, 1878: a serra da licença
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Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Rio de Janeiro, 1878. Um funcionário de trinta e nove anos protocola um pedido de licença de três meses por motivo de saúde, e a repartição concede.
O nome no papel era Joaquim Maria Machado de Assis. Filho de um pintor de paredes neto de escravos alforriados e de uma lavadeira açoriana, criado no Morro do Livramento, gago, epilético e sem diploma nenhum, tinha entrado no serviço público em 1873 e escrevia nas horas que sobravam do expediente.
A doença daquele ano chegou por três frentes ao mesmo tempo. As crises nervosas ficaram mais frequentes, o intestino não dava trégua, e a vista piorou até o ponto em que ele não conseguia mais ler no papel a própria letra.
Carolina, a mulher, portuguesa, cinco anos mais velha, passou a ler em voz alta o que ele escrevia. Um escritor que depende de outra pessoa para saber o que acabou de pôr no papel está a um passo de parar.
A medicina brasileira de 1878 tinha uma receita padrão para casos assim: mudança de ares. O destino escolhido foi Nova Friburgo, na serra fluminense, antiga colônia suíça de clima frio e seco, a uns cento e quarenta quilômetros da corte.
A viagem levava um dia inteiro. Barca pela baía de Guanabara, trem serra acima e, no fim, o ar fino de mais de oitocentos metros de altitude.
Na roda literária da rua do Ouvidor, a licença foi lida do jeito mais óbvio. José de Alencar tinha partido no fim de 1877, o romance brasileiro estava sem dono, e um escritor doente que some da cidade por três meses não estava tirando férias.
Vale começar pelo escritor que subiu a serra naquele fim de ano: o que ele já tinha publicado aos trinta e nove anos, e o teto que aquela obra toda tinha alcançado.
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I A Queda
Quatro romances e uma vista em ruína
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Março de 1878, folhetim do jornal O Cruzeiro. Terminava ali a publicação em capítulos de Iaiá Garcia, o quarto romance dele, e o quarto seguido no mesmo registro.
Antes tinham saído Ressurreição, em 1872, A Mão e a Luva, em 1874, e Helena, em 1876. Quatro livros corretos, de fatura limpa, de enredo amoroso e moral discreta, exatamente o que o leitor brasileiro de romance esperava e comprava.
A crítica gostava. Tratava o autor com respeito, elogiava a elegância da frase e o cuidado da construção, e parava por aí. Ninguém escreveu que aqueles romances mudariam alguma coisa, porque não mudavam.
Com a partida de José de Alencar, em dezembro de 1877, sobrou um lugar vago no romance nacional, e ele era o herdeiro natural. Herdeiro de uma forma na qual já não acreditava muito.
Em abril de 1878 publicou em O Cruzeiro um ensaio duro sobre O Primo Basílio, de Eça de Queirós, recusando o realismo que chegava da Europa. A geração nova leu o texto como o que ele parecia ser: um senhor de quarenta anos defendendo o gosto antigo.
Foi nesse ponto exato que o corpo entrou na história.
A epilepsia o acompanhava desde a juventude, e as crises ficaram mais próximas umas das outras. A gagueira ele carregava desde menino. A vista, que sempre fora ruim, piorou de vez naquele ano.
Um escritor que não enxerga a própria letra perde muito mais do que a leitura. Perde a revisão, a releitura e o vaivém entre o que pensou e o que saiu escrito, que é onde a prosa deixa de ser rascunho.
Aos trinta e nove anos ele passou meses seguidos convivendo com a ideia de que aquele era o prazo final, e a ideia nunca mais saiu da obra dele. O livro que nasceria daquela travessia abre com uma dedicatória antes da primeira linha.
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Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas. ~ Machado de Assis, dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881 |
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Nada estava resolvido quando ele fechou a mala no fim de 1878. Não havia tratamento para epilepsia, não havia cirurgia para a vista dele e não havia diagnóstico preciso para o resto.
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A medicina de 1878 não tinha remédio para nada do que ele tinha. Tinha um conselho, e o conselho era o tratamento inteiro: subir a serra e ficar três meses sem trabalhar. |
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Subiu com Carolina. Passou as doze semanas fora da repartição, fora do prazo semanal do folhetim e fora do julgamento diário da roda literária do Rio.
Não anunciou projeto nenhum, não deixou promessa de livro e não voltou curado. A vista continuou ruim pelo resto da vida, e as crises voltariam com mais força na velhice.
Desceu da serra em 1879 com uma coisa só que não tinha na subida, e ela não cabia na mala.
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II O Triunfo
O defunto autor da Revista Brasileira
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Dezembro de 1879, Rio de Janeiro. A Revista Brasileira, relançada naquele ano, publica um ensaio longo dele sobre os poetas jovens do país, com o título A Nova Geração.
Três meses depois, no número de 15 de março de 1880, a mesma revista começa a publicar em fascículos um romance de nome esquisito: Memórias Póstumas de Brás Cubas.
O primeiro capítulo avisa de saída quem está falando. O narrador está morto e conta a própria vida do outro lado, sem nada a perder, sem ninguém a poupar e sem obrigação de terminar bem. Não é um autor defunto, escreve ele, é um defunto autor.
O prólogo entrega o método em uma frase só.
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Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. ~ Machado de Assis, prólogo ao leitor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881 |
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O livro tem cento e sessenta capítulos em pouco mais de duzentas páginas, e vários deles têm uma linha só. O capítulo sobre o velho diálogo de Adão e Eva é feito quase inteiro de reticências, e o capítulo sobre o ministério que o narrador não chegou a ocupar é uma sequência de pontos.
O narrador para a história no meio para xingar quem lê, para pedir desculpa pelo capítulo anterior e para reclamar do tamanho do próprio livro. A sabotagem tem função: lembrar a cada página que existe ali alguém contando, e que a versão contada é interessada.
Nada daquilo existia no romance brasileiro de 1880, e quase não existia em lugar nenhum. O Ulisses de Joyce sairia quarenta e dois anos depois.
A edição em livro veio em 1881, pela Tipografia Nacional. A recepção foi de espanto educado misturado com desconfiança.
O crítico Capistrano de Abreu resumiu o desconforto numa pergunta publicada em jornal: as Memórias Póstumas de Brás Cubas são um romance? Machado guardou a pergunta e a repetiu anos depois, num prólogo, sem se dar ao trabalho de responder direito.
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O que desceu da serra não foi um manuscrito pronto. Foi a decisão de escrever como quem já não deve satisfação a ninguém. |
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Do outro lado daquela linha veio o resto. Papéis Avulsos em 1882, com O Alienista dentro. Quincas Borba em 1891. Dom Casmurro em 1899. Esaú e Jacó em 1904. Memorial de Aires em 1908, no último ano de vida.
Em 1897 a Academia Brasileira de Letras foi instalada com ele na presidência, cargo que ocupou até o fim. O menino do Morro do Livramento presidia a instituição das letras do país.
Nunca largou a repartição. Continuou funcionário do Ministério até os últimos anos, escrevendo nas horas fora do expediente, com a papelada do serviço público esperando na mesa no dia seguinte.
A crítica brasileira acabou fazendo com a obra dele o que ele fez com a própria vida em 1878: partiu em duas. Antes de 1880 e depois de 1880.
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