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A Ideia Que Ele Anotou às Duas da Manhã
Frederick Banting faturou quatro dólares no primeiro mês de consultório em London, Ontário, e rabiscou de madrugada a ideia que virou a insulina.
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London, Ontário, 1920: a sala de espera vazia
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Rua Adelaide, 442, London, Ontário, verão de 1920. Uma casa de tijolo vermelho alugada com dinheiro emprestado, uma placa nova na porta, uma sala de espera com cadeiras alinhadas e ninguém sentado nelas.
O dono da placa é um cirurgião de vinte e oito anos, recém-chegado do front europeu com estilhaço no braço direito e uma condecoração no bolso. Ele arrumou o instrumental na bandeja, esterilizou o que precisava ser esterilizado e sentou para esperar a cidade descobrir que existia mais um médico ali.
No primeiro mês de consultório aberto, ele atendeu um paciente e faturou quatro dólares. O aluguel da casa custava muito mais que isso, e o dinheiro do empréstimo tinha prazo.
Nos meses seguintes o movimento melhorou pouco. Ele passou a contar as moedas antes de comprar carvão, adiou a data do casamento porque não tinha como sustentar uma família e chegou a calcular quanto conseguiria vendendo o próprio instrumental cirúrgico, a única coisa de valor real dentro daquela casa.
Para tapar o buraco, aceitou um bico numa faculdade de medicina da região: dar aula prática de fisiologia para calouros, por hora, alguns dólares de cada vez.
No fim de outubro daquele ano ele recebeu um tema de aula que não dominava e teve que preparar tudo às pressas, na véspera, lendo artigo atrás de artigo sobre um órgão que os cirurgiões da época evitavam por ser difícil de operar e impossível de entender.
Foi lendo esse material, sozinho, depois da meia-noite, que ele levantou da cama, pegou o caderno e escreveu vinte e cinco palavras que caberiam num guardanapo.
A anotação não era um tratamento. Era um procedimento em cachorro, descrito por alguém que nunca tinha feito pesquisa na vida, com um erro de ortografia na palavra mais importante da frase.
Vinte e seis meses depois, aquele rascunho tinha tirado a diabetes tipo 1 da lista de sentenças sem recurso.
O caminho entre a sala de espera vazia e a primeira injeção começa com um homem convencido de que tinha escolhido a profissão errada.
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I A Queda
O cirurgião que ninguém procurou
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Frederick Banting nasceu em 1891 numa fazenda de Alliston, Ontário, filho caçula de agricultores metodistas. Entrou na faculdade de teologia por pressão da família, foi mal, trocou para medicina e se formou em turma acelerada em 1916, porque a guerra na Europa consumia médicos mais rápido do que a universidade conseguia produzir.
Serviu como cirurgião de campanha na França. Em setembro de 1918, ferido por estilhaço no antebraço direito, continuou operando feridos por horas em vez de se retirar para tratamento, e recebeu a Cruz Militar por causa disso.
Voltou para o Canadá em 1919 com uma mão que doía, uma noiva esperando e nenhuma clientela. Fez residência de cirurgia infantil em Toronto, não conseguiu vaga fixa e decidiu abrir consultório próprio numa cidade média, onde a concorrência parecia menor.
A conta do primeiro ano em London desmontou o plano:
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| • Pacientes atendidos no primeiro mês: 1 | | • Receita do primeiro mês: 4 dólares | | • Aluguel e reforma da casa: financiados por empréstimo | | • Renda extra como instrutor de fisiologia: 2 dólares por hora de aula |
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Ele tinha uma condecoração de guerra, um diploma de cirurgião e uma sala de espera onde ninguém entrava. |
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O bico na faculdade era humilhante do ponto de vista de carreira e essencial do ponto de vista de caixa. Banting preparava as aulas na véspera, decorava o que não sabia e repetia para os calouros o que tinha lido na noite anterior.
Em 30 de outubro de 1920, o tema que caiu para ele foi o metabolismo dos carboidratos e o papel do pâncreas. Assunto ruim: naquele momento sabia-se que retirar o pâncreas de um cão produzia diabetes fatal, e sabia-se que dentro do órgão existiam ilhas de células diferentes do resto do tecido.
Ninguém tinha conseguido extrair a substância dessas ilhas. Todas as tentativas trituravam o pâncreas inteiro, e as enzimas digestivas do próprio órgão destruíam o material antes que alguém pudesse testá-lo.
Na noite anterior à aula, Banting leu um artigo recém-publicado sobre um caso de pedra no ducto pancreático. O ducto bloqueado tinha feito o tecido digestivo definhar, e as ilhas de células continuavam intactas no meio da ruína.
Ele foi dormir com a imagem na cabeça e não dormiu. Às duas da manhã de 31 de outubro, levantou, acendeu a luz e escreveu no caderno.
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Ligar os ductos pancreáticos de cães. Manter os cães vivos até os ácinos degenerarem, deixando as ilhotas. Tentar isolar a secreção interna destas para aliviar a glicosúria. ~ Frederick Banting, caderno de anotações, London, Ontário, 31 de outubro de 1920 |
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Era um cirurgião falido propondo destruir a parte do pâncreas que atrapalhava, para colher o que sobrasse. Ele não tinha laboratório, não tinha cães, não tinha químico, não tinha verba e nunca tinha publicado uma linha de pesquisa.
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II O Triunfo
Sessenta dias de cão vivo em Toronto
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Banting levou a anotação a John Macleod, professor de fisiologia em Toronto e uma das maiores autoridades do mundo em metabolismo de açúcar. Macleod ouviu a ideia de um desconhecido, achou a chance de sucesso baixa e disse não da primeira vez.
Na terceira visita, Macleod cedeu o mínimo que custava pouco: uma sala de laboratório vazia durante as férias de verão, dez cães e um assistente estudante. O assistente foi Charles Best, escolhido no cara ou coroa com um colega.
Em maio de 1921, Banting fechou o consultório de London, vendeu o que dava para vender e foi para Toronto sem salário combinado. A operação começou em 17 de maio, com dois homens, um porão quente e cães que morriam de infecção antes de dar resultado.
Os primeiros meses foram um desastre técnico. Ligaduras mal feitas, animais perdidos por sepse, extratos impuros que baixavam o açúcar e matavam o cão de febre logo depois.
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Nos primeiros oito cães, a técnica falhou. O que estava sendo testado ali não era só a hipótese, era a mão de um cirurgião que operava com um braço lesionado. |
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Em 30 de julho de 1921, o extrato retirado de um pâncreas atrofiado foi injetado numa cadela diabética. A glicemia caiu, o animal levantou, andou e comeu.
A cadela mais famosa da série, chamada Marjorie, foi mantida viva por setenta dias apenas com injeções diárias do extrato. Setenta dias em um animal que, sem pâncreas, deveria ter morrido em duas semanas.
Faltava a parte que Banting não sabia fazer. O extrato bruto era tóxico para humanos, e a purificação exigia um bioquímico de verdade. Macleod chamou James Collip, que em dezembro de 1921 conseguiu uma preparação limpa o suficiente para uso clínico.
Em 11 de janeiro de 1922, no Hospital Geral de Toronto, um menino de quatorze anos chamado Leonard Thompson recebeu a primeira injeção. Pesava vinte e nove quilos, estava em coma iminente e vivia da única terapia existente na época, uma dieta de fome que apenas adiava o fim.
A primeira dose, ainda impura, deu abscesso e quase nenhum efeito. Doze dias depois, com o material refinado por Collip, a glicemia do menino despencou, a cetose sumiu e ele começou a ganhar peso.
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A insulina não é uma cura para a diabetes; é um tratamento. ~ Frederick Banting, conferência do Prêmio Nobel, Estocolmo, 1925 |
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A produção em escala saiu em 1923, e o Prêmio Nobel de Medicina veio no mesmo ano, dividido entre Banting e Macleod. Irritado por Best ter ficado de fora, Banting anunciou na hora que dividiria a própria metade do prêmio com o assistente, e Macleod fez o mesmo com Collip.
A patente foi vendida à Universidade de Toronto por um dólar simbólico, para que nenhuma empresa pudesse deter o monopólio do produto.
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