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A Babá Com Cem Mil Negativos Guardados
Vivian Maier fotografou as ruas de Chicago e de Nova York por quatro décadas e deixou a maior parte dos filmes sem revelar.
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Chicago, 1956: a Rolleiflex na altura do peito
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Nova York, 1952. Uma mulher de vinte e seis anos compra uma Rolleiflex de médio formato, câmera que se olha de cima, na altura do peito, com o rosto virado para baixo. O aparelho permite enquadrar alguém sem encarar ninguém e sem levantar o queixo, e é exatamente essa a utilidade que ela vai extrair dele. Ela trabalha cuidando de crianças em casa de família. Vai continuar nessa função pelos quarenta anos seguintes.
1956: ela se muda para Highland Park, subúrbio ao norte de Chicago, contratada por uma família com três meninos. Antes de aceitar o emprego, faz duas exigências ao casal: um quarto com fechadura própria e um banheiro que ela possa usar como câmara escura. A casa concorda com as duas. Nas folgas, ela toma o trem para o centro e fotografa mercados, calçadas, filas de ônibus, gente dormindo em banco de praça.
Anos setenta: revelar filme custa dinheiro que ela não tem sobrando e ocupa espaço que ela não tem mais. Os rolos passam a ser guardados como saíram do laboratório, dentro dos envelopes, sem cópia em papel. As caixas vão empilhando em armários emprestados, quartos de serviço e, mais tarde, num depósito alugado.
2007: o aluguel do depósito atrasa e o conteúdo vai a leilão em Chicago. Um homem de vinte e seis anos, que escrevia um livro sobre a história de um bairro, arremata uma caixa de negativos por cerca de trezentos e oitenta dólares esperando achar fotos antigas de ruas da cidade. Ele acha trinta mil filmes de uma fotógrafa que jamais expôs nada em lugar nenhum.
2009: as primeiras imagens digitalizadas dessa caixa entram no Flickr e a resposta desmonta qualquer expectativa do comprador. Ele começa a procurar o nome escrito nos envelopes e descobre que a autora está viva, num quarto de Chicago, com oitenta e três anos.
Antes de qualquer leilão existem oito décadas de uma vida que pouca gente acompanhou de perto, e um trabalho fotográfico feito sem editor, sem crítico e sem plateia. Vale começar pelo ano em que ela nasceu.
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I A Queda
Quarenta anos de trabalho doméstico
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Vivian Maier nasceu em fevereiro de 1926 no Bronx, filha de mãe francesa e pai austríaco, numa família que se desfez cedo. Passou boa parte da infância e da adolescência em Saint-Bonnet-en-Champsaur, vilarejo dos Alpes franceses de onde vinha a família materna, e voltou definitivamente aos Estados Unidos em 1951, aos vinte e cinco anos, sem diploma e sem profissão registrada.
Trabalhou primeiro numa fábrica de bonecas em Nova York e logo migrou para o serviço doméstico, a única ocupação que lhe dava quarto próprio, comida garantida e folgas previsíveis. Foi babá em casas de Nova York durante cinco anos, e em Chicago pelas três décadas e meia seguintes. Os empregadores mudavam, a rotina não: cuidar das crianças durante o dia, sair com a câmera no peito assim que a jornada terminava.
Os filhos que ela criou descreveram depois uma mulher de sotaque francês carregado, roupa larga, passo rápido e opinião firme, que os levava a beco, feira e ferro-velho porque era ali que estava a imagem que ela queria. Ninguém naquelas casas viu uma fotografia pronta. As pessoas sabiam da câmera; não sabiam do trabalho.
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Ela produziu por quatro décadas sem mostrar o resultado a ninguém: nenhuma exposição, nenhuma publicação, nenhum cliente e nenhum crítico. |
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Sou a mulher misteriosa. Vivian Maier, resposta a uma conhecida em Chicago, registrada em Finding Vivian Maier, 2013 |
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O acúmulo virou problema físico. Além dos filmes, ela guardava jornais em pilhas que iam do chão ao teto, recibos, cartas, chapéus, casacos. Uma das famílias precisou reforçar o piso do quarto dela por causa do peso do papel. Quando os meninos cresceram e o emprego acabou, o material teve que sair da casa e ir para depósitos pagos por mês.
Os anos noventa foram de aperto. Sem crianças pequenas para cuidar, ela emendou trabalhos curtos, perdeu moradia mais de uma vez e passou a viver de um dinheiro que não cobria o mês inteiro. Os antigos meninos da família de Highland Park, já adultos, pagaram um apartamento em Rogers Park para ela e assumiram parte das contas. O depósito com as caixas ficou de fora dessa ajuda.
Em 2007, com o aluguel do depósito vencido, a administradora fez o que faz com qualquer locatário inadimplente: mandou o conteúdo para leilão. Foram vendidos lotes de caixas a compradores diferentes, entre eles John Maloof, Ron Slattery e Randy Prow, cada um levando uma parte do acervo sem saber o que havia dentro. A autora do material estava viva e não foi avisada de nada.
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II O Triunfo
O leilão que abriu as caixas
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John Maloof levou o lote maior por volta de trezentos e oitenta dólares e passou meses sem fazer nada com ele. Precisava de fotos de época para um livro sobre Portage Park, bairro de Chicago, e o que encontrou nas caixas não servia: em vez de fachadas e esquinas vazias, havia rosto humano em quase todo quadro. Ele guardou o material embaixo da cama.
Em 2009 resolveu digitalizar um bloco de negativos e publicar cem imagens num álbum do Flickr, pedindo opinião a um fórum de fotografia de rua. A resposta foi imediata e unânime entre gente que fotografava havia décadas: aquele conjunto tinha nível de museu e ninguém reconhecia a autoria. Maloof começou a comprar de volta os lotes que tinham ido para outros compradores no mesmo leilão.
O nome escrito a lápis num envelope de laboratório levou à busca que fecharia a história pelo lado errado. Ele encontrou um aviso de falecimento publicado dias antes, em abril de 2009: a fotógrafa tinha oitenta e três anos e vivera os últimos meses num quarto pago pelos meninos que criara. Ela nunca soube que alguém estava olhando os negativos.
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Nada foi feito para durar para sempre. Temos que abrir espaço para outras pessoas. É uma roda: você entra, vai até o fim, e alguém toma o seu lugar. Vivian Maier, gravação de áudio apresentada em Finding Vivian Maier, 2013 |
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John Maloof declarou ter reunido mais de cem mil negativos, além de filmes em super-8 e gravações de áudio feitas por ela. |
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Em janeiro de 2011 o Chicago Cultural Center montou a primeira exposição pública do trabalho, com curadoria de Maloof, e a fila deu volta no quarteirão. No mesmo ano saiu Vivian Maier: Street Photographer, pela editora powerHouse Books, primeiro livro dedicado a ela. Em 2013 estreou o documentário Finding Vivian Maier, dirigido por Maloof e Charlie Siskel, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2015.
O trabalho que nenhuma galeria havia visto passou a circular por museus e centros culturais de Nova York, Londres, Paris, Milão e São Paulo, com catálogo, cópia numerada e mercado de colecionador. A obra também entrou em disputa: como ela morreu sem testamento, os direitos autorais viraram processo judicial no condado de Cook, com herdeiros franceses localizados anos depois.
O reconhecimento chegou completo e chegou tarde. A fotógrafa que passou quarenta anos sem uma parede para pendurar nada virou nome fixo em história da fotografia de rua do século vinte, ao lado de gente que ela nunca conheceu e que expôs em vida.
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