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A Doceira de Goiás que Estreou aos 75 Anos
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas vendeu doce por três décadas antes de a José Olympio publicar o primeiro livro dela, em 1965.
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Cidade de Goiás: a casa à beira do Rio Vermelho
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20 de agosto de 1889: Ana Lins dos Guimarães Peixoto nasce na Casa Velha da Ponte, sobrado de pedra encostado no Rio Vermelho, na antiga Vila Boa de Goiás.
1900: aos onze anos, encerra os estudos no terceiro ano primário, na aula da mestra Silvina. Foi toda a instrução formal que ela teve na vida.
1910: publica os primeiros versos em jornal da província assinando com o nome inventado que carregaria até o fim: Cora Coralina.
1925: aos trinta e cinco, casa com Cantídio Tolentino Bretas, advogado, e deixa Goiás para morar no interior de São Paulo.
1934: fica viúva em Jaboticabal com quatro filhos para criar e nenhuma renda própria.
1935 a 1955: sustenta a casa vendendo livros de porta em porta, plantando no quintal e fazendo doce de fruta para vender às vizinhas do interior paulista.
1956: aos sessenta e seis anos, volta para a Cidade de Goiás, reabre a casa da ponte e monta o tacho de cobre que vira o ganha-pão dela.
1965: aos setenta e cinco anos, a editora José Olympio, do Rio de Janeiro, publica Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, o primeiro livro dela.
1980: Carlos Drummond de Andrade dedica a ela uma carta aberta no Jornal do Brasil, e o país inteiro descobre que existe uma poeta de noventa e um anos vendendo doce em Goiás.
10 de abril de 1985: aos noventa e cinco anos, com quatro livros publicados e o Troféu Juca Pato de intelectual do ano na estante, encerra a carreira que começou depois dos setenta.
Existe uma versão romântica desta história, a de que uma velhinha simpática escreveu versos bonitos na cozinha e alguém importante teve a bondade de notar. Os manuscritos guardados na casa de Goiás contam outra coisa: ela escrevia desde os catorze anos, guardou o que escreveu por seis décadas em cadernos de escola e em papel de embrulho de açúcar, e passou a vida recusando a ideia de que gente sem diploma não tem o que dizer. A seção a seguir começa pela escola que terminou aos onze anos e pelo que ela fez com essas três séries pelos setenta anos seguintes.
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I A Queda
Três anos de escola e um tacho de cobre
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Ana Lins dos Guimarães Peixoto nasceu em agosto de 1889, três meses antes da Proclamação da República, filha de um desembargador que morreu quando ela ainda era bebê. A casa da família ficava à beira do Rio Vermelho, num sobrado colonial que já era velho naquele tempo e que a cidade chamava de Casa Velha da Ponte.
A escolaridade dela terminou no terceiro ano primário, na aula particular de dona Silvina, professora que ensinava meninas na própria sala de casa. Aos onze anos ela saiu da escola sabendo ler, escrever e fazer conta, e nunca mais voltou a uma sala de aula como aluna.
O que veio depois foi o destino padrão das moças goianas do começo do século: bordado, cozinha, igreja e espera. Ela escrevia escondido, mandava poema para jornal de província e assinava com nome falso, porque família de bem não gostava de ver filha solteira publicando verso.
Aos trinta e cinco anos, idade em que a cidade já a considerava solteirona definitiva, casou com Cantídio Tolentino Bretas, advogado paulista que passou por Goiás a trabalho. O casamento tirou ela de Goiás e a levou para uma sequência de cidades do interior de São Paulo, entre elas Jaboticabal, onde o marido virou juiz.
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O casamento custou a ela a escrita. Foram vinte e dois anos sem publicar uma linha, porque o marido considerava impróprio que a mulher de um magistrado assinasse poema em jornal, e ela obedeceu à regra da casa até ficar viúva. |
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Em 1934 o marido morreu e deixou quatro filhos, uma casa alugada e nenhuma pensão que desse conta do mês. Ela tinha quarenta e cinco anos, três anos de escola primária e nenhuma profissão registrada em carteira.
O que ela fez nos vinte anos seguintes cabe numa lista de ofícios sem prestígio: vendeu livro de porta em porta pelo interior paulista, plantou no quintal para não comprar verdura, trabalhou como cozinheira e fez doce de fruta em tacho para vender à vizinhança. Nesse período criou os quatro filhos e não publicou nada.
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Não te deixes destruir, ajuntando novas pedras e construindo novos poemas. Recria tua vida, sempre, sempre. Cora Coralina, Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha, 1983 |
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Em 1956, com sessenta e seis anos e os filhos já criados, ela voltou sozinha para a Cidade de Goiás e reabriu a Casa Velha da Ponte, que estava fechada e caindo aos pedaços. Montou o tacho na cozinha e virou doceira profissional: doce de caju, de figo, de laranja da terra, vendido no balcão da própria casa para quem batesse à porta.
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II O Triunfo
A carta que Drummond publicou no jornal
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A cozinha da casa da ponte funcionava como oficina dupla. De manhã ela mexia o tacho, de tarde escrevia na mesma mesa em que esfriava a calda, em caderno escolar barato e em pedaço de papel de embrulho que sobrava do açúcar. Quem comprava doce muitas vezes saía de lá com um poema copiado à mão de brinde.
Aos setenta e poucos anos ela juntou o que tinha escrito e mandou os originais para editoras do Rio de Janeiro. As respostas demoraram e vieram negativas: poeta estreante, idade avançada, tema regional demais para o gosto do mercado da época.
A virada veio pela José Olympio, casa editorial que publicava Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. Em 1965 saiu Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, com poemas sobre lavadeira, prostituta, menina pobre, beco de cidade velha e mulher que envelhece sozinha. A autora tinha setenta e cinco anos e nenhum livro anterior.
A recepção inicial ficou restrita a Goiás e a um punhado de críticos. O livro vendeu devagar, e ela continuou vendendo doce, porque direito autoral de poeta estreante não paga conta de luz. Em 1976, aos oitenta e sete anos, publicou o segundo, Meu Livro de Cordel, também pela José Olympio.
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O que mudou a escala aconteceu em 1980, quando Carlos Drummond de Andrade usou a coluna dele no Jornal do Brasil para escrever uma carta aberta a ela, dizendo que a poesia dela o comovia como poucas e perguntando, em tom de espanto, quem afinal era aquela mulher. |
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Drummond era o poeta mais lido do país e escrevia num jornal de circulação nacional. A carta correu redação, universidade e livraria. Repórteres de televisão subiram a ladeira da Cidade de Goiás para filmar uma senhora de noventa e um anos mexendo tacho e recitando verso, e as tiragens dos livros dela mudaram de patamar.
Os últimos cinco anos de vida dela foram os de maior reconhecimento público. Em 1983 publicou Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha, e a União Brasileira de Escritores entregou a ela o Troféu Juca Pato, de intelectual do ano, prêmio que até então só tinha ido para homens com carreira acadêmica ou jornalística.
A Universidade Federal de Goiás concedeu a ela o título de doutora honoris causa (doutorado honorário, entregue sem curso nem tese, pelo conjunto da obra). A mulher que parou de estudar no terceiro ano primário recebeu a maior honraria acadêmica do estado aos noventa e quatro anos.
Ela morava na mesma casa, continuava atendendo no balcão e respondia carta de leitor à mão, uma por uma, até a última semana de vida. Morreu em Goiânia, em 10 de abril de 1985, aos noventa e cinco anos.
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