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ED 144
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13 Anos de Cova Sem Nome Até a Lápide de Zora Hurston

Em 1973, Alice Walker atravessou um campo de mato em Fort Pierce atrás da autora esquecida e pagou a pedra que a devolveu aos leitores.

Mulher de 29 anos atravessa um cemitério tomado por mato alto na Flórida, em 1973.

Fort Pierce, Flórida, agosto de 1973

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1891: nasce em Notasulga, no Alabama, Zora Neale Hurston, quinta de oito filhos de John Hurston, carpinteiro e pregador batista, e de Lucy Potts Hurston, professora. A família logo se muda para Eatonville, na Flórida, uma das primeiras cidades dos Estados Unidos fundadas e governadas por negros, onde John chega a prefeito.

1904: Lucy parte, e a menina de 13 anos passa a morar de favor com parentes e conhecidos. Trabalha como empregada em casas de família e, anos depois, como camareira de uma trupe de teatro que viaja pelo Sul.

1917: aos 26 anos, declara ter 16 para estudar de graça no colégio da Morgan Academy, em Baltimore. Dez anos somem da certidão e nunca mais voltam.

1925: chega a Nova York com um dólar e meio no bolso, em plena Renascença do Harlem, o movimento de escritores, músicos e pintores negros que agitava o bairro.

1928: forma-se em antropologia pela Barnard College, aluna de Franz Boas, e volta ao Sul para recolher histórias, canções e rezas do povo negro.

1935: publica Mules and Men (Mulas e homens), o livro de folclore nascido dessas viagens.

1937: sai Their Eyes Were Watching God (Seus olhos viam Deus), romance escrito no Haiti em sete semanas.

1942: sai a autobiografia Dust Tracks on a Road (Rastros de poeira na estrada), premiada no ano seguinte com o Anisfield-Wolf, prêmio americano para livros sobre preconceito racial.

1948: o último romance, Seraph on the Suwanee, vende pouco. Os editores param de responder às cartas.

1950: o jornal Miami Herald encontra a autora trabalhando como empregada doméstica numa casa do bairro de Rivo Alto, em Miami.

Entre o colégio de Baltimore e a casa de Miami cabem 33 anos e sete livros. A Queda, logo abaixo, conta onde ela foi parar uma década depois e por que o túmulo ficou sem nome.

 

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I  A Queda

A cova da rua 17

 
 

Zora Neale Hurston passou os últimos anos em Fort Pierce, cidade de pesca e laranjais na costa leste da Flórida. Escrevia notas para o Fort Pierce Chronicle, jornal da comunidade negra, e deu aulas como professora substituta na Lincoln Park Academy. Morava numa casa pequena, com um cachorro e uma horta.

Em 1959, um derrame tirou dela a força para morar sozinha. Seguiu para o asilo do condado de St. Lucie, onde partiu no começo de 1960, aos 69 anos, embora os papéis dissessem 59.

Nenhum dos sete livros estava à venda. As editoras tinham deixado todos saírem de catálogo, e o nome dela sumira das antologias usadas nas faculdades americanas.

Em vida, o maior cheque de direitos autorais que ela recebeu por um livro foi de 943 dólares e 75 centavos, segundo a biografia de Robert Hemenway. Nos últimos anos, vivia de bicos e de cheques pequenos de revistas.

O enterro de vaquinha

A família não tinha dinheiro para o funeral. Amigos, vizinhos e ex-alunos fizeram uma coleta, e a funerária da cidade cuidou do corpo. O culto reuniu gente do bairro, colegas da escola e alguns velhos amigos.

O caixão foi para o Garden of Heavenly Rest (Jardim do Descanso Celestial), o cemitério dos negros de Fort Pierce, no fim da rua 17 Norte, num tempo em que a Flórida separava os mortos pela cor da pele.

A coleta pagou o caixão e a cova. Não sobrou para a pedra. Ficou um retângulo de terra sem nome, e o mato do terreno, que ninguém cortava, cobriu o lugar em poucos anos.

 

“Não choro pelo mundo. Estou ocupada demais afiando minha faca de ostras.” Zora Neale Hurston, ensaio How It Feels to Be Colored Me (Como é ser eu, uma pessoa de cor), 1928.

 

Nos anos 60, quem procurava os livros dela encontrava só exemplares usados, raros e caros. Professores que conheciam o nome não sabiam onde ela estava enterrada, nem se havia túmulo.

 

A autora de sete livros foi enterrada com a vaquinha dos vizinhos, num terreno sem pedra, sem data e sem nome.

 

A busca começou longe da Flórida. Em 1970, uma escritora de 26 anos, Alice Walker, pesquisava a feitiçaria do Sul americano para um conto e achou o nome de Zora numa nota de rodapé. Leu Mules and Men, depois Their Eyes Were Watching God, e decidiu ir atrás da autora.

 
 
 

II  O Triunfo

O mato até a cintura

 
 

Alice Walker chegou a Fort Pierce em agosto de 1973, aos 29 anos, com a pesquisadora Charlotte Hunt, que estudava Zora Neale Hurston para um trabalho acadêmico. Para abrir portas, Walker se apresentou na cidade como sobrinha da escritora.

Conversou com gente que tinha conhecido Zora: vizinhos, antigos alunos e o médico C. C. Benton, que a tratara nos últimos anos. Todos lembravam da mulher de chapéu, falante, que plantava flores na frente de casa.

Na funerária, uma funcionária indicou o caminho: o túmulo ficava no centro do Garden of Heavenly Rest. Não havia mapa, placa nem número de lote.

O grito no campo

O cemitério estava abandonado. O mato chegava à cintura, e Walker temia cobras a cada passo. Charlotte ficou na beira da estrada. Walker entrou no terreno e começou a chamar em voz alta: “Zora!”

Andou até o ponto que imaginou ser o centro do campo e pisou num afundamento retangular do solo, o sinal de uma cova antiga, já sem caixão firme por baixo. Decidiu ali que era aquela.

 

“Há momentos, e encontrar o túmulo de Zora Hurston foi um deles, em que as reações normais de luto e de horror não fazem sentido.” Alice Walker, In Search of Zora Neale Hurston (Em busca de Zora Neale Hurston), revista Ms., 1975.

 

Na mesma tarde, foi à Merritt Monument Company, a marmoraria da cidade. Queria uma pedra preta chamada Ebony Mist (névoa de ébano), alta e imponente. O preço passava do que ela podia pagar com o salário de professora.

Ficou com uma lápide cinza, simples, e escreveu à mão o texto da gravação. Pagou com o próprio dinheiro.

A pedra diz: Zora Neale Hurston, A Genius of the South (um gênio do Sul), romancista, folclorista, antropóloga, 1901-1960.

O verso do meio vem do poema Georgia Dusk (Crepúsculo na Geórgia), de Jean Toomer, publicado no livro Cane em 1923. Toomer escreveu os versos sobre o canto do povo negro do Sul, a matéria que Zora passou a vida recolhendo em cadernos.

 

Treze anos depois do enterro, uma escritora de 29 anos achou a cova no mato e gravou nela o nome esquecido pelo país.

 

Walker sabia que a pedra podia estar alguns metros fora do lugar exato. Escreveu depois que pouco importava: a lápide marcava que Zora tinha existido e onde a cidade a tinha posto.

Charlotte Hunt anotou nomes, endereços e datas de cada conversa. As duas deixaram Fort Pierce de carro, e Walker levou para casa o caderno da viagem e a fotografia da pedra recém-pedida.

 
 
 
 

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III  A Lição

Os livros de volta à estante

 
 

Em março de 1975, a revista Ms. publicou o relato da viagem, In Search of Zora Neale Hurston. O ensaio correu as faculdades americanas, e professores começaram a pedir livros que nenhuma editora imprimia.

Em 1977, o professor Robert Hemenway lançou Zora Neale Hurston: A Literary Biography (uma biografia literária), com prefácio de Walker. No ano seguinte, a University of Illinois Press reimprimiu Their Eyes Were Watching God.

Em 1979, Walker organizou a antologia I Love Myself When I Am Laughing (Eu me amo quando estou rindo), com contos, ensaios e trechos de Zora escolhidos por ela.

 

“Um povo não joga fora os seus gênios.” Alice Walker, I Love Myself When I Am Laughing, 1979.

 

O cânone de volta

Nos anos 80, Their Eyes Were Watching God entrou nas listas de leitura obrigatória de escolas e faculdades americanas. Em 2005, virou filme para a televisão, produzido por Oprah Winfrey, com Halle Berry no papel de Janie Crawford, a protagonista.

Em 2018, saiu Barracoon, livro escrito por Zora em 1931 a partir de entrevistas com Cudjo Lewis, um dos últimos sobreviventes do último navio negreiro a chegar aos Estados Unidos. O manuscrito tinha esperado 87 anos.

 

Uma lápide cinza, paga por uma leitora, abriu caminho para os livros de Zora voltarem às livrarias.

 

A trajetória deixa três passos para quem vê um trabalho cair no esquecimento:

1. Seguir a pista pequena. Walker achou Zora numa nota de rodapé e leu os livros antes de viajar.

2. Ir ao lugar. A cova só apareceu porque alguém atravessou o mato em pessoa e chamou o nome.

3. Marcar o que se encontra. A pedra e o ensaio deram aos professores um nome, um endereço e uma razão para reimprimir.

Hoje, os livros de Zora Neale Hurston estão em catálogo pela editora Harper Perennial. Eatonville faz desde 1990 um festival de artes com o nome dela, e o túmulo segue no Garden of Heavenly Rest, em Fort Pierce, parada da trilha Dust Tracks, roteiro de placas sobre a vida dela na cidade.

Os fatos centrais desta edição vêm do ensaio In Search of Zora Neale Hurston, de Alice Walker, publicado na Ms. em 1975, e de Wrapped in Rainbows (Envolta em arco-íris), biografia escrita por Valerie Boyd e publicada em 2003.

A pedra cinza ainda diz 1901. Zora nasceu em 1891, em Notasulga, e os dez anos tirados da certidão no colégio de Baltimore ficaram gravados na lápide paga por Alice Walker.

 

Se ninguém mais fosse procurar, qual autor esquecido você iria buscar no mato?

 
 
 
 
Quiz da edição

Para conseguir que vizinhos e ex-alunos de Zora Neale Hurston conversassem com ela em Fort Pierce, em 1973, o que Alice Walker disse ser na cidade?

AJornalista da revista Ms.
BSobrinha da escritora
CProfessora substituta da Lincoln Park Academy
DPesquisadora da Universidade Howard

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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