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A Fita Demo Que Zucchero Levou a Pavarotti
Advogado formado em Pisa, cantava por gorjeta em piano bares da Toscana quando gravou em 1992 a demo de Miserere para outro cantor.
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Toscana, 1992: o piano bar antes da fita
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22 de setembro de 1958: nasce em Lajatico, aldeia toscana de menos de mil e quinhentos habitantes, na casa de uma família que vive de vinha e de maquinário agrícola.
1963: os médicos diagnosticam glaucoma congênito no menino de cinco anos. A partir dali, a infância inteira passa por cirurgia, colírio e prognóstico ruim renovado a cada consulta.
1970: aos doze anos, leva uma pancada na cabeça durante um jogo de futebol com os colegas. A hemorragia cerebral que se segue apaga o resto da visão que ainda restava. Ele acorda cego e não volta a enxergar.
1980 a 1986: cursa direito na Universidade de Pisa. Estuda com material em braille e gravações, presta os exames em prova oral e sai da faculdade com diploma de advogado na mão.
1987 a 1991: divide a semana entre a advocacia e os teclados. À noite, senta ao piano de bares da Toscana e canta reportório italiano e americano por cachê pequeno e pelas moedas que caem no copo em cima do instrumento.
1992: um produtor procura uma voz masculina para gravar a fita de demonstração de uma canção nova, Miserere, escrita para ser cantada por outra pessoa. O homem chamado para a gravação tem trinta e quatro anos e nenhum disco lançado.
1993: a fita chega às mãos de Luciano Pavarotti, o tenor para quem a canção tinha sido escrita. Ele ouve, elogia e diz em público que a versão do desconhecido já estava boa demais para ser trocada.
1994: o mesmo homem vence a categoria de novos intérpretes do Festival de Sanremo com a canção Il mare calmo della sera, e a Itália descobre o nome de um advogado que passou seis anos tocando em bar.
A distância entre a hemorragia de 1970 e o palco de Sanremo em 1994 costuma ser resumida como talento que a vida não conseguiu esconder. A cronologia mostra outra coisa: vinte e quatro anos de aula de canto paga com o dinheiro do próprio bolso, sem plateia e sem contrato, até que alguém precisasse de uma voz de aluguel para uma fita técnica.
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I A Queda
A pancada no jogo de 1970
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A cegueira não chegou de uma vez, e essa é a parte que a versão curta da história costuma cortar. O glaucoma congênito diagnosticado aos cinco anos já tinha comido boa parte da visão do menino antes do acidente. A pancada de 1970 apenas encerrou uma conta que vinha sendo cobrada em parcelas desde o berço.
O jogo era de futebol entre garotos, num campo de aldeia, sem médico por perto e sem qualquer ideia de que aquele choque valia mais do que os outros. A hemorragia cerebral veio depois. Nenhum procedimento reverteu o quadro, e o menino de doze anos passou a viver com escuridão completa e permanente.
Lajatico tinha, na época, uma escola só e nenhuma estrutura para aluno cego. A solução da família foi mandá-lo interno para um colégio especializado em Reggio Emilia, a mais de trezentos quilômetros de casa, onde ele aprendeu braille e começou a estudar piano, flauta, saxofone e trombone.
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O internato que resolveu o problema escolar cobrou o preço da distância: aos treze anos, ele passava o ano letivo inteiro fora da aldeia, longe da vinha da família e do quarto onde tinha aprendido a ouvir disco de ópera. |
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A escolha profissional seguinte foi de segurança, não de vocação. Ele entrou para o curso de direito da Universidade de Pisa porque cantar não pagava conta e advogar pagava. Estudou com textos gravados em fita, prestou exame oral e se formou. Depois disso, trabalhou como advogado de ofício, atendendo processo que ninguém queria.
Em paralelo, pagava aula de canto com o próprio salário. Procurou o tenor Franco Corelli, então aposentado dos palcos, e virou aluno particular dele em Turim. Para custear as aulas, começou a tocar à noite.
O piano bar não era passo de carreira, era caixa. Ele tocava reportório de pedido, canção italiana popular, standard americano, aria conhecida quando alguém pedia, e recebia por noite trabalhada mais o que caísse no copo de gorjeta. Nesse regime ficou de 1987 a 1991, com o diploma de direito guardado e nenhuma gravadora sabendo que ele existia.
A conta daquele período é fácil de somar e desconfortável de olhar. Aos trinta e três anos, o homem tinha diploma de advogado, cegueira total havia vinte e um anos, professor de canto de primeira linha, casamento recente e zero disco gravado. O talento estava construído e sem porta de entrada nenhuma.
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II O Triunfo
A fita gravada para outro cantor
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1992: o cantor Zucchero Fornaciari tinha composto Miserere pensando na voz de Luciano Pavarotti, e precisava de uma gravação de referência para apresentar a canção ao tenor. A produção pediu uma voz masculina capaz de sustentar a linha lírica, e o nome do professor de canto circulou até chegar ao advogado que tocava em bar.
A fita foi gravada como material técnico, do tipo que ninguém pretende lançar. O papel do intérprete ali era funcional: mostrar a melodia, o alcance e o desenho da frase, e depois sair de cena para o tenor de verdade entrar.
1993: Pavarotti ouve a fita e reage de um jeito que muda o destino da gravação. Sugere que a voz da demonstração participe da gravação oficial, e comenta publicamente que a interpretação já estava resolvida. A parceria de Zucchero com Pavarotti sai em disco, e o intérprete da fita ganha o palco em turnê europeia com o próprio Zucchero.
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Não existe nada mais bonito do que cantar. Quando você canta, dá voz à parte de si mesma que não sabe mentir. Andrea Bocelli, A Música do Silêncio, 1999 |
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1994: ele se inscreve no Festival de Sanremo, disputa a categoria de novos intérpretes com Il mare calmo della sera e vence com a maior votação já registrada naquela categoria até então. O primeiro álbum sai no mesmo ano e vende centenas de milhares de cópias na Itália.
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O homem que em 1991 aceitava pedido de plateia por gorjeta estava, três anos depois, no palco principal do maior festival de música da Itália, cantando material próprio. |
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1995: leva a Sanremo a canção Con te partirò, que termina em quarto lugar na classificação e vira o item mais vendido da temporada na Bélgica e na França. A carreira sai da Itália sem que ele tenha se mudado de país.
1996: a soprano inglesa Sarah Brightman propõe uma versão em dueto, rebatizada Time to Say Goodbye, para a despedida do boxeador alemão Henry Maske. A canção toca no ringue diante da audiência de televisão alemã e vira o single mais vendido da história da Alemanha, segundo a certificação da BVMI, a associação da indústria fonográfica alemã.
1997 a 1999: o álbum Romanza atravessa o mercado europeu e chega aos Estados Unidos. Em 1999, ele concorre ao Grammy de artista revelação, aos quarenta anos de idade, categoria normalmente ocupada por gente de vinte.
2010: recebe estrela na Calçada da Fama de Hollywood. Em 2017, estreia no Metropolitan Opera de Nova York. O Guinness World Records registrou o álbum Sacred Arias como o disco de música clássica mais vendido por um artista solo, marca que ele acumulou enquanto seguia gravando reportório popular.
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