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ED 163
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A Chave Maia de 1952

Em 1952, Yuri Knorozov leu a escrita maia num gabinete de Leningrado. Só pisou nas ruínas em 1990.

Homem de óculos compara glifos maias num gabinete soviético, anos 1950.

Leningrado, 1952: os glifos do Códice de Dresden

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19 de novembro de 1922: nasce Yuri Valentinovich Knorozov, perto de Kharkiv, na Ucrânia soviética. É o caçula de uma família de origem russa, com pai engenheiro e uma casa cheia de livros.

1940: entra na faculdade de história da Universidade de Kharkiv. A guerra alcança a cidade no ano seguinte, e as aulas param.

1943: o Exército Vermelho o convoca como telefonista de artilharia. Ele cruza a Europa Oriental com a tropa, de trincheira em trincheira, até a Alemanha.

Maio de 1945: está em Berlim. Conta a lenda que ele tirou de uma biblioteca em chamas um volume com a reprodução dos três códices maias (livros pintados por escribas antes da conquista espanhola) guardados na Europa, entre eles o de Dresden. Anos depois, o próprio Knorozov desmentiu o fogo: os livros estavam encaixotados para a mudança.

1946: volta aos estudos na Universidade Estatal de Moscou, na cadeira de etnografia (o estudo dos povos e dos costumes deles). Lê um artigo do alemão Paul Schellhas, de 1945, que dava a escrita maia como problema sem solução.

1948: forma-se e vai trabalhar no Instituto de Etnografia, em Leningrado. O professor Sergei Tokarev o empurra para o desafio de Schellhas.

1950: num gabinete apertado, longe de qualquer selva, ele põe lado a lado os sinais dos códices e uma página escrita em 1566 pelo bispo espanhol Diego de Landa, no Iucatã. Nunca viu uma ruína maia. Não tem licença para sair da União Soviética.

A página do bispo trazia o que Landa chamou de alfabeto maia. Os estudiosos europeus tinham tentado ler os códices com ele por quase um século e concluído que a lista era um engano do bispo. O rapaz de Leningrado leu a mesma página e chegou a outra conclusão, e o que ele escreveu saiu impresso em Moscou e recebeu uma resposta dura de Washington.

 

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I  A Queda

O ataque de Thompson

 
 

Em 1952, aos 30 anos, Yuri Valentinovich Knorozov publicou na revista Sovetskaya Etnografiya (Etnografia Soviética), de Moscou, o artigo “A escrita antiga da América Central”. A tese cabia numa linha: o alfabeto de Landa não era um alfabeto, era uma lista de sílabas.

Ele reconstituiu a cena de 1566. O bispo pedia ao escriba maia a letra “b”, e pronunciava o nome dela em espanhol, “be”. O escriba desenhava o sinal maia que soava “be”. Landa anotava um alfabeto; o escriba entregava um silabário (tabela em que cada sinal vale uma sílaba).

Como se lê um glifo

Knorozov propôs que os maias misturavam dois tipos de sinal: o logograma (sinal que vale uma palavra inteira) e o sinal silábico. O japonês faz a mesma mistura até hoje, com os caracteres chineses ao lado das sílabas do kana (o silabário japonês).

Para provar, ele usou os desenhos dos códices. Sobre a imagem de um peru, o texto trazia dois sinais, lidos “cu” e “tzu”. Em maia iucateque, peru se diz “cutz”. A vogal final, escrita e muda, repetia a vogal anterior. Ele chamou a regra de sinarmonia (a vogal do sinal final ecoa a da sílaba de antes).

A resposta de Washington

O britânico J. Eric S. Thompson, da Carnegie Institution de Washington, era o maior nome da área. Para ele, os glifos eram símbolos de ideias místicas, e não registravam a fala de ninguém.

Em 1953, Thompson respondeu na revista mexicana Yan. Usou contra Knorozov o prefácio ideológico que a revista soviética tinha posto antes do artigo, cheio de citações marxistas, e tratou a decifração como propaganda da Guerra Fria. Os alunos e colegas dele no Ocidente seguiram a leitura do chefe.

Thompson tinha autoridade para isso. Em 1950, ele publicara Maya Hieroglyphic Writing: An Introduction (A escrita hieroglífica maia: uma introdução), o manual que toda universidade americana usava. Nele, tratava a ideia de sinais fonéticos como beco sem saída, já testado e abandonado no século XIX.

 

“Die Entzifferung der Mayahieroglyphen, ein unlösbares Problem?” (A decifração dos hieróglifos maias, um problema insolúvel?) Paul Schellhas, título do artigo publicado na revista Ibero-amerikanisches Archiv, 1945.

 

O rapaz que respondeu à pergunta de Schellhas ficou sem plateia. Os textos dele saíam em russo, quase ninguém nos Estados Unidos lia o idioma, e um pedido de viagem ao México era recusado pela burocracia soviética.

 

Um ano depois do artigo, o maior nome da área chamou a chave silábica de propaganda, e as universidades do Ocidente fecharam a porta para ela.

 
 
 
 
 
 
 

II  O Triunfo

A mesa de Palenque

 
 

Yuri Knorozov não mudou de ideia. Em 1955, defendeu a tese na Academia de Ciências, em Moscou, e a banca lhe deu direto o título de doutor, pulando a etapa intermediária da carreira soviética.

Em 1963, publicou em Leningrado Pismennost indeitsev maiya (A escrita dos índios maias), o livro com o catálogo dos sinais e a gramática da escrita. Em 1975, saiu a tradução completa dos três códices para o russo.

O livro chegou ao inglês por uma tradutora casada com um arqueólogo. Sophie Coe, mulher de Michael Coe, verteu capítulos da obra, e o Museu Peabody, de Harvard, publicou a seleção em 1967. Pela primeira vez, os alunos americanos liam Knorozov sem depender do resumo hostil de Thompson.

A aliada de Piedras Negras

O primeiro rombo no muro de Thompson veio de uma pesquisadora da própria Carnegie. Tatiana Proskouriakoff, nascida na Rússia e criada nos Estados Unidos, publicou em 1960 um estudo sobre as estelas (pedras esculpidas e datadas) de Piedras Negras, na Guatemala.

Ela mostrou que as datas marcavam nascimento, posse e fim de reinado de governantes reais. Os glifos contavam história de gente, com nomes e anos. A tese mística de Thompson perdia o chão, e o método silábico de Knorozov ganhava espaço para ler aqueles nomes.

Os reis de Palenque

Em dezembro de 1973, um grupo se reuniu nas ruínas de Palenque, no México, para a primeira Mesa Redonda de Palenque. Linda Schele, Peter Mathews e o linguista Floyd Lounsbury, de Yale, aplicaram as sílabas de Knorozov aos glifos do templo.

Numa tarde, montaram a lista dos reis da cidade. O mais famoso foi lido com sílabas: K’inich Janaab Pakal, o soberano enterrado no Templo das Inscrições. O nome escrito na pedra soava igual ao da fala maia.

Thompson saiu de cena em 1975, ano em que faleceu, sem aceitar a leitura silábica. Nos anos seguintes, os epigrafistas (especialistas em ler inscrições antigas) dos Estados Unidos e do México adotaram o método do russo como base do trabalho.

A viagem de 1990

Em 1990, o presidente da Guatemala, Vinicio Cerezo, convidou Knorozov para conhecer o país. Aos 67 anos, ele pisou pela primeira vez numa cidade maia e subiu as pirâmides de Tikal, que só conhecia por fotografia.

Em 1994, o México lhe deu a Ordem da Águia Asteca, a maior honra concedida pelo país a um estrangeiro. A medalha foi entregue na embaixada mexicana em Moscou.

 

Quarenta e dois anos depois do artigo, o país dos maias condecorou o homem cuja chave Thompson tinha chamado de propaganda.

 
 
 
 
 
 
 
 

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III  A Lição

A vitrine de Dresden

 
 

Yuri Valentinovich Knorozov passou os últimos anos em São Petersburgo, o antigo Leningrado, num apartamento modesto. Gostava de posar com a gata siamesa Asya no colo e dizia, meio a sério, que ela era coautora dos trabalhos.

Em 31 de março de 1999, ele faleceu de pneumonia num hospital da cidade, aos 76 anos. Está enterrado no cemitério de Kovalevskoe, nos arredores de São Petersburgo.

O que se sabe hoje

O que se sabe: a leitura silábica venceu. Em Breaking the Maya Code (Decifrando o código maia), de 1992, o americano Michael Coe, de Yale, conta como a área inteira trocou a tese de Thompson pela de Knorozov a partir dos anos 1970.

O que ainda não se sabe: parte dos sinais segue sem leitura firme, e os epigrafistas discutem o valor de vários deles até hoje. O método funciona; o catálogo não está fechado.

Também não se sabe quanto a Guerra Fria custou à decifração. Coe calcula, no mesmo livro, que a resistência de Thompson atrasou a área em décadas, mas não há como medir o que teria saído antes se o artigo de 1952 tivesse sido lido em paz.

A Universidade Estatal Russa de Humanidades, em Moscou, mantém um centro de estudos mesoamericanos com o nome de Knorozov. O livro de 1963 segue nas bibliotecas de pesquisa, e a gata Asya ficou na foto mais conhecida dele.

Três gestos de Knorozov

Para quem tem a ideia descartada pelo maior nome do ofício, Knorozov deixou três gestos:

1. Ler a fonte antiga com olho novo. A página de Landa estava impressa desde o século XIX; ele perguntou como o bispo tinha feito a pergunta.

2. Provar com o exemplo mais simples. O peru dos códices, “cu” e “tzu”, convenceu os céticos antes de qualquer tabela.

3. Continuar publicando sem plateia. O livro de 1963 saiu em russo e esperou os leitores certos em Palenque.

 

O homem chamado de propagandista em 1953 ganhou a medalha mais alta do México e o nome num centro de estudos em Moscou.

 

Os fatos centrais desta edição vêm de Breaking the Maya Code, de Michael Coe, publicado pela Thames and Hudson em 1992, e de Pismennost indeitsev maiya, de Yuri Knorozov, Leningrado, 1963.

O Códice de Dresden, que o soldado de 1945 levou de Berlim em fotografia e leu sílaba por sílaba em Leningrado, está hoje numa vitrine do museu do livro da Biblioteca Estatal da Saxônia, em Dresden, aberto à visita.

 
 
Quiz da edição

Em que ano o britânico J. Eric S. Thompson, da Carnegie Institution de Washington, publicou na revista mexicana Yan a resposta que tratou a decifração de Knorozov como propaganda da Guerra Fria?

A1950
B1953
C1952
D1963

Resultado da última edição: 75% acertaram.

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