|
Yuri Knorozov não mudou de ideia. Em 1955, defendeu a tese na Academia de Ciências, em Moscou, e a banca lhe deu direto o título de doutor, pulando a etapa intermediária da carreira soviética.
Em 1963, publicou em Leningrado Pismennost indeitsev maiya (A escrita dos índios maias), o livro com o catálogo dos sinais e a gramática da escrita. Em 1975, saiu a tradução completa dos três códices para o russo.
O livro chegou ao inglês por uma tradutora casada com um arqueólogo. Sophie Coe, mulher de Michael Coe, verteu capítulos da obra, e o Museu Peabody, de Harvard, publicou a seleção em 1967. Pela primeira vez, os alunos americanos liam Knorozov sem depender do resumo hostil de Thompson.
A aliada de Piedras Negras
O primeiro rombo no muro de Thompson veio de uma pesquisadora da própria Carnegie. Tatiana Proskouriakoff, nascida na Rússia e criada nos Estados Unidos, publicou em 1960 um estudo sobre as estelas (pedras esculpidas e datadas) de Piedras Negras, na Guatemala.
Ela mostrou que as datas marcavam nascimento, posse e fim de reinado de governantes reais. Os glifos contavam história de gente, com nomes e anos. A tese mística de Thompson perdia o chão, e o método silábico de Knorozov ganhava espaço para ler aqueles nomes.
Os reis de Palenque
Em dezembro de 1973, um grupo se reuniu nas ruínas de Palenque, no México, para a primeira Mesa Redonda de Palenque. Linda Schele, Peter Mathews e o linguista Floyd Lounsbury, de Yale, aplicaram as sílabas de Knorozov aos glifos do templo.
Numa tarde, montaram a lista dos reis da cidade. O mais famoso foi lido com sílabas: K’inich Janaab Pakal, o soberano enterrado no Templo das Inscrições. O nome escrito na pedra soava igual ao da fala maia.
Thompson saiu de cena em 1975, ano em que faleceu, sem aceitar a leitura silábica. Nos anos seguintes, os epigrafistas (especialistas em ler inscrições antigas) dos Estados Unidos e do México adotaram o método do russo como base do trabalho.
A viagem de 1990
Em 1990, o presidente da Guatemala, Vinicio Cerezo, convidou Knorozov para conhecer o país. Aos 67 anos, ele pisou pela primeira vez numa cidade maia e subiu as pirâmides de Tikal, que só conhecia por fotografia.
Em 1994, o México lhe deu a Ordem da Águia Asteca, a maior honra concedida pelo país a um estrangeiro. A medalha foi entregue na embaixada mexicana em Moscou.
|