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110 Anos Para Devolver o Ouro de Jim Thorpe

Ele venceu duas provas em Estocolmo, perdeu tudo por dois verões de beisebol pago e virou lenda do esporte americano.

Atleta de uniforme branco lançando peso numa pista de terra do estádio de Estocolmo, em 1912.

Estádio Olímpico de Estocolmo, 1912

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28 de maio de 1887: nasce numa cabana perto de Prague, no então Território Indígena (hoje Oklahoma), Jim Thorpe, do povo Sac e Fox. A mãe, Charlotte, dá a ele o nome Wa-Tho-Huk (Caminho Brilhante), pela luz que iluminava a trilha até a cabana na hora do parto.

1896: Charlie, o irmão gêmeo, sucumbe a uma pneumonia aos 8 anos. Jim começa a fugir dos internatos para onde o pai o manda e volta para casa a pé, por dezenas de quilômetros de estrada de terra.

1904: Hiram, o pai, sucumbe a uma infecção, três anos após a mãe partir por complicações num parto. Órfão aos 16 anos, Jim entra na Escola Industrial Indígena de Carlisle, na Pensilvânia, criada pelo governo federal para afastar crianças nativas da própria cultura.

1907: de calça comum, ele para ao lado da pista da escola, vê os atletas do salto em altura falharem e passa a barra na primeira tentativa. O treinador Glenn “Pop” Warner o chama para a equipe no dia seguinte.

Novembro de 1911: com Thorpe no ataque e quatro chutes certeiros dele, Carlisle, uma escola de poucas centenas de alunos, vence Harvard no futebol americano por 18 a 15.

Julho de 1912: em Estocolmo, ele vence o pentatlo e o decatlo, duas provas que somam 15 disputas, de corrida rasa a lançamento de dardo. O rei Gustavo V, da Suécia, entrega as medalhas de ouro com a própria mão.

Janeiro de 1913: um jornal de Massachusetts revela que Thorpe recebeu salário para jogar beisebol em 1909 e 1910. Em poucas semanas, as medalhas são devolvidas ao Comitê Olímpico Internacional (COI).

Entre a cabana de Prague e a devolução do ouro cabem 26 anos. A primeira seção conta quanto pagavam aqueles verões na Carolina do Norte e por que ninguém contestou a punição dentro do prazo.

 

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I  A Queda

Os verões de Rocky Mount

 
 

Jim Thorpe tinha 22 anos quando, no verão de 1909, aceitou o convite de dois colegas de Carlisle para jogar beisebol na Carolina do Norte. O time de Rocky Mount, na Eastern Carolina League (liga do leste da Carolina), pagava a ele cerca de 2 dólares por partida.

A prática era comum entre universitários americanos. Muitos jogavam por dinheiro nas férias e usavam nomes falsos para preservar o status de amador, exigido de quem quisesse competir numa Olimpíada. Thorpe assinou a súmula com o próprio nome.

Ele voltou em 1910, agora pelo time de Fayetteville, e jogou como arremessador e primeira base. O salário mal cobria comida e pensão, e os registros do campeonato guardaram a escalação dele, partida por partida.

Em 1911, retornou a Carlisle e ao futebol americano. Warner treinava a equipe da escola e preparava o atleta para a seleção olímpica dos Estados Unidos. No navio Finland, a caminho da Suécia em 1912, Thorpe correu e saltou no convés com os demais atletas.

Em Estocolmo, venceu quatro das cinco provas do pentatlo em 7 de julho. Uma semana depois, no decatlo, somou 8.412 pontos, quase 700 à frente do segundo colocado, o sueco Hugo Wieslander.

Na cerimônia de premiação, o rei Gustavo V lhe disse: “O senhor é o maior atleta do mundo.” Segundo o relato reproduzido por Kate Buford na biografia Native American Son, de 2010, Thorpe respondeu: “Obrigado, rei.”

 

Num único verão olímpico, Thorpe venceu 2 provas que somavam 15 disputas e voltou aos Estados Unidos para um desfile na Broadway.

 

Em 22 de janeiro de 1913, o jornal Worcester Telegram publicou a reportagem de Roy Johnson sobre os verões de Rocky Mount. A Amateur Athletic Union (União Atlética Amadora, a AAU) abriu investigação em seguida.

Thorpe escreveu ao dirigente James Sullivan, da AAU, em 26 de janeiro: “Eu era apenas um estudante indígena e não sabia muito sobre essas regras.” Pediu desculpas e não negou nada. A AAU cassou o status de amador dele, e o COI riscou os resultados de Estocolmo.

As medalhas e os presentes do rei voltaram para a Europa. O ouro do pentatlo foi para o norueguês Ferdinand Bie; o do decatlo, para Wieslander, que, segundo Buford, se recusou a recebê-lo.

Havia um detalhe que ninguém usou em 1913: o regulamento de Estocolmo previa protesto contra um resultado em até 30 dias após o encerramento dos Jogos. A denúncia chegou seis meses depois, fora do prazo, e Thorpe não tinha advogado nem entidade que o defendesse.

 
 
 

II  O Triunfo

O contrato com os Giants

 
 

Jim Thorpe assinou com o New York Giants, do beisebol profissional, em 1º de fevereiro de 1913, dez dias após a reportagem do Worcester Telegram. Sem o status de amador, já não havia regra a proteger, e o contrato o colocou entre os estreantes mais bem pagos da liga.

Jogou seis temporadas na Major League (a liga principal do beisebol), pelos Giants, pelo Cincinnati Reds e pelo Boston Braves. Em 1919, o último ano, rebateu para média de 0,327, acertando quase 1 em cada 3 tentativas.

Nos mesmos anos, jogava futebol americano profissional. Em 1915, o Canton Bulldogs, de Ohio, passou a pagar a ele 250 dólares por jogo, quantia rara num esporte que ainda lotava menos estádios que o futebol universitário.

Com Thorpe em campo, o Bulldogs ganhou os títulos de 1916, 1917 e 1919. O público passou a ir ao estádio para vê-lo correr com a bola e chutar de distâncias que poucos tentavam.

Em setembro de 1920, dirigentes de times de Ohio e de estados vizinhos se reuniram numa revenda de carros em Canton e fundaram a American Professional Football Association (Associação Americana de Futebol Profissional). Thorpe foi eleito o primeiro presidente. Em 1922, a entidade passou a se chamar National Football League, a NFL.

 

Em menos de uma década, ele foi campeão olímpico, jogador da liga principal de beisebol e primeiro presidente da futura NFL.

 

Entre 1922 e 1923, montou e treinou o Oorang Indians, de LaRue, em Ohio, time formado só por atletas nativos americanos. Jogou futebol americano até 1928, aos 41 anos.

A crise de 1929 encontrou Thorpe sem poupança. Trabalhou como figurante em Hollywood, segurança de bar e operário de obra. Em 1931, vendeu os direitos da própria história à MGM por 1.500 dólares.

O filme Jim Thorpe, All-American, com Burt Lancaster no papel principal, só estreou em 1951. Nessa época, ele vivia de palestras pagas em escolas e clubes.

Em 1950, uma enquete da Associated Press com jornalistas esportivos o escolheu como o maior atleta da primeira metade do século 20.

Jim Thorpe partiu aos 65 anos, em 28 de março de 1953, por insuficiência cardíaca, num trailer em Lomita, na Califórnia. A terceira mulher, Patricia, fez acordo com duas cidades da Pensilvânia, Mauch Chunk e East Mauch Chunk, que se fundiram em 1954 e adotaram o nome dele em troca do jazigo.

 
 
 
 

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III  A Lição

A sepultura na Pensilvânia

 
 

A família de Jim Thorpe passou três décadas reclamando o ouro. A virada veio de uma pesquisadora: Florence Ridlon achou nos arquivos o regulamento de 1912, com o prazo de 30 dias para protestos, e levou o documento ao COI ao lado do marido, Robert Wheeler.

Em outubro de 1982, o COI devolveu o título. Em janeiro de 1983, os filhos de Thorpe receberam réplicas das medalhas numa cerimônia em Los Angeles. Os livros oficiais, porém, mantiveram Bie e Wieslander como campeões, e Thorpe aparecia como co-campeão.

A correção completa demorou mais 39 anos. Em 2020, Nedra Darling e Anita Thorpe criaram o movimento Bright Path Strong (Caminho Brilhante Forte) e reuniram assinaturas, cartas de atletas e o apoio da família de Bie, na Noruega.

Em 15 de julho de 2022, exatos 110 anos após a última prova do decatlo de Estocolmo, o COI anunciou que Jim Thorpe era o único campeão olímpico do pentatlo e do decatlo de 1912. Bie e Wieslander passaram a constar como medalhistas de prata.

 

O que devolveu o ouro foi um papel de 1912 que ninguém tinha procurado em 1913: o prazo de 30 dias para protestos.

 

A história deixa três cuidados para quem perde um resultado por decisão de outros:

1. Ler a regra inteira. O prazo de 30 dias estava escrito desde 1912 e só foi lido sete décadas depois.

2. Ter quem fale por você. Em 1913, Thorpe respondeu sozinho, com uma carta de desculpas; em 1982 e em 2022, pesquisadores e ativistas levaram o caso adiante.

3. Seguir produzindo enquanto a disputa corre. Thorpe jogou 15 anos como profissional e ajudou a fundar a NFL sem esperar o COI.

As medalhas originais de 1912 sumiram de um acervo décadas atrás, e o paradeiro delas segue desconhecido; nenhum registro público mostra quem as levou. As réplicas de 1983 ficaram com a família.

O corpo de Thorpe está num mausoléu de granito na cidade de Jim Thorpe, na Pensilvânia. Em 2015, a Suprema Corte dos Estados Unidos recusou o recurso de dois filhos para levá-lo a Oklahoma, e o túmulo continua lá, aberto à visita.

Os fatos centrais desta edição vêm de Native American Son: The Life and Sporting Legend of Jim Thorpe, biografia de Kate Buford publicada em 2010, e dos comunicados oficiais do COI de 1982 e de 2022.

Caminho Brilhante, o nome que Charlotte deu ao filho na cabana de Prague em 1887, virou em 2022 a bandeira da campanha que pôs Jim Thorpe sozinho no alto do pódio de Estocolmo.

 

Se um prazo esquecido decidisse o seu maior resultado, quem saberia achar o papel que prova a sua vitória?

 
 
Quiz da edição

No texto, quanto tempo depois do fim dos Jogos de Estocolmo a denúncia sobre o beisebol pago chegou ao COI, furando o prazo de protesto do regulamento?

A30 dias depois, ainda dentro do prazo oficial
BSeis meses depois, fora do prazo de 30 dias
CDois anos depois, quando o prazo já nem existia
DUma semana depois, com os Jogos ainda em curso

Resultado da última edição: 33% acertaram.

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