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I A Queda
A cova da rua 17
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Zora Neale Hurston passou os últimos anos em Fort Pierce, cidade de pesca e laranjais na costa leste da Flórida. Escrevia notas para o Fort Pierce Chronicle, jornal da comunidade negra, e deu aulas como professora substituta na Lincoln Park Academy. Morava numa casa pequena, com um cachorro e uma horta.
Em 1959, um derrame tirou dela a força para morar sozinha. Seguiu para o asilo do condado de St. Lucie, onde partiu no começo de 1960, aos 69 anos, embora os papéis dissessem 59.
Nenhum dos sete livros estava à venda. As editoras tinham deixado todos saírem de catálogo, e o nome dela sumira das antologias usadas nas faculdades americanas.
Em vida, o maior cheque de direitos autorais que ela recebeu por um livro foi de 943 dólares e 75 centavos, segundo a biografia de Robert Hemenway. Nos últimos anos, vivia de bicos e de cheques pequenos de revistas.
O enterro de vaquinha
A família não tinha dinheiro para o funeral. Amigos, vizinhos e ex-alunos fizeram uma coleta, e a funerária da cidade cuidou do corpo. O culto reuniu gente do bairro, colegas da escola e alguns velhos amigos.
O caixão foi para o Garden of Heavenly Rest (Jardim do Descanso Celestial), o cemitério dos negros de Fort Pierce, no fim da rua 17 Norte, num tempo em que a Flórida separava os mortos pela cor da pele.
A coleta pagou o caixão e a cova. Não sobrou para a pedra. Ficou um retângulo de terra sem nome, e o mato do terreno, que ninguém cortava, cobriu o lugar em poucos anos.
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“Não choro pelo mundo. Estou ocupada demais afiando minha faca de ostras.” Zora Neale Hurston, ensaio How It Feels to Be Colored Me (Como é ser eu, uma pessoa de cor), 1928. |
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Nos anos 60, quem procurava os livros dela encontrava só exemplares usados, raros e caros. Professores que conheciam o nome não sabiam onde ela estava enterrada, nem se havia túmulo.
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A autora de sete livros foi enterrada com a vaquinha dos vizinhos, num terreno sem pedra, sem data e sem nome. |
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A busca começou longe da Flórida. Em 1970, uma escritora de 26 anos, Alice Walker, pesquisava a feitiçaria do Sul americano para um conto e achou o nome de Zora numa nota de rodapé. Leu Mules and Men, depois Their Eyes Were Watching God, e decidiu ir atrás da autora.
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II O Triunfo
O mato até a cintura
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Alice Walker chegou a Fort Pierce em agosto de 1973, aos 29 anos, com a pesquisadora Charlotte Hunt, que estudava Zora Neale Hurston para um trabalho acadêmico. Para abrir portas, Walker se apresentou na cidade como sobrinha da escritora.
Conversou com gente que tinha conhecido Zora: vizinhos, antigos alunos e o médico C. C. Benton, que a tratara nos últimos anos. Todos lembravam da mulher de chapéu, falante, que plantava flores na frente de casa.
Na funerária, uma funcionária indicou o caminho: o túmulo ficava no centro do Garden of Heavenly Rest. Não havia mapa, placa nem número de lote.
O grito no campo
O cemitério estava abandonado. O mato chegava à cintura, e Walker temia cobras a cada passo. Charlotte ficou na beira da estrada. Walker entrou no terreno e começou a chamar em voz alta: “Zora!”
Andou até o ponto que imaginou ser o centro do campo e pisou num afundamento retangular do solo, o sinal de uma cova antiga, já sem caixão firme por baixo. Decidiu ali que era aquela.
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“Há momentos, e encontrar o túmulo de Zora Hurston foi um deles, em que as reações normais de luto e de horror não fazem sentido.” Alice Walker, In Search of Zora Neale Hurston (Em busca de Zora Neale Hurston), revista Ms., 1975. |
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Na mesma tarde, foi à Merritt Monument Company, a marmoraria da cidade. Queria uma pedra preta chamada Ebony Mist (névoa de ébano), alta e imponente. O preço passava do que ela podia pagar com o salário de professora.
Ficou com uma lápide cinza, simples, e escreveu à mão o texto da gravação. Pagou com o próprio dinheiro.
A pedra diz: Zora Neale Hurston, A Genius of the South (um gênio do Sul), romancista, folclorista, antropóloga, 1901-1960.
O verso do meio vem do poema Georgia Dusk (Crepúsculo na Geórgia), de Jean Toomer, publicado no livro Cane em 1923. Toomer escreveu os versos sobre o canto do povo negro do Sul, a matéria que Zora passou a vida recolhendo em cadernos.
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Treze anos depois do enterro, uma escritora de 29 anos achou a cova no mato e gravou nela o nome esquecido pelo país. |
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Walker sabia que a pedra podia estar alguns metros fora do lugar exato. Escreveu depois que pouco importava: a lápide marcava que Zora tinha existido e onde a cidade a tinha posto.
Charlotte Hunt anotou nomes, endereços e datas de cada conversa. As duas deixaram Fort Pierce de carro, e Walker levou para casa o caderno da viagem e a fotografia da pedra recém-pedida.
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