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I A Queda
O exilado do quarto alugado
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Em Kingston, Simón Bolívar y Palacios vive de empréstimo. Tem 32 anos, a fortuna da família ficou presa na Venezuela ocupada pelos espanhóis e as cartas dele para Londres pedindo dinheiro e armas voltam sem resposta.
Quem paga as contas é um comerciante inglês, Maxwell Hyslop, que empresta a Bolívar o suficiente para o aluguel e a comida. Em cartas a Hyslop, o venezuelano conta os trocados e diz que já vendeu o que tinha para vender.
A notícia que chega do continente piora a cada navio. Morillo toma a costa venezuelana, sobe para Nova Granada e fecha o cerco sobre Cartagena, a cidade com a qual Bolívar tinha brigado meses antes.
O cerco dura de agosto a dezembro de 1815. Os moradores comem couro e ratos. Quando os espanhóis entram, encontram uma cidade faminta; a partir dali, tribunais militares mandam fuzilar os líderes da independência em Nova Granada.
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Em setembro de 1815, a revolução que Bolívar comandava não tinha capital, tropa nem aliado: tinha um homem sem dinheiro escrevendo numa ilha inglesa. |
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É desse quarto que sai a Carta da Jamaica, datada de 6 de setembro. O destinatário, Henry Cullen, morava em Falmouth, no norte da ilha, e tinha feito perguntas sobre o futuro das colônias espanholas.
Bolívar responde com um diagnóstico. A Espanha, escreve, governa a América como uma fazenda: proíbe fábricas, reserva o comércio aos espanhóis e deixa os criollos (descendentes de europeus nascidos na América) fora dos cargos de mando.
Depois arrisca previsões. Diz que o México tende a virar república com um líder forte, que a Argentina corre risco de cair numa oligarquia e que um país só para todo o continente seria impossível, por causa das distâncias e dos interesses locais.
Sonha mesmo assim com a união. Imagina um congresso no Panamá reunindo as novas repúblicas, ideia que ele próprio vai convocar onze anos mais tarde, em 1826.
O trecho mais citado da carta ficou assim na tradução portuguesa: "Desejo, mais que nenhum outro, ver formar-se na América a maior nação do mundo, menos por sua extensão e riquezas que por sua liberdade e glória." (Simón Bolívar, Carta da Jamaica, 1815).
A carta não tinha leitor garantido. Foi publicada pela primeira vez em inglês, em 1818, numa revista da própria Jamaica. O original em espanhol se perdeu; o texto que circula hoje vem de traduções e de uma cópia manuscrita achada em 2014 num arquivo de Quito, no Equador.
Três meses depois de assinar a carta, o exilado escapa por acaso da lâmina.
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II O Triunfo
Da rede vazia à ponte de Boyacá
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Na noite de 10 de dezembro de 1815, Bolívar sai do quarto e não volta para dormir. Na rede dele deita José Félix Amestoy, antigo oficial que tinha chegado a Kingston pedindo abrigo.
De madrugada, Pío, escravizado que servia Bolívar, entra no escuro e crava a faca em quem está na rede. Amestoy não sobrevive. Pío é preso, confessa e acaba enforcado pelas autoridades inglesas da ilha.
John Lynch, na biografia Simón Bolívar: A Life (2006), registra a suspeita de que agentes espanhóis tinham pago Pío para o golpe. Nenhum documento provou o mandante, e a pergunta segue sem resposta nos arquivos.
Bolívar entende o recado: a Jamaica não protege mais ninguém. Dias depois embarca para o Haiti, a única república governada por ex-escravizados nas Américas.
Em Porto Príncipe, o presidente Alexandre Pétion recebe o exilado e oferece navios, fuzis, pólvora, uma tipografia e dinheiro. Pede uma única condição: que Bolívar liberte os escravizados de cada território que conquistar.
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O Haiti deu a Bolívar a primeira expedição armada desde a derrota, e o preço cobrado foi a abolição. |
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Bolívar aceita. Em 1816, desembarca na costa venezuelana e decreta a liberdade dos escravizados que se juntarem ao exército. A primeira expedição fracassa; ele volta ao Haiti, Pétion arma uma segunda, e desta vez a tropa se firma.
Em 1817, ele troca a costa pelo interior e se instala em Angostura, cidade às margens do Orinoco. Ali junta os llaneros do general José Antonio Páez, os mesmos vaqueiros que tinham derrubado a república em 1814, e recruta voluntários britânicos e irlandeses, veteranos das guerras contra Napoleão.
Em maio de 1819, decide atacar onde os espanhóis menos esperam. Deixa Caracas quieta e mira Bogotá, coração do vice-reino de Nova Granada, atrás da cordilheira dos Andes.
A marcha começa nas planícies alagadas pela chuva e termina no páramo de Pisba (planalto gelado acima de 3 mil metros). Soldados das planícies, sem roupa de frio, sobem descalços. Cavalos e homens ficam pelo caminho.
No alto, o exército se junta às tropas de Francisco de Paula Santander. Em 25 de julho, empata com os espanhóis no Pântano de Vargas.
Em 7 de agosto de 1819, na ponte sobre o rio Teatinos, em Boyacá, as forças de Bolívar e Santander cortam a coluna do coronel espanhol José María Barreiro, que marchava para proteger Bogotá. A batalha dura cerca de duas horas. Barreiro é capturado com boa parte da tropa.
O vice-rei Juan de Sámano foge de Bogotá disfarçado. Em 10 de agosto, Bolívar entra na capital sem disparar um tiro.
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