| |
| |
| |
|
I A Queda
A corda do Bargello
|
| |
| |
|
Pietro Paolo Boscoli e Agostino Capponi, dois jovens florentinos, planejavam derrubar os Médici. Um deles deixou cair a lista de possíveis aliados, com cerca de 20 nomes. Ninguém provou que Maquiavel soubesse do plano, mas o nome bastou.
Ele foi preso em fevereiro de 1513 e levado ao Bargello, o palácio que servia de cárcere e tribunal. Ali os interrogadores aplicavam o strappado: amarravam as mãos do preso nas costas, içavam o corpo por uma corda presa aos pulsos e soltavam de uma vez.
Maquiavel recebeu seis tratos de corda. Os ombros deslocavam a cada queda, e ele não confessou participação. Boscoli e Capponi foram executados em 23 de fevereiro, e ele ouviu da cela os preparativos.
O soneto da cela
Na prisão, escreveu versos para Giuliano de Médici, irmão do novo senhor da cidade. Pediu clemência com humor seco, descrevendo os grilhões nas pernas e os piolhos do tamanho de borboletas.
|
| |
"Tenho, Giuliano, nas pernas um par de grilhões, com seis tratos de corda nos ombros." Nicolau Maquiavel, soneto a Giuliano de Médici, 1513. |
|
| |
|
Em 11 de março de 1513, o cardeal Giovanni de Médici foi eleito papa com o nome de Leão X. Florença celebrou com fogueiras, e o novo governo concedeu anistia aos presos. Maquiavel saiu do Bargello por volta de 12 de março.
|
| |
Em menos de quatro meses, Maquiavel perdeu o cargo que ocupou por 14 anos, ficou preso à cidade e passou por seis tratos de corda. |
|
| |
|
Livre, estava sem salário, sem posto e marcado como suspeito. Escreveu a Francesco Vettori, amigo e embaixador florentino em Roma, pedindo que o recomendasse aos Médici. Vettori respondeu com cortesia e nada conseguiu.
Com mulher, Marietta Corsini, e filhos pequenos para sustentar, Maquiavel deixou a cidade. Foi para a propriedade da família em Sant'Andrea in Percussina, a cerca de 15 quilômetros ao sul de Florença, na estrada para San Casciano.
A casa tinha um apelido modesto, l'Albergaccio, a estalagem ruim. Do alto do terreno, nos dias limpos, ele via a cúpula da catedral de Florença, a cidade onde não podia mais trabalhar.
|
| |
| |
| |
|
II O Triunfo
A carta a Vettori
|
| |
| |
|
Em 10 de dezembro de 1513, Maquiavel mandou a Vettori a carta mais famosa que escreveu. Nela descreveu, hora por hora, o dia de um ex-secretário da república que virou pequeno proprietário rural.
Acordava cedo e ia ao bosque que mandava cortar, onde discutia com os lenhadores. Levava um livro de poesia, Dante ou Petrarca, e lia à beira de uma fonte. Depois seguia para a estalagem da estrada, perguntava notícias aos viajantes e almoçava com a família.
À tarde voltava à estalagem e jogava cartas e gamão com o dono, um açougueiro, um moleiro e dois operários do forno de cal. As apostas eram de poucas moedas, e as brigas, diz ele, se ouviam em San Casciano.
A troca de roupa
Ao anoitecer, o ritual mudava. Ele tirava a roupa do dia, suja de lama e de poeira, e vestia trajes da corte. Entrava no escritório e conversava, pelos livros, com os antigos.
|
| |
"Alimento-me daquele alimento que é só meu e para o qual nasci." Nicolau Maquiavel, carta a Francesco Vettori, 10 de dezembro de 1513. |
|
| |
|
Na mesma carta, contou que tinha anotado o que aprendera nessas conversas e composto um opúsculo chamado De principatibus, sobre os principados. Queria dedicá-lo a Giuliano de Médici e perguntava a Vettori se devia mandar o texto ou entregá-lo pessoalmente.
O inverno de 1513 passou nessa rotina. Quando a carta chegou a Roma, o manuscrito já circulava entre poucos amigos, que o copiavam à mão e devolviam com anotações na margem.
O livro tinha 26 capítulos curtos. Tratava de como se conquistam e se mantêm os Estados, e usava como exemplo os homens que ele vira governar de perto, César Bórgia à frente.
|
| |
Um ex-funcionário de 44 anos, banido e sem renda, escreveu em poucos meses o tratado político mais lido do Ocidente. |
|
| |
|
Giuliano partiu em 1516, e a dedicatória passou a Lorenzo di Piero de Médici, duque de Urbino. Segundo relatos da época, Lorenzo deu pouca atenção ao manuscrito. O cargo não veio.
Maquiavel continuou escrevendo. Nos anos seguintes terminou os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, escreveu a comédia A Mandrágora, encenada em Florença com sucesso, e publicou A Arte da Guerra em 1521, o único livro político impresso em vida.
Em 1520, o cardeal Giulio de Médici encomendou a ele uma história de Florença, com salário de 100 florins por ano. Em 1525, Maquiavel entregou os oito livros das Histórias Florentinas ao encomendante, agora papa Clemente VII.
|
|
|
|
|